Para o politólogo e escritor Jaime Nogueira Pinto, o que está em jogo nesta segunda volta é uma clara bipolarização entre a direita nacional conservadora e popular e aquilo a que chama “o resto”: a direita consentida, a “direita da esquerda”, o “Centrão”, o centro-esquerda e a esquerda radical, que considera hoje residual, valendo menos de 4%. Na sua leitura, a direita não-socialista está com André Ventura e este poderá ainda atrair eleitores dos candidatos que ficaram pelo caminho na primeira volta.
Jaime Nogueira Pinto considera que António José Seguro é o candidato do “Centrão” preferido por parte da direita, até porque é, nas suas palavras, “um espécimen raro, numa classe política onde um político honesto tende a aparecer, aos olhos do povo, como um bem escasso”. Destaca ainda a composição “curiosa” do eleitorado de Seguro, que inclui “socialistas moderados e centristas, mas também, a contragosto, a esquerda do PS, mobilizada pelo ‘anti-fascismo’ e pelo argumento de ‘salvar a democracia’”, bem como todos os eleitores afetados pelo que designa por SDAV - Síndrome Disfuncional Anti-Ventura -, “fenómeno que, como se viu na noite eleitoral, pode gerar reações descontroladas até nos comentadores mais moderados”.
Em síntese, para o politólogo, "porque António José Seguro pertence a uma esquerda moderada e é pessoalmente respeitável, desta vez será fácil contar com a direita claramente anti-socialista mas mais difícil contar com a direita que não se identifica com a direita nacional conservadora ou que ainda não consegue votar em Ventura".
Jaime Nogueira Pinto rejeita a ideia de que a polarização em curso seja entre socialismo e populismo autoritário, ou entre democráticos e anti-democráticos, como muitos defendem. Recorda que as autocracias “são poderes não democráticos por herança, sem limites e derivados da força ditatorial”, enquanto André Ventura é, segundo afirma, “essencialmente, um fenómeno democrático que vive em democracia, da democracia e do voto popular”. Sublinha ainda o crescimento rapidíssimo do Chega, que em seis anos multiplicou por vinte o seu eleitorado, acrescentando que António José Seguro “também não é tão socialista como isso”.
Na sua perspetiva, estes candidatos “não têm grande necessidade, nem interesse, em radicalizar excessivamente” a campanha. Na opinião do politólogo, André Ventura poderá “aproveitar a sua visão de direita para denunciar o estado de um país governado pela esquerda há meio século, com exceção dos períodos do primeiro cavaquismo e do governo de Passos Coelho”. Já António José Seguro poderá “deixar a radicalização para os anti-fascistas e surgir como uma figura conciliadora”.
Nogueira Pinto sublinha ainda a importância da abstenção, que considera potencialmente decisiva, observando que, “de certo modo, foi essa a recomendação implícita deixada por figuras e forças políticas que ficaram de fora, como Cotrim de Figueiredo, Gouveia e Melo e o PSD”.
Em conclusão, Jaime Nogueira Pinto afirma que o “Centrão” e os seus eleitores estão a ser “forçados a uma definição clara”. E admite um cenário em que ambos os candidatos podem sair a ganhar:
“André Ventura como líder incontestável da direita e António José Seguro como Presidente da República”.
