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domingo, 11 de outubro de 2026

dois meses depois: Bazófia ou Processo?

 

02 Setembro 2026 Jornal 24 horas:
O ministro da Defesa Nacional continua sem responder às 49 perguntas enviadas pelo 24Horas sobre a aquisição de três fragatas FREMM EVO à italiana Fincantieri. O pedido, datado de 21 de agosto, procura esclarecer o preço, os intervenientes, os critérios de escolha e as contrapartidas de um investimento anunciado de cerca de 3,9 mil milhões de euros. Além de respostas, o jornal solicitou documentos oficiais — uma distinção relevante, porque a lei estabelece obrigações específicas de acesso à informação administrativa, mesmo quando estão em causa negócios militares.

quinta-feira, 16 de julho de 2026

A Metapolítica como Nova Frente de Combate Cultural na Europa

A Metapolítica ( o conjunto de bases teóricas, culturais e filosóficas) como Nova Frente de Combate Cultural na Europa
  • · Domínio Cultural: Focada na conquista da hegemonia cultural (popularizada por pensadores como Antonio Gramsci), busca moldar a linguagem, a moral e o imaginário coletivo.
  • · Dimensão Filosófica: Dedicada ao estudo dos fundamentos atemporais e das grandes categorias que condicionam o agir humano.
  • · Correntes Radicais: A actuação que visa superar as próprias bases da política institucional tradicional.
A política europeia está a atravessar uma transformação silenciosa, mas profunda. Não se trata apenas da ascensão de novos partidos, da erosão das velhas famílias políticas ou da crescente polarização social. O que está verdadeiramente em causa é uma mudança no terreno onde a política se decide. A disputa central deixou de ser apenas eleitoral e passou a ser cultural, simbólica, identitária. É neste contexto que importa compreender o papel metapolítico desempenhado por actores tão distintos como Alain de Benoist, Marco Tarchi, Guillaume Faye, Giorgia Meloni, Santiago Abascal e André Ventura. 
Apesar das diferenças evidentes entre eles - uns teóricos, outros dirigentes partidários - todos participam, de forma directa ou indirecta, num combate que antecede a política formal: a luta pela definição do sentido da cultura, da identidade e da legitimidade. A metapolítica, conceito popularizado pela Nouvelle Droite francesa, tornou-se a gramática subterrânea que estrutura grande parte da disputa política contemporânea.
A matriz intelectual: Benoist, Tarchi e Faye
Alain de Benoist, fundador da Nouvelle Droite, foi quem primeiro sistematizou a ideia de que a política se vence na cultura. Para Benoist, a hegemonia não se conquista apenas com votos, mas com a capacidade de moldar imaginários, narrativas e valores. A sua crítica ao universalismo liberal, ao individualismo e ao igualitarismo tornou-se a base conceptual para uma direita que procura redefinir o espaço cultural europeu.
Marco Tarchi, em Itália, desempenhou um papel complementar. Mais analista do que militante, Tarchi estudou o populismo como fenómeno cultural e não apenas eleitoral. A sua leitura da identidade, da representação e da crise das elites ajudou a traduzir a metapolítica francesa para o contexto italiano, influenciando sectores que viriam a convergir com o actual campo conservador.
Guillaume Faye representa a ruptura e a radicalização. Se Benoist privilegia a construção cultural lenta, Faye defende uma metapolítica de mobilização, conflito e urgência civilizacional. A sua ideia de “choque das civilizações internas”, a crítica ao “etnomasoquismo” e a defesa de uma identidade europeia combativa anteciparam a linguagem que hoje domina sectores identitários e movimentos digitais. Faye é, em muitos aspectos, o elo entre a teoria e a prática política contemporânea.
Da teoria à política
Giorgia Meloni, Santiago Abascal e André Ventura não são teóricos da metapolítica, mas são herdeiros práticos dessa cultura política. Nenhum deles cita Benoist ou Faye, mas todos utilizam enquadramentos que derivam dessa matriz: a defesa das raízes, a crítica ao globalismo, a centralidade da identidade nacional, a denúncia das elites cosmopolitas, a ideia de crise civilizacional. 
Meloni construiu uma narrativa de continuidade histórica italiana, onde tradição, família e soberania formam um tripé cultural que legitima a sua acção governativa.
Abascal, em Espanha, adoptou uma estratégia de guerra cultural explícita, com forte presença digital e uma retórica de confronto simbólico. 
Ventura, em Portugal, combina populismo penal com uma narrativa identitária que procura redefinir o “povo” e o “sistema”, usando os media como palco privilegiado. Todos estes actores compreendem que a política contemporânea é, antes de tudo, uma disputa pela definição do “nós”. A batalha não é apenas sobre políticas públicas, mas sobre quem tem autoridade para definir o sentido da comunidade política.

