Luís Marques Mendes reagiu com inesperado amadorismo à polémica sobre a sua vida profissional e as suas ligações políticas. Qualquer pessoa dotada da capacidade para antecipar o óbvio deveria ter percebido há muitos meses que, depois do caso Spinumviva, um candidato com uma empresa familiar que tem como sócios a mulher e os filhos iria ser alvo do mais implacável escrutínio. Além de ter dissolvido a sociedade, Marques Mendes deveria ter tomado a iniciativa de revelar a lista completa dos clientes e de explicar detalhadamente o que fez para cada um deles. Em vez disso, ficou à espera que surgissem as perguntas e as suspeições, como se estivesse a fazer figas para que ninguém se lembrasse de falar sobre o assunto. Podia ter controlado e arrumado o tema, mas ficou a servir de saco de pancada dos adversários.
António José Seguro também teve dificuldades em ver o óbvio. Com o espaço da direita hiperlotado, evidentemente ele devia ter-se apresentado desde o início como o único candidato viável da esquerda. Há aquela frase célebre: “Se anda como um pato, se nada como um pato e se fala como um pato, então é porque é um pato”. Se Seguro foi líder da JS, se foi líder do PS e se fez toda a vida no PS, então é porque é socialista e, por definição, de esquerda. Mas, até chegar a essa conclusão incontestável e começar a apelar ao voto útil de toda a esquerda, António José Seguro embrulhou-se em conversas sobre “gavetas” e sobre a sua irreprimível vontade de agradar à direita desiludida com Marques Mendes.
Henrique Gouveia e Melo também tentou, absurdamente, agradar a toda a gente: aos que odeiam o sistema e aos que idolatram o sistema; aos que adoram Mário Soares e aos que desconfiam de Mário Soares; aos que já votaram no PS, aos que já votaram no PSD, aos que já votaram na IL e aos que já votaram no Chega. O almirante conseguiu o extraordinário feito de fazer com que os eleitores tenham hoje mais dúvidas sobre o que lhe anda na cabeça do que tinham no tempo em que ainda não tinha aberto a boca para falar sobre nada. Ninguém verdadeiramente sabe se um voto em Gouveia e Melo é útil ou pernicioso. Nas presidenciais, queria ser o novo general Ramalho Eanes, mas corre o risco de ser o novo almirante Pinheiro de Azevedo.
André Ventura comportou-se na primeira parte da campanha como a atual líder do Partido Conservador inglês. As pessoas mais próximas de Kemi Badenoch dizem que ela tem a capacidade autodestrutiva de começar uma rixa mesmo numa sala vazia. Como se sabe, o combustível político de André Ventura são os inimigos. Esses inimigos podem ser internos ou externos, mas convém, apesar de tudo, que não sejam totalmente imaginários, para que o líder do Chega não pareça um fantasista ou um charlatão. A dada altura, acalmou-se e disciplinou-se. O seu grande objetivo nesta campanha era convencer os fiéis do Chega de que o voto útil nesta eleição era nele e não no almirante — e tudo indica que conseguiu.
João Cotrim de Figueiredo apostou nos jovens, que, em tese, sentem a liberdade de votar sem se deixarem condicionar por cálculos e contas.
Catarina Martins tentou apresentar-se como a legítima herdeira de Mário Soares e de Jorge Sampaio, ignorando que não é possível passar uma vida inteira a habitar o radicalismo para depois se reclamar como a representante confiável da esquerda moderada e bem comportada.
António Filipe refugiou-se na mais empedernida ortodoxia, tentando assim persuadir os simpatizantes do PCP de que o voto em qualquer outro candidato será uma rendição ao desprezível “consenso neoliberal”.
Jorge Pinto apareceu como o último recurso de um partido que preferia a unidade da esquerda e só apresentou um candidato próprio porque tinha mesmo de ser.
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