Há um vício antigo no jornalismo português que, nos últimos anos, degenerou em patologia profissional: a convicção de que a política falha porque não produz personagens à altura da memória sentimental das redacções. Surgiu mais um artigo de Miguel Pinheiro é um case study dessa doença.
Pinheiro não analisa a realidade. Mede o presente com régua do passado e, como era previsível, conclui que tudo é pequeno. O problema não é a conclusão; é o pressuposto. Líderes não aparecem porque comentadores os invocam, nem porque jornalistas sentem a sua falta. Os líderes surgem quando o sistema entra em ruptura e precisa deles. Antes disso, são apenas impossibilidades históricas.
Os nomes citados — Sá Carneiro, Cavaco Silva, Passos Coelho — não são prova de decadência. São prova exactamente do contrário: cada um apareceu quando foi funcional ao sistema. Sá Carneiro serviu a fundação; Cavaco a estabilização; Passos a emergência. Nenhum deles foi produto de saudade, comparação ou desejo mediático. Foram respostas duras a tempos duros.
O erro de Pinheiro é o mesmo erro estrutural do centrão que tantas vezes desmontaste no ReVisões: imaginar que a política é um exercício de continuidade civilizada, quando o país vive há anos num pântano de estagnação, bloqueio institucional e medo de ruptura. Um centrão que governa, comenta e julga — e que depois se espanta quando surgem figuras que não pedem licença.
Ventura não é um acidente; é um sintoma. Um sintoma de um sistema que já não responde, de uma ordem liberal esgotada, de uma política reduzida à gestão moral e à chantagem simbólica. Quando tudo é consensual, só o excesso rompe o silêncio.
Ao escrever como escreve, Pinheiro não critica a ausência de líderes — legitima o vazio. Porque substitui análise por nostalgia, conflito por comparação histórica, realidade por mitologia política. É o mesmo jornalismo que normalizou a judicialização da política, que aplaude tribunais quando corrigem votos, que prefere decisões técnicas a escolhas populares — e que depois se indigna quando o povo escolhe mal.
Este jornalismo não forma leitores. Forma órfãos. E, pior ainda, forma jornalistas futuros convencidos de que pensar é comparar, analisar é desvalorizar e compreender é recordar. Assim não se interpreta a História. Assim arquiva-se o presente — ainda vivo.
E um jornalismo que arquiva o presente acaba inevitavelmente ultrapassado por ele.