A grande inovação dos últimos anos é a transição da metapolítica clássica - centrada em revistas, think tanks e produção intelectual - para uma metapolítica digital, acelerada e emociona de que Faye é o precursor. A sua visão de mobilização identitária antecipou a lógica das redes sociais, onde símbolos, narrativas curtas e conflitos morais substituem longas elaborações teóricas. Meloni, Abascal e Ventura operam neste novo ecossistema. A guerra cultural é travada diariamente através de vídeos curtos, slogans, polémicas e enquadramentos morais. A metapolítica tornou-se performativa: não basta ter ideias, é preciso dramatizá-las. O que realmente os une:
Apesar das diferenças, há cinco elementos comuns:
  • - A política é cultural antes de ser eleitoral.
  • - A identidade é o eixo central da mobilização.
  • - O universalismo liberal é visto como ideologia dominante a contestar.
  • - A guerra cultural é método e não apenas retórica.
  • - A influência da Nouvelle Droite é directa ou indirecta.
A metapolítica tornou-se, assim, a nova frente de combate da política europeia. Não é um fenómeno marginal, mas o terreno onde se decide o futuro das democracias ocidentais. Ignorá-la é não compreender o mundo político que está a emergir

terça-feira, 7 de julho de 2026

o CHEGA entre Gramsci, Kaiser e a questão social. Faltava Leão XIII!

“o CHEGA ficou mais social”, ou 
“o CHEGA pode estar a intuir uma direita metapolítica, social e nacional” ?

O CHEGA ainda se declara “nacional, conservador, liberal e personalista”, mas o seu programa também fala de funções sociais, subsidiariedade, trabalhadores/empresários, sindicatos, reforma e coesão social. Isto permite a leitura que propõe — mas convém formulá-la como “inflexão” ou “intuição estratégica”, não como doutrina plenamente fechada.
Eu (ainda) não diria que o CHEGA já possui uma doutrina orgânica, fechada e consciente de “Nova Direita social” nos moldes alemães, franceses ou italianos. Mas já há sinais suficientes para defender que o partido de André Ventura intuiu uma ruptura com a velha direita portuguesa: menos “gestão liberal-conservadora” e mais direita nacional, social, popular e culturalmente combativa. Faltava-lhe e/ou ainda lhe falta consolidar uma "Ponte"

A Ponte que faltava e que aquele partido está a fazer com Leão XIII é muito pertinente. A Rerum Novarum não é socialismo; é precisamente uma resposta cristã ao conflito entre capital e trabalho, defendendo propriedade, família, salário justo, descanso, protecção dos operários e associações de trabalhadores. Leão XIII escreveu que o Estado deve melhorar a sorte da classe operária e que os pobres são cidadãos “com o mesmo título que os ricos”; também defendeu descanso, limites ao trabalho e sindicatos/corporações como meios legítimos de protecção social.
Mas o Chega ainda se declara “nacional, conservador, liberal e personalista” e o seu programa reconhece funções sociais do Estado em ensino, saúde e segurança social, invoca subsidiariedade, fala de “ancoragem no social”, defende a cooperação entre trabalhadores e empresários, admite sindicatos e ordens profissionais, e reconhece um plano público de pensões como garante de estabilidade e coesão social.
Talvez tenhamos andado a olhar para o fenómeno CHEGA com uma lente demasiado estreita. Vimos André Ventura através do Parlamento, das polémicas, dos soundbites, dos ataques mediáticos, das reacções indignadas do comentariado e dos sermões moralistas da velha direita. Mas talvez o essencial esteja noutro lugar: na lenta formação de uma direita nova, diferente da velha direita do CDS/PP e do PPD/PSD.
A velha direita portuguesa habituou-se a duas funções: gerir o Estado melhor do que o PS e pedir desculpa por existir. Era liberal na economia, conservadora nas ocasiões solenes e social apenas quando precisava de ir a eleições. Falava muito de contas certas, pouco de trabalhadores; muito de défice, pouco de povo; muito de responsabilidade orçamental, pouco de abandono social. Ora, a política mudou. E Ventura percebeu que uma direita sem questão social é apenas uma contabilidade com gravata.
Foi por isso que a frase -“se reduzir a idade de reforma para 65 anos ou para 40 anos de desconto é de esquerda, então vamos assumir que somos de esquerda, mas somos portugueses” - teve mais importância do que parece. Não era apenas uma tirada parlamentar. Era a afirmação de uma direita que já não aceita entregar à esquerda o monopólio do trabalho, da reforma, do salário, da juventude ou da protecção social.

