Há textos que valem menos pelo alinhamento partidário que recusam do que pela lucidez com que desmontam um automatismo mental instalado. O brilhante texto de André Abrantes Amaral inscreve-se nessa categoria rara. Não é um texto de apoio a André Ventura — e é precisamente por isso que merece ser levado a sério. O seu alvo não é o líder do Chega, mas a estratégia discursiva daqueles que dizem combatê-lo e acabam, sistematicamente, por o reforçar.
Essa estratégia é hoje demasiado familiar. Consiste em transformar Ventura no espantalho moral do regime, colando-lhe rótulos máximos — “fascista”, “antidemocrata”, “ameaça existencial à democracia” — numa inflação verbal que dispensa análise e substitui o argumento pelo anátema. O efeito é perverso: quem acusa perde credibilidade, quem é acusado ganha centralidade, e o debate público degrada-se num teatro de exorcismos.
Convém dizê-lo sem rodeios. Chamar fascista a André Ventura não é apenas intelectualmente preguiçoso; é politicamente contraproducente. Pode — e deve — discutir-se o seu populismo, a demagogia das suas promessas, a elasticidade ideológica do seu discurso, a pressão retórica que exerce sobre instituições e comunicação social. Tudo isso pertence ao campo normal da crítica democrática. Mas reduzir o fenómeno Ventura a um regresso do fascismo histórico é um erro de diagnóstico que apenas revela a incapacidade de compreender o país real.
E é aqui que o texto de Amaral toca num ponto essencial, que no ReVisões tem sido reiteradamente sublinhado: Ventura não cresce no vazio. Cresce num país com salários estruturalmente baixos, acesso cada vez mais difícil à saúde, uma crise de habitação que atinge já várias gerações e reformas que prometem pouco mais do que sobrevivência. Cresce depois de três décadas de “consensos responsáveis” que, vistos à distância, produziram imobilismo, captura partidária do Estado e uma democracia cada vez mais formal e cada vez menos substantiva.
O erro da esquerda — acompanhada por uma parte significativa do centro-direita mediático — é duplo. Primeiro, tratar o descontentamento social como um problema moral, não político. Segundo, acusar os eleitores de desvio democrático sempre que recusam alinhar num candidato apresentado como “o único aceitável”. Quando se encosta uma parte do país à parede, não se está a defender a democracia; está-se a corroê-la.
Há um erro estratégico mais fundo: alinhar na lógica de divisão que se diz combater. Dividir o país entre “democratas” e “antidemocratas” não é substancialmente diferente de o dividir entre “bons” e “maus” portugueses. É aceitar o terreno do adversário e jogar com as suas regras. É, no fundo, dar-lhe vantagem à partidaA experiência recente em França deveria servir de aviso. A demonização sistemática da direita populista pelo centro-direita e pelos socialistas não resolveu problema algum. Agravou-os. Consolidou clivagens, cristalizou ressentimentos e deixou o sistema político refém de alianças negativas, feitas mais por medo do que por projecto. A convicção portuguesa de que somos moralmente imunes a esse percurso é uma ilusão recorrente — até ao dia em que se bate na parede. E, como a história ensina, com estrondo.
Há ainda um factor geracional que o jornalistado insiste em ignorar. A democracia portuguesa tem mais de cinquenta anos. Para uma parte significativa do eleitorado, o “fantasma do fascismo” não é memória vivida, mas narrativa herdada — frequentemente instrumentalizada. Usá-la como arma absoluta num combate político quotidiano é esvaziá-la de sentido. Quando tudo é fascismo, nada o é.
Nada disto implica absolver André Ventura de críticas sérias, nem subscrever o seu discurso identitário ou as suas soluções fáceis. Implica apenas recusar a histeria moral como método político e denunciar o activismo disfarçado de jornalismo. Um jornalismo que não explica, não contextualiza e não escuta; que se limita a distribuir certificados de virtude democrática, abdica da sua função essencial. Torna-se actor político, ainda que continue a fingir neutralidade.
Talvez esteja aqui a ironia maior: ao transformar Ventura no eixo moral do regime, o jornalistado e o comentariado não o combatem — legitimam-no. Fazem dele o espelho deformado de um sistema que prefere insultar os seus críticos a reformar-se. E enquanto assim for, continuará a falhar onde mais importa: na compreensão do país que diz representar.
Agulhadas finais
— Quem chama fascista a tudo o que incomoda acaba, invariavelmente, a fazer campanha pelo incómodo.
— O activismo mediático não substitui política pública nem resolve descontentamentos reais.
— Um sistema que só se sabe defender por exorcismos morais já desistiu de se reformar.


