A queda de um ditador deveria ser, numa democracia liberal, um momento de clareza moral. Um instante raro em que as diferenças ideológicas se suspendem perante um facto simples: um regime opressivo termina, um povo livra-se de um poder ilegítimo, e o mundo torna-se, ainda que imperfeitamente, um lugar menos injusto. No caso da Venezuela, nada disso aconteceu. Pelo menos não em Portugal.
Perante o colapso do regime de Nicolás Maduro, assistiu-se antes a um espectáculo de hesitação, desconforto e racionalização. Ninguém ousou defender abertamente o ditador, é certo. Mas muitos apressaram-se a explicar por que razão a sua queda era, afinal, problemática. O argumento-chave foi o de sempre: o sacrossanto “direito internacional”, invocado selectivamente, como arma retórica, não como princípio coerente.
Esta reacção revela uma profunda hipocrisia. Os mesmos que hoje erguem o direito internacional como um dogma absoluto nunca o mobilizaram com igual zelo para condenar a ditadura venezuelana, as eleições fraudulentas, a repressão política, a miséria imposta a milhões ou o êxodo massivo da população. O direito internacional só se torna súbita e miraculosamente relevante quando serve para travar uma acção americana — sobretudo se essa acção estiver associada a Donald Trump.
É aqui que entra o conhecido Trump Derangement Syndrome (TDS): a incapacidade de avaliar qualquer acontecimento internacional fora do reflexo pavloviano do anti-trumpismo. Tudo o que Trump faz está mal por definição; tudo o que os Estados Unidos fazem é suspeito à partida. A análise deixa de ser política ou estratégica e passa a ser emocional, moralista e previsível.
Daí surgirem comparações absurdas, como a equiparação entre a intervenção americana na Venezuela e a invasão russa da Ucrânia. A comparação não resiste a uma análise minimamente séria. Na Ucrânia, uma democracia foi atacada por uma ditadura, resultando numa guerra prolongada, centenas de milhares de mortos e milhões de refugiados. Na Venezuela, uma ditadura foi derrubada, sem vítimas civis, por uma acção cirúrgica que pôs termo a um regime ilegítimo. Confundir estes dois cenários é mais do que erro: é cegueira ideológica.
Também se ignoram factos politicamente incómodos. Maduro sempre apoiou a Rússia na agressão à Ucrânia. Nunca manifestou solidariedade com os ucranianos. Ainda assim, muitos dos que hoje choram o “direito internacional” parecem mais indignados com Washington do que alguma vez estiveram com Moscovo ou Caracas.
A insensibilidade em relação aos portugueses da Venezuela é outro aspecto revelador. Durante anos, milhares viveram sob um regime que destruiu a economia, corroeu a segurança e forçou a emigração em massa. Ainda assim, figuras da política portuguesa preferiram condenar a intervenção americana a celebrar o fim de um poder que directamente afectou compatriotas seus. Para alguns, Maduro era um mal menor face ao pecado original de uma acção liderada pelos EUA.
Há, ainda, a leitura geopolítica simplista que anuncia o fim da ordem internacional e a legitimação das “esferas de influência” da Rússia e da China. Mas essa leitura ignora que a intervenção na Venezuela pode precisamente reforçar a posição americana, enfraquecer a China enquanto potencial aliada energética de Caracas, pressionar a Rússia através do mercado petrolífero e expor, mais uma vez, a irrelevância estratégica da Europa, dividida entre a submissão envergonhada e a indignação retórica.
O mundo mudou. As organizações internacionais estão fragilizadas, a Europa fala muito e pesa pouco, e o idealismo jurídico já não substitui o poder real. Lamentar isso não o faz desaparecer. Recusar-se a pensar o mundo como ele é, preferindo fantasias morais selectivas, apenas garante mais irrelevância.
A queda de um ditador é sempre motivo de alegria. Tudo o resto — as reticências, as comparações delirantes, as invocações selectivas do direito internacional — diz mais sobre quem comenta do que sobre o acontecimento em si. Talvez seja tempo de abandonar preconceitos automáticos, olhar os factos de frente e reconhecer uma verdade simples: nem tudo o que desagrada às esquerdas é um erro histórico, e nem toda a acção americana é, por definição, um crime moral.