Entrou Gramsci, 
recuperado por Benedikt Kaiser para a Nova Direita: antes do poder político vem o poder cultural. A política não se ganha apenas no Parlamento. Ganha-se nos conceitos, na linguagem, nos valores, nas redes sociais, nas organizações, nas editoras, nos jornais, nas associações, nas periferias, nos grupos concretos. Ganha-se quando uma ideia deixa de parecer excêntrica e passa a parecer senso comum.
mas faltava uma peça: Leão XIII.
A Rerum Novarum não é uma relíquia piedosa para sacristias doutrinárias. É uma das grandes respostas europeias à questão social moderna. Contra o socialismo, defende a propriedade, a família e a liberdade. Contra o capitalismo selvagem, defende o trabalhador, o descanso, o salário justo, a dignidade do operário e a legitimidade das associações laborais. Leão XIII não entregou o trabalhador à luta de classes; também não o entregou ao mercado puro. Colocou-o dentro da Nação, da família, da comunidade, da justiça e do bem comum.
e
aqui que o CHEGA pode estar a intuir algo de decisivo: a direita não pode abandonar a questão social. A protecção dos trabalhadores, dos reformados, dos jovens qualificados, dos pequenos contribuintes e das classes médias baixas não pertence à esquerda. Pertence à comunidade nacional. A esquerda sequestrou a linguagem social durante décadas; a direita, por medo de parecer socialista, deixou-lhe o terreno livre. Resultado: milhões de portugueses passaram a ouvir a direita apenas quando ela falava de cortes, impostos, défices e sacrifícios.

A Nova Direita não pode cometer o erro da Velha Direita
Tem de articular quatro camadas.
A primeira é cultural: disputar conceitos, linguagem e senso comum. A segunda é social: reconquistar trabalhadores, precários, pensionistas, classes médias baixas e periferias abandonadas. A terceira é nacional: ligar protecção social, soberania, identidade, fronteiras e pertença. A quarta é organizativa: construir uma direita-mosaico, onde partido, intelectuais, imprensa, movimentos, juventudes, editoras e associações cumprem funções diferentes, sem fingirem que são todos a mesma coisa.

O adversário, por isso, não é apenas a esquerda. É também o liberalismo global, que vê no homem apenas consumidor, contribuinte, recurso humano ou unidade estatística. A esquerda dissolve o povo em minorias; o liberalismo global dissolve-o em mercado. Uma direita nacional tem de responder aos dois: sem socialismo, mas também sem servilismo perante a economia sem rosto.
Ventura talvez não tenha ainda uma teoria acabada para isto. Mas a política nem sempre começa pela teoria. Muitas vezes começa pela intuição. E a intuição parece clara: a direita portuguesa, se quiser governar de forma duradoura, não pode limitar-se a ganhar eleições. Tem de formar quadros, disputar a cultura, recuperar a questão social, romper com o liberalismo globalista e construir uma ligação orgânica entre partido, povo e pensamento.
Porque não há vitória política duradoura sem retaguarda cultural, sem povo social e sem paciência histórica.
E talvez seja isso que a velha direita ainda não percebeu: o CHEGA não quer apenas ocupar o lugar que o CDS deixou vago. Quer mudar o próprio mapa da direita portuguesa.

sexta-feira, 3 de julho de 2026

o dia em que a velha direita percebeu que já não manda sozinha ...na direita!

Jorge Fernandes [Investigador no Ramón y Cajal no Conselho Superior de Investigação Científica, Madrid .
https://observador.pt/opiniao/uma-enorme-vitoria-de-andre-ventura/ ] tem razão no essencial: o episódio do Código Laboral marcou um antes e um depois na relação entre o PPD/PSD e o CHEGA. Onde talvez eu me afaste ligeiramente da sua leitura é na natureza dessa vitória. Não foi apenas uma vitória parlamentar de André Ventura, nem apenas uma demonstração de força negocial. Foi, acima de tudo, uma revelação política: o CHEGA deixou de se comportar como simples partido de protesto e apresentou-se como aquilo que, na verdade, já vinha sendo — a expressão portuguesa da Nova Direita.

Durante muito tempo, a direita instalada habituou-se a tratar o CHEGA como um instrumento útil, embora desagradável. Serviria para pressionar o PS, para assustar a esquerda, para engrossar maiorias ocasionais, para votar aquilo que fosse conveniente ao Governo, e depois regressaria obedientemente ao seu lugar no canto da sala, com a etiqueta pronta: populista, radical, inconveniente, mas parlamentarmente aproveitável.

O problema é que André Ventura percebeu uma coisa que muitos no PPD/PSD ainda não perceberam: quem tem 60 deputados não está na Assembleia da República para fazer de figurante. E quem representa mais de um milhão e quatrocentos mil votos não tem obrigação política, moral ou estratégica de se ajoelhar diante de uma direita antiga, cansada, liberal na economia, tímida na cultura, assustada na imigração e dependente de agências de comunicação para fabricar frases ocas.

