sábado, 17 de janeiro de 2026

André Ventura contra todos os outros...


Sobre as presidenciais, depois de todos os debates, polémicas e sondagens, só parece haver duas ideias geralmente aceites. A primeira é que André Ventura é o candidato com mais probabilidade de passar à segunda volta. A segunda ideia é que André Ventura é o candidato com menos probabilidade de ser eleito. Entre estes dois lugares-comuns, está desenhado o impasse da política portuguesa.

A primeira opinião traduz o facto de André Ventura ser o único líder político em actividade que interessa aos portugueses. Os debates mais vistos foram aqueles em que ele esteve. E foi curioso ver alguns dos seus rivais adoptarem contra ele os tiques e os truques que lhe são atribuídos: interrupções, elevações da voz, risos. Julgam mesmo que o sucesso de Ventura foi apenas técnica de comunicação. Não percebem que foi uma questão de substância, isto é, que Ventura interessou, não porque tivesse jeito e graça, mas porque falou do que os portugueses estavam a falar: o choque a que o país foi sujeito quando percebeu que os governantes, sem lhe perguntarem, tinham decidido abolir qualquer controle da imigração. Toda a gente falava disso em privado, ninguém falava em público, por receio de ser posto na fogueira como racista ou desumano. Ventura foi o líder político que ousou falar do assunto, e da perspectiva que importa: a da coesão nacional, que é o primeiro pilar da democracia, da segurança e da solidariedade social.
Esqueçam o estilo. Ventura é o único político activo que está associado a uma causa, e mais: à necessidade de manter essa causa, que não é uma causa qualquer, mas existencial, no debate público. Perante Ventura, os demais políticos podiam ter reagido comprometendo-o em políticas públicas de resposta aos problemas; em vez disso, viram apenas a oportunidade de, fazendo dele um monstro a que seria preciso resistir, arranjarem uma maneira de ficarem no poder sem resolverem problema nenhum. Percebe-se que o país não se possa arriscar a não ter André Ventura na segunda volta.

A segunda opinião traduz uma convicção: a de que o país, embora alarmado com o caos migratório, o colapso dos serviços públicos ou a estagnação económica, e, por isso, a precisar de levar André Ventura à segunda volta como testemunha desse alarme, ainda não quer rupturas, e, portanto, acabará por não eleger Ventura. É com o que contam os outros candidatos. Nenhum deles está associado a uma grande causa, nenhum deles prestou um grande serviço ao país, nenhum deles beneficia sequer de grande estima, como Marcelo Rebelo de Sousa quando foi eleito. São apenas candidatos contra André Ventura, e só esperam ser eleitos, não porque o país os deseje como presidentes, mas por não serem Ventura. Cotrim de Figueiredo, que pisou as “linhas vermelhas” por distracção, tentou logo redimir-se, colando-se ao governo de Montenegro (“conte comigo”). Eis o que é o anti-venturismo: a redução da política à defesa mecânica do status quo. É isso que estes candidatos representam da maneira mais indiferenciada.

Ganharão mesmo, esses anti-Venturas? E se ganharem desta vez, ganharão da próxima? Talvez André Ventura ainda represente, para muitos, um risco. Mas perante a perigosa experiência a que a oligarquia está a sujeitar a sociedade portuguesa, esse risco parecerá, por comparação, cada vez menor. Haverá um momento em que Ventura, por mais controverso, surgirá como o único meio de restaurar a normalidade. Com o seu anti-venturismo tão cínico como bacoco, a oligarquia anda apenas a adiar o dia em que já não conseguirá parar André Ventura.