Em 25 de Janeiro de 1975, no Palácio de Cristal do Porto, o primeiro Congresso do Centro Democrático Social (hoje CDS – Partido Popular) foi interrompido por um cerco de militantes e simpatizantes da extrema-esquerda. Durante mais de doze horas, manifestantes rodearam o edifício, condicionaram a realização dos trabalhos e, segundo testemunhos da altura, houve feridos e constrangimentos graves antes que as Forças de Segurança pudessem repor a ordem. (arquivos.rtp.pt)
Esse episódio — que passou para a história política portuguesa como um sinal da radicalização e intolerância que marcou o Processo Revolucionário em Curso — constituiu uma ameaça direta à livre organização e expressão de um partido político recém-nascido, numa fase em que a democracia portuguesa ainda se debatia com forças políticas que recusavam regras e pluralismo. (TSF)
Hoje, 51 anos depois, é recorrente ouvir-se — nas palavras de alguns cronistas e comentadores — que se vive um “cerco” semelhante, desta feita dirigido ao PARTIDO CHEGA. Não se fala de barricadas nem de bloqueios físicos, mas de uma pressão política, mediática e institucional que procura limitar o espaço de um partido que desafia a ortodoxia política vigente. Trata-se, como bem argumenta o texto no Blasfémias, de uma resistência dos chamados “partidos estruturais” — PSD, CDS e outros — a uma força que, vindo “de dentro” do sistema, põe em causa pactos informais, equilíbrios de bastidores e redes de influência entranhadas no aparelho estatal e corporativo. (BLASFÉMIAS)
O cerco ao CDS em 1975 foi físico e explícito: manifestantes bloquearam a entrada ao congresso, criaram uma situação de tensão direta e forçaram uma interrupção dos trabalhos. Foi um exemplo claro de intolerância política que, numa sociedade livre, se só por si deveria ter sido decisivamente condenado por todos os defensores da democracia plural. (arquivos.rtp.pt)
Já o “cerco” ao Chega no presente não é feito com corpo, mas com linguagem e práticas políticas e mediáticas. Não é a violência nas ruas, mas a violência do discurso: a construção de uma narrativa que tenta associar o partido e o seu líder a periculosidades latentes à democracia. Esta narrativa, muitas vezes difundida e amplificada por setores dos media e do establishment político, baseia-se explicitamente no medo — medo de mudança, medo de perda de poder, medo de ruptura com práticas consensuais que, apesar de duramente criticadas por muitos, se tornaram parte do “modus operandi” da política tradicional. (BLASFÉMIAS)
O medo como instrumento político
No texto de Blasfémias, a autora desmonta a versão oficial difundida por muitos comentadores: segundo esta narrativa dominante, o Chega seria um “risco para a democracia”. Mas, como argumenta, esta explicação é insuficiente para justificar a hostilidade constante que se observa — não apenas contra ideias, mas contra o próprio espaço político que o Chega ocupa. O que verdadeiramente se teme, sugere-se, não é a perda da democracia, mas a perda de um controlo que partidos como o PSD e o CDS mantêm há décadas nas engrenagens do poder. (BLASFÉMIAS)
Esta leitura não é teoria da conspiração: é, antes, uma análise crua de como funcionam muitas vezes as relações de poder num regime que se orgulha de «democracia» mas que, no concreto, tende a favorecer a perpetuação de elites e de práticas discretas de influência, redes clientelares e acordos tácitos. Um partido que se recusa a entrar nesses jogos e que expõe essas dinâmicas torna-se instintivamente um alvo. (BLASFÉMIAS)
Comparar o cerco físico que o CDS sofreu em 1975 com a atual pressão política ao Chega não é equiparar literalmente situações diferentes. O contexto sociopolítico de 1975 — num país ainda marcado pelo PREC, por confrontos ideológicos e por uma transição recente da ditadura para a democracia — não é o mesmo que o de 2026. O cerco ao CDS aconteceu no quadro de uma luta aberta entre forças que, em muitos casos, rejeitavam a própria noção de pluralismo democrático. (Wikipedia)
O “cerco” ao Chega, no entanto, manifesta-se em múltiplas frentes: debates acalorados, tentativas de deslegitimar nas urnas ou nos media, apelos à contenção e à exclusão política e social. É um cerco de natureza simbólica e discursiva, mas não menos relevante — porque molda percepções, influencia decisões e tem impactos reais na vida política do país.
há que aprender com a história para não repetir o silêncio
A memória histórica do que aconteceu no Palácio de Cristal, há 51 anos, não deve ser um simples anedotário de datas e efemérides. Deve servir de alerta: quando uma sociedade tolera a exclusão de vozes políticas em nome de discursos de medo, corre o risco de criar um ambiente em que a própria democracia se torna frágil — não por falta de instituições, mas por falta de pluralismo e coragem para enfrentar ideias divergentes sem recorrer à marginalização e ao reduzido espaço parlamentar.
Hoje, como ontem, é essencial defender que todas as correntes políticas possam apresentar as suas propostas e debater as suas ideias. A história do CDS em 1975 ensina-nos que o cerco, seja físico ou simbólico, é sempre um sinal de fragilidade democrática — e que a resposta deve ser, não mais cerco, mas mais diálogo e mais verdade política.