A ambiguidade estratégica de Luís Montenegro — ora com o PS, ora com o CHEGA, conforme a conveniência do dia — podia talvez funcionar enquanto o CHEGA aceitasse o papel de força auxiliar. O episódio do Código Laboral mostrou que esse tempo acabou. Ventura recusou ser transformado em bengala parlamentar de uma reforma que, na sua leitura, falhava precisamente onde uma direita popular não pode falhar: no trabalho, na família, na segurança económica e na dignidade de quem vive do salário.

E aqui está a novidade que muitos comentadores ainda fingem não ver. O CHEGA não se limitou a votar contra uma proposta do Governo. Fez algo mais profundo: recusou a redução da direita portuguesa ao liberalismo económico de gabinete. Recusou a ideia de que ser de direita significa necessariamente aceitar qualquer reforma laboral em nome da competitividade, da flexibilidade e da bela música tecnocrática que geralmente termina sempre no mesmo sítio: mais insegurança para quem trabalha e mais conforto para quem manda.

É aqui que a leitura de José Costa-Deitado [ Universidade de Santiago de Compostela Prof Emérito FCT/ UNL Nova SBE - https://cdeitado.blogspot.com/2026/06/benedikt-kaiser-uma-aula-sobre.html  ] sobre a Nova Direita se torna especialmente pertinente. A Nova Direita europeia — francesa, alemã, italiana — não é apenas uma direita mais barulhenta, nem uma direita com bandeiras maiores, nem uma direita com slogans mais duros sobre imigração. É, no seu melhor, uma tentativa de reconstruir a direita em torno de três eixos que a velha direita abandonou: soberania, identidade e justiça social.

Benedikt Kaiser [Deutscher Autor und Publizist der Neuen Rechten.]  é importante precisamente por isso. A sua reflexão sobre metapolítica, hegemonia e patriotismo solidário aponta para uma direita que compreende que a batalha política não se ganha apenas no Parlamento, nem apenas nas eleições, nem apenas nos soundbites televisivos. Ganha-se antes no vocabulário, nas ideias, nas instituições, na cultura, nas redes sociais, nos temas que se impõem e nos conceitos que deixam de pertencer automaticamente à esquerda.

Durante décadas, a esquerda apropriou-se da palavra “social”. A direita liberal deixou. Pior: colaborou. Aceitou que falar de salários, trabalho, protecção familiar, abandono das periferias, insegurança económica ou dignidade dos pequenos fosse matéria da esquerda. A velha direita ficou com a gestão, os défices, os impostos, as empresas, os mercados e os congressos onde se anunciam “novos ciclos” sem que nada realmente comece.

Ora, a Nova Direita começa precisamente quando a direita deixa de pedir licença para falar do social. E é isso que o CHEGA, com todas as suas imperfeições, excessos, simplificações e teatralidades, parece ter compreendido melhor do que o PPD/PSD. A direita que quer disputar o povo não pode apresentar-se apenas como contabilista da ordem liberal. Tem de falar de pertença, de segurança, de trabalho, de fronteiras, de família, de soberania, de comunidade e de justiça.

Não se trata de converter o CHEGA num partido operário clássico, nem de fingir que André Ventura é uma versão portuguesa de Benedikt Kaiser. Seria absurdo. Kaiser pensa em termos metapolíticos, doutrinários, culturais e estratégicos; Ventura age no terreno parlamentar, mediático e eleitoral. Kaiser escreve para formar quadros e construir hegemonia; Ventura fala para ocupar o espaço público e transformar ressentimento social em força política. Mas a convergência é clara: ambos perceberam que a direita do século XXI não pode limitar-se a administrar o neoliberalismo com bandeiras nacionais à porta.

O episódio do Código Laboral foi, por isso, mais do que um chumbo. Foi uma declaração de independência. Ventura disse ao PPD/PSD que a sua maioria, quando existe, não é propriedade de Montenegro. Disse à direita liberal que a palavra “reforma” não é sagrada. Disse ao país que o CHEGA não aceita ser útil apenas quando vota a favor. E disse ao seu próprio eleitorado que não está no Parlamento para servir de muleta a uma direita que gosta muito de invocar o povo em campanha, mas que rapidamente o esquece quando chegam as propostas redigidas no idioma dos consultores.

Claro que isto incomoda. Incomoda o PPD/PSD, porque lhe retira o monopólio simbólico da direita. Incomoda a Iniciativa Liberal, porque mostra que há uma direita para além da fantasia do mercado perfeito. Incomoda o PS, porque percebe que a oposição social já não lhe pertence por direito hereditário. E incomoda o comentariado, porque o obriga a rever as suas gavetas mentais: afinal, o CHEGA não cabe apenas no rótulo preguiçoso de “extrema-direita”. Há ali outra coisa. Uma coisa mais incómoda: uma direita popular, nacional, social e culturalmente contra-hegemónica.

Jorge Fernandes viu bem a vitória de Ventura. Mas talvez a vitória seja ainda maior do que parece. Ventura não ganhou apenas uma votação. Ganhou centralidade. Ganhou autonomia. Ganhou o direito de dizer ao PPD/PSD: vocês já não decidem sozinhos o que é a direita em Portugal.

E isto muda tudo.

A velha direita portuguesa sempre viveu convencida de que havia apenas duas hipóteses: ou a direita respeitável, isto é, ela própria; ou a direita irresponsável, isto é, todos os que não aceitassem a sua tutela. O CHEGA veio baralhar esta geometria. Não quer apenas sentar-se à mesa. Quer mudar a mesa. Quer mudar a ementa. Quer mudar a linguagem do jantar. E, pior ainda para os donos antigos da casa, trouxe convidados que nunca tinham sido admitidos na sala principal.

Pode discutir-se se o fará bem ou mal. Pode criticar-se Ventura, e deve criticar-se quando for necessário. Pode reconhecer-se que há no CHEGA impulsos contraditórios, improvisações, tentações demagógicas e excessos de comunicação. Mas o essencial é outro: a direita portuguesa entrou numa fase pós-PPD. E o PPD/PSD ainda não percebeu que já não está perante uma dissidência; está perante uma concorrência histórica.

O Código Laboral foi apenas o episódio. A recomposição da direita é o acontecimento.

A vitória de André Ventura não foi ter chumbado uma reforma. Foi ter obrigado toda a gente a perceber que a Nova Direita portuguesa já não pede autorização para existir.


Agulhada final 
A velha direita ainda pensa que o CHEGA é uma indisciplina parlamentar. O problema dela é complexo: continua a confundir o nascimento de uma Nova Direita com uma birra de bancada. 
O episódio do Código Laboral não foi só uma vitória táctica de Ventura; foi o momento em que o CHEGA se apresentou como Nova Direita portuguesa, social, nacional e não apenas liberal-conservadora. Como base factual, usei os dados oficiais da XVII Legislatura, onde o CHEGA surge com 60 deputados e 1.437.881 votos; a notícia do chumbo do pacote laboral em 19 de Junho de 2026; a justificação de Ventura sobre os “erros” da proposta para quem trabalha; e a matriz Kaiseriana da metapolítica, hegemonia e “patriotismo solidário”

quarta-feira, 1 de julho de 2026

o enorme equívoco do PPD/PSD

Há dias em que a política deixa de ser gestão de expediente e passa a ser revelação. O chumbo do pacote laboral do Governo foi um desses dias. Jorge Fernandes [
https://observador.pt/opiniao/uma-enorme-vitoria-de-andre-ventura/ ]tem razão quando vê nesse episódio uma enorme vitória de André Ventura. Mas talvez a vitória seja ainda maior do que parece. Não foi apenas uma vitória parlamentar. Não foi apenas uma humilhação infligida ao PPD/PSD em pleno hemiciclo. Foi, sobretudo, a demonstração de que o CHEGA já não aceita ser tratado como reserva táctica da maioria, bengala ocasional do Governo ou simples instrumento de chantagem sobre o PS.
A ambiguidade estratégica de Luís Montenegro — primeiro para ser eleito - "não é não!" ao CHEGA - depois para navegar entre acordos pontuais com o PS e entendimentos ocasionais com o CHEGA — atingiu ali o seu limite. Durante demasiado tempo, o PPD/PSD imaginou que podia governar à direita quando precisava de votos e regressar ao centro quando precisava de alegada respeitabilidade mediática. Queria os votos do CHEGA sem pagar o preço político de reconhecer o CHEGA como parceiro. Queria a maioria sociológica de direita sem admitir a maioria política de direita. Queria usar André Ventura como porta dos fundos e, ao mesmo tempo, continuar a jantar à mesa do centro imobilista com o PS.
Ventura percebeu o jogo. E, mais importante ainda, percebeu que o jogo deixara de lhe interessar.

É aqui que Jorge Fernandes acerta em cheio: o episódio do Código Laboral marca um antes e um depois na relação entre o PPD/PSD e o CHEGA. A bancada do CHEGA, surpreendida em parte pela própria decisão, acabou por encenar involuntariamente a dimensão do golpe. Aqueles segundos de hesitação parlamentar foram, paradoxalmente, a melhor imagem do momento: o partido deixou de ser apenas soma de deputados e passou a ser instrumento de uma estratégia centralizada. Pode gostar-se ou não do método. Mas ninguém sério poderá dizer que não houve método.
A partir daí, é difícil imaginar que a liderança social-democrata volte a confiar tranquilamente em André Ventura para aprovar um Orçamento do Estado. Mas aqui começa a minha pequena discordância com Jorge Fernandes: também é difícil imaginar que André Ventura e o CHEGA voltem a confiar em Luís Montenegro e, sobretudo, no negociador Hugo Soares, depois de verem o PPD/PSD correr, na semana seguinte, para o PS a propósito da Prestação Social Única.

