Há textos que não pretendem convencer: pretendem desencantar. O artigo de Jaime Nogueira Pinto inscreve-se nessa linhagem rara — a dos textos que recusam discutir apenas quem aparece nas urnas e insistem em perguntar porquê. Porque razão surgem figuras como Trump, Ventura ou Le Pen? Porque razão a política, em largas camadas do eleitorado, deixou de ser escolha e passou a ser fastio?
A resposta é incómoda para o comentário bem-pensante: não foram estas figuras que deformaram o sistema; foi o sistema que, ao estagnar, as tornou inevitáveis.
O chamado centrão — essa zona morna onde tudo se mistura sem nunca verdadeiramente decidir — transformou a política num pântano. Um espaço onde abundam candidaturas “úteis” apenas no sentido táctico, desprovidas de densidade histórica, cultural ou civilizacional. Um espaço onde se vota não por esperança, mas por medo; não por convicção, mas por cálculo.
É neste contexto que a análise de Jaime Nogueira Pinto se torna particularmente certeira: à Direita conservadora e -a popular resta uma única opção real — André Ventura. Não por fetichismo pessoal, mas por coerência estrutural. Porque, ao contrário do centrão fragmentado em quatro candidaturas intercambiáveis, este espaço político reconhece que sem ruptura não há alternativa.
A reacção histérica do sistema confirma o diagnóstico. Tal como em França, onde Marine Le Pen venceu primeiras voltas para depois ser travada por frentes artificiais “antifascistas”, também entre nós se prepara o mesmo reflexo condicionado: unir tudo e todos contra quem ousa mexer na água parada. Não é uma defesa da democracia; é a sua mumificação. Mais grave ainda é a ilusão persistente da Esquerda mediática. Partidos que hoje mal somam dois dígitos comportam-se como se representassem metade do país. Falam alto porque sempre falaram alto; ocupam espaço porque nunca aprenderam a desocupá-lo. A História recente — de 1974 a 1975 — não é uma nota de rodapé: é uma herança mal digerida, agora lentamente percebida por um eleitorado que começa a ligar os pontos.
A chamada “pedra no charco” não é um capricho populista. É o último recurso de um sistema fechado sobre si próprio. Ventura - com todas as imperfeições que um político real inevitavelmente tem — percebeu algo que a direita envergonhada recusou durante décadas: valores não são propriedade de regimes mortos, nem conceitos como Nação, Família ou soberania são monopólio do passado. Podem - e devem - ser defendidos em democracia.
Por isso, o espanto fingido perante figuras como Trump ou Ventura é, no fundo, um acto de má-fé. Continuam a perguntar como foram possíveis, porque não querem perguntar que mundo os tornou necessários. Um mundo onde a ordem liberal morreu, mas os seus administradores insistem em governar como se ainda respirasse.
Quando o pântano se instala, a pedra no charco deixa de ser excentricidade. Passa a ser sinal de vida.

