quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

do "la barrage.fr" às "linhas vermelhas.pt"

França e Portugal: duas presidenciais, o mesmo “sistema imunitário” (e o mesmo risco de falha)
Em França, a presidência é o coração do regime; em Portugal, é a chave de aberturas e fechos (dissolver, vetar, arbitrar). Mas há um traço comum que atravessa Paris e Lisboa: quando surge um candidato que ameaça reordenar o tabuleiro, activa-se a mesma liturgia — o “cordão sanitário” com incenso mediático, a palavra “perigo” em loop, e a velha moral do “voto responsável” a bater à porta do eleitor como Testemunha de Jeová em véspera eleitoral.
Le Pen e Ventura: semelhanças reais, diferenças decisivas
Semelhança principal: ambos são tratados como teste de stress ao regime. Marine Le Pen, no segundo turno de 2017 e 2022, foi o adversário “útil” para reunir contra si uma coligação negativa: não se vota “por” Macron; vota-se “contra” Le Pen. A literatura e a análise pós-eleitoral descrevem bem este mecanismo, onde a competição se organiza menos por adesão do que por repulsa. 
Em Portugal, Ventura encaixa no mesmo molde: chega ao patamar em que a pergunta já não é “se” tem base eleitoral, mas “se” o sistema consegue impedir que essa base se converta em maioria agregada no segundo turno. E os dados recentes apontam para uma eleição fragmentada e para uma segunda volta provável — e, ao mesmo tempo, para um nível de rejeição de Ventura suficientemente alto para tornar difícil ganhar o frente-a-frente final.
Diferença decisiva: em França, o “frente republicana” é um reflexo condicionado antigo e nacional; em Portugal, o anti-Chega é mais recente e mais dependente da engenharia mediática diária (comentariado, jornalistado, “fact-checking” selectivo, indignação por turnos). 
Resultado: o mecanismo pode ser eficaz… mas também pode cansar, e quando cansa transforma-se em combustível.
O papel das imprensas: a França do “barramento” e Portugal do “cerco permanente” 
Imprensa francesa: tende a funcionar como amplificador do “barramento” (la barrage), sobretudo na segunda volta, reforçando a ideia de que há uma fronteira moral a defender — o que facilita a convergência táctica entre campos ideologicamente incompatíveis (do centro liberal à extrema-esquerda). Essa dinâmica ficou visível nos ciclos recentes e ganhou novo relevo com a crise de governabilidade francesa e a reorganização das alianças à esquerda. 
Imprensa portuguesa: faz algo semelhante, mas com um estilo mais “micro-gestão”: não é só “na segunda volta”. É todos os dias, a todas as horas, com o candidato transformado em assunto, e o assunto transformado em alarme. O paradoxo é conhecido: quanto mais o cerco fecha, mais o sitiado consolida a tribo — e depois, para espanto geral, “cresceu nas sondagens”. (Mistério insondável: ninguém sabe porquê. Nem o painel de comentadores. Nem o painel de comentadores do painel de comentadores.)
E aqui há um detalhe moderno: Ventura não depende apenas dos canais tradicionais; usa-os como matéria-prima para circular nas redes, recortando, reenquadrando e devolvendo ao público sob a forma de “prova” de perseguição. Há investigação académica recente exactamente sobre este padrão de uso de notícias e redes por Ventura enquanto “gatekeeper”. 
A “rejeição” de Le Pen e o risco do efeito bumerangue
O “modelo francês” tem funcionado assim: Le Pen chega ao segundo turno; o sistema une-se; Le Pen perde. Só que, quando se repete demais, a fórmula envelhece. E o envelhecimento acelera quando:
a crise do custo de vida não abranda;
a imigração e a segurança permanecem no centro do quotidiano;
a esquerda radical é percebida como sócia táctica do “sistema” para bloquear a direita populista (mesmo quando diz odiar o “sistema”). 
Em França, este quadro é agravado por um factor objectivo e explosivo que a esquerda tem tentado em Portugal: a incerteza jurídica sobre a própria elegibilidade de Marine Le Pen para 2027, por via do processo e do recurso em curso. Se Le Pen ficar impedida, a sucessão interna (Bardella) pode mudar o estilo e a eficácia eleitoral do RN. 
Ou seja: o “barramento” pode voltar a funcionar… mas também pode falhar por saturação, ou por substituição de rosto e estratégia.

Pode acontecer “uma França” em Portugal?
Sim — mas com especificidade portuguesa.
O cenário “França”: Ventura passa à segunda volta; junta-se um bloco “anti” (do centrão à esquerda) para o travar; Ventura perde, mas sai reforçado politicamente porque normaliza o Chega como pólo inevitável do sistema. Isto é praticamente o equivalente funcional do que sucedeu em França (perder e crescer), adaptado ao nosso semi-presidencialismo. E o próprio retrato recente da corrida portuguesa sugere exactamente a combinação “segunda volta provável + rejeição elevada” que alimenta esse desfecho. 
O cenário “fadiga das ”linhas vermelhas": a campanha anti-Ventura atinge tal nível de histeria que se torna contraproducente; parte do eleitorado não “converte” no segundo turno e escolhe abstenção ou voto de protesto. Numa eleição com fragmentação e cansaço, isto pode apertar perigosamente o resultado.
O cenário chamemos-lhe o “acidente de regime”: uma segunda volta Ventura vs. candidato do “centrão” com baixa capacidade de mobilização emocional; a máquina mediática faz o que sabe, mas não consegue entusiasmar o eleitorado “anti” tradicionalmente abstencionista - e, quando o anti não sai de casa, a matemática torna-se cruel.

Premonição 
Com a informação pública disponível hoje, a aposta mais prudente é:
  • Ventura tem probabilidade alta de chegar à segunda volta, porque a fragmentação empurra os votos para três ou quatro pólos e ele tem um eleitorado muito identificado. 
  • Ganhar a segunda volta é mais difícil, precisamente por causa da rejeição elevada e do reflexo de “todos contra”.
A consequência política, mesmo numa derrota, pode ser grande: o Chega passará a ser o eixo em torno do qual a direita e o centrão se reorganizam (uns por aproximação táctica, outros por exclusão ritual). E a médio prazo isto empurra Portugal para o mesmo dilema francês: ou o sistema reforma as suas falhas (custos, serviços públicos, imigração, segurança, justiça), ou continuará a fabricar candidatos que diz abominar.

E a Europa?
A Europa vê nestas presidenciais (em França e em Portugal) um barómetro:
  • Se o “cordão” vencer sempre, Bruxelas respira — mas a pressão social acumula-se por baixo.
  • Se o “cordão” falhar uma vez, a mudança pode ser abrupta, e a UE terá de lidar com governos e maiorias mais soberanistas, mais conflituais e menos disponíveis para a moralização permanente de tudo.
Em suma: França e Portugal não são cópias — mas rimam. E, quando a história rima demasiadas vezes, há dias em que deixa de ser poesia e passa a ser contabilidade eleitoral.