A rapidez com que o acordo com os socialistas se fez mostra que a famosa “centralidade” do PPD/PSD tem uma tradução simples: quando a direita incomoda, chama-se o PS. Quando o CHEGA exige contrapartidas, descobre-se o sentido de Estado socialista. Quando há risco de ruptura à direita, regressa-se ao Bloco Central, essa velha mobília política portuguesa, desenhada por Mário Soares, que muda de sala mas nunca sai de casa.
Por isso, a vitória de Ventura não está apenas em ter chumbado a Reforma Laboral. Está em ter obrigado o PPD/PSD a mostrar a sua verdadeira preferência estratégica. Entre uma negociação dura com o CHEGA e um acordo confortável com o PS, Montenegro escolheu o PS. Não por acidente. Por natureza política.
E é precisamente aqui que o assunto deixa de ser uma questão de táctica parlamentar e passa a ser uma questão de recomposição da direita portuguesa.
O CHEGA não está apenas a disputar votos ao PPD/PSD. Está a disputar a redefinição, quiçá, a reformulação da direita. É isto que muito jornalistado e comentariado ainda não percebeu, ou finge não perceber. O CHEGA não é somente um partido de protesto, nem apenas um veículo da indignação popular, nem apenas uma força anti-sistema alimentada pela irritação contra a corrupção, a imigração descontrolada, a insegurança ou a degradação dos serviços públicos. Tudo isso existe. Tudo isso conta. Mas já não chega para explicar o fenómeno.
O CHEGA é, cada vez mais, a expressão portuguesa da Nova Direita europeia.

E a Nova Direita europeia não é apenas uma direita mais zangada, mais ruidosa ou mais desagradável para as boas almas do comentariado. É uma direita que quer substituir a velha direita liberal, gestionária, economicista e complexada. Uma direita que percebe que a política não se resume ao défice, ao Excel, às agências de rating e às frases ocas de um consultor de comunicação. Uma Direita que entende que sem povo, sem fronteiras, sem identidade, sem segurança e sem questão social, não há nação governável — há apenas administração do declínio.
É aqui que Benedikt Kaiser se torna útil para compreender o que se passa. A Nova Direita não quer apenas ganhar eleições. Quer disputar hegemonia. Quer alterar a linguagem. Quer reconstruir o vínculo entre povo, nação e protecção social. Quer romper com a direita que fala de soberania em discursos patrióticos, mas aceita a dissolução da soberania pela globalização económica, pela imigração de substituição salarial, pelo capitalismo financeiro e pela fragmentação comunitária.
Durante décadas, a Direita submissa e moderada portuguesa abandonou a Questão Social à Esquerda. Ficou com os empresários, comentadores liberais, gestores de carreira, advogados de negócios, eurocratas de ocasião e os moralistas de redacção. Deixou trabalhadores, reformados, periferias, subúrbios urbanos, pequenos funcionários, polícias, militares, pequenos comerciantes e classes médias empobrecidas entregues ao ressentimento ou ao silêncio.
O CHEGA percebeu que esse silêncio podia ser politicamente organizado.

Por isso, o chumbo do "pacote laboral" não deve ser lido apenas como manobra oportunista. É também uma declaração ideológica: o CHEGA não quer ficar preso ao papel de muleta da Direita Liberal. Ventura percebeu que, para ultrapassar o PPD/PSD, tem de impedir que o partido de Montenegro se apresente como único representante da mudança. E percebeu outra coisa ainda mais importante:
- numa direita em recomposição, quem abandona a questão social perde o povo real.
Claro que há riscos. E aqui convém não transformar a inteligência táctica em catecismo. Uma política feita de golpes sucessivos pode criar desconfiança. Uma estratégia excessivamente centrada no chefe pode fragilizar o partido. Uma direita que queira ser poder não pode viver apenas da surpresa, do plenário inflamado e da humilhação do adversário. Tem de formar quadros, construir doutrina, preparar governação, criar uma direita-mosaico: partido, intelectuais, imprensa alternativa, associações, autarcas, técnicos, juventude, cultura e pensamento.
Mas esses riscos não anulam o facto essencial: Ventura percebeu antes de Montenegro que o sistema partidário mudou.

Portugal já não vive no velho bipartidarismo de alternância mansa entre PS e PPD/PSD. Vive num sistema tripartido, centrífugo, instável, onde a marca dos 30 por cento pode bastar para ficar em primeiro lugar. E se assim é, a distância entre o CHEGA e a vitória deixou de ser uma fantasia de militantes exaltados. Passou a ser uma hipótese política concreta.
Essa hipótese depende agora de uma pergunta simples:
quantos eleitores deram ao PPD/PSD uma última oportunidade e ficaram convencidos, depois deste episódio, de que Montenegro desperdiçou uma ocasião histórica para mudar o país à direita?
O PPD/PSD de Montenegro e Soares julga que se salvou ao negociar com o PS. Talvez se tenha apenas denunciado. Julga talvez que isolou o CHEGA. Talvez tenha apenas confirmado a tese de Ventura: a de que o PPD/PSD pertence ao mesmo centro imobilista que há décadas administra Portugal em regime de alternância sem alternativa.

A vitória do CHEGA foi obrigar Luís Montenegro a escolher (terá sido Hugo Soares?). E  Soares (terá sido Montenegro?) escolheu. Escolheu o PS.
O resto é apenas o barulho habitual dos que ainda não perceberam que a direita portuguesa deixou de caber dentro do PPD/PSD.
A Nova Direita não está à porta. Já entrou. E, como quase sempre acontece nestas coisas, os donos da casa foram os últimos a reparar.

sábado, 27 de junho de 2026

Benedikt Kaiser e André Ventura: a montante das ideias e a jusante da política

Metapolítica, soberania e a recomposição da direita europeia

O problema de grande parte do comentariado português é continuar a tentar explicar fenómenos novos com manuais velhos, categorias gastas e reflexos pavlovianos. Onde existem deslocações sociais profundas, vê apenas “populismo”. Onde há recomposição ideológica, vê apenas “extrema-direita”. Onde se manifesta uma crise séria de representação, vê apenas ressentimento, manipulação ou ignorância eleitoral.
Ora, talvez a questão seja simultaneamente mais simples e mais incómoda: uma parte crescente dos eleitores europeus deixou de acreditar que a direita existe apenas para gerir mercados, baixar impostos e repetir o catecismo económico do liberalismo, tal como deixou de aceitar que a esquerda exista apenas para distribuir direitos sem deveres, identidades sem pertença e solidariedades sem reciprocidade.
É neste contexto que se torna intelectualmente interessante aproximar Benedikt Kaiser, autor alemão associado à chamada Nova Direita e ao pensamento metapolítico, de André Ventura e do CHEGA. A comparação deve ser feita com prudência. Não se trata de apresentar Ventura como discípulo português de Kaiser, nem de transformar o CHEGA numa tradução partidária directa das suas teses. Trata-se, antes, de perceber a circulação das ideias, a transformação dos vocabulários políticos e o modo como certas intuições doutrinárias passam do plano cultural para o terreno eleitoral.

Há comparações que servem apenas para colar rótulos. Esta, se for feita com seriedade, serve para compreender uma deslocação mais ampla no espaço da direita europeia.
Kaiser pertence ao universo das ideias, da metapolítica e da disputa cultural a montante da política institucional. 
Ventura pertence ao universo da acção política directa, da mobilização eleitoral, da intervenção parlamentar e da disputa imediata pelo poder. Um trabalha sobre as condições culturais da hegemonia; o outro trabalha sobre a correlação de forças dentro do sistema político. Um formula conceitos; o outro transforma conflitos em linguagem pública, palavra de ordem e combate parlamentar.
A distinção é decisiva. Kaiser é, antes de mais, um arquitecto de ideias. Ventura é, antes de mais, um actor político.

O primeiro ponto de convergência está na crítica ao neoliberalismo globalizado. Tanto Kaiser como Ventura identificam nesse modelo um factor de erosão da soberania, de fragilização das economias nacionais e de desagregação comunitária. Ambos rejeitam a ideia de que o mercado deva ser o árbitro supremo da vida social. A economia, nesta perspectiva, não pode ser concebida como uma máquina abstracta, indiferente à nação, à cultura, ao território, à memória histórica e à coesão social.
Mas a coincidência do diagnóstico não implica identidade de fundamentos. A crítica de Kaiser é essencialmente teórica. Move-se no terreno da metapolítica, dialoga com leituras de Gramsci, com a crítica do desenraizamento económico, com autores como Polanyi e com tradições intelectuais ligadas à Revolução Conservadora alemã. O que está em causa, para Kaiser, é a crítica sistémica ao capitalismo financeiro, à globalização desenraizada e à submissão das comunidades nacionais a uma ordem económica que dissolve fronteiras, pertenças e solidariedades.
A crítica de André Ventura é mais pragmática e mais situada. Nasce menos de uma construção doutrinária sistemática e mais da percepção política de uma fragilidade portuguesa concreta: dependência externa, perda de controlo sobre sectores estratégicos, empobrecimento relativo, pressão migratória, desigualdade no acesso aos apoios públicos, degradação dos serviços do Estado e sensação de abandono das classes médias e populares nacionais.
Kaiser pensa o problema a partir de uma matriz metapolítica. Ventura transforma-o em proposta, conflito e mobilização política.

O segundo ponto de aproximação encontra-se nas políticas sociais orientadas para a comunidade nacional. Ambos partem da ideia de que a solidariedade não é um mecanismo abstracto, ilimitado e indiferenciado. A solidariedade pressupõe pertença. Pressupõe reciprocidade. Pressupõe uma comunidade histórica, cultural e política capaz de reconhecer quem contribui, quem pertence, quem partilha deveres e quem pode legitimamente reclamar direitos.
É neste ponto que surge uma das noções mais interessantes de Kaiser: o chamado “patriotismo solidário”. A expressão procura conciliar identidade nacional, coesão social, protecção económica e solidariedade interna. Representa uma tentativa de ultrapassar a velha divisão entre uma direita culturalmente conservadora mas economicamente liberal, e uma esquerda socialmente intervencionista mas culturalmente universalista.

O “patriotismo solidário” pretende unir direita cultural e sensibilidade social, recusando simultaneamente o cosmopolitismo progressista e o neoliberalismo sem raízes. A sua ideia central é clara: não há verdadeira solidariedade sem comunidade; e não há comunidade sem continuidade cultural, memória histórica e fronteiras políticas reconhecíveis.

André Ventura não utiliza, em regra, esta terminologia. Mas a estrutura conceptual aparece em várias das suas propostas e formulações políticas: prioridade nacional nas prestações sociais, defesa dos “portugueses primeiro”, crítica à distribuição universalista de recursos públicos, exigência de maior controlo da imigração, protecção de sectores estratégicos e recusa de uma economia entregue apenas às forças impessoais do mercado global.
A diferença está no registo. Kaiser formula isto como doutrina. Ventura formula isto como combate político.

O terceiro ponto de convergência está na ideia de economia enraizada. Ambos valorizam a soberania energética, a relocalização produtiva, a protecção de infra-estruturas críticas e a necessidade de impedir que sectores decisivos da vida nacional fiquem dependentes de centros de decisão externos. Em Kaiser, esta questão inscreve-se numa crítica mais ampla ao capitalismo financeiro e ao desenraizamento económico. Em Ventura, surge sobretudo como crítica à fragilidade portuguesa, à dependência externa e à incapacidade do regime para defender interesses nacionais elementares.

Também aqui a diferença é reveladora. Kaiser quer desmontar a lógica cultural e económica do globalismo. Ventura quer disputar, dentro das instituições existentes, políticas concretas que devolvam margem de decisão ao Estado nacional.
Há ainda uma dimensão estratégica que merece atenção: a possibilidade de alianças temáticas transversais, por vezes designadas, no vocabulário alemão, por Querfront. A ideia não é necessariamente a criação de uma frente política orgânica entre direita e esquerda, mas a constatação de que certas críticas ao sistema liberal-globalista podem atravessar fronteiras ideológicas convencionais. Defesa da soberania, crítica ao capital financeiro, protecção do trabalho nacional, combate ao desenraizamento e oposição à imigração massiva podem surgir em espaços políticos distintos, ainda que por razões diferentes.

Kaiser pensa esta transversalidade como instrumento metapolítico. Ventura pratica-a, quando lhe convém, como táctica política. Pode aproximar-se de reivindicações sociais que a direita tradicional abandonou, sem por isso deixar de manter uma gramática política nacional, securitária e identitária.
É isso que confunde a direita liberal clássica e irrita a esquerda. A direita liberal gostaria que Ventura falasse apenas de autoridade, segurança, impostos e criminalidade. A esquerda gostaria que qualquer discurso social vindo da direita fosse imediatamente declarado suspeito, ilegítimo ou “populista”. O problema é que a política real tem o desagradável hábito de escapar às gavetas ideológicas dos comentadores.

Por isso, a aproximação entre Kaiser e Ventura deve ser feita com cuidado. Existem paralelos reais, mas as equivalências são perigosas. Kaiser é um intelectual metapolítico, preocupado com a construção de uma hegemonia cultural alternativa. Ventura é um político institucional, preocupado com resultados eleitorais, disputa parlamentar, visibilidade mediática e capacidade de influência no sistema político português.

K
aiser trabalha a montante. Ventura trabalha a jusante.
Kaiser pergunta: que ideias devem preparar o futuro?
Ventura pergunta: que conflitos podem alterar o presente?
Kaiser quer transformar o clima cultural. Ventura quer transformar a correlação de forças políticas.
Esta distinção impede duas leituras simplistas. 
A primeira seria afirmar que Ventura apenas aplica Kaiser em Portugal. Não parece correcto. Ventura move-se num contexto político, mediático e social muito específico, marcado pela crise do regime português, pela degradação dos serviços públicos, pela pressão migratória, pela insegurança, pela desconfiança nas instituições e pelo esgotamento da alternância entre PS e PSD. O seu discurso nasce desse terreno concreto.
A segunda leitura simplista seria negar qualquer parentesco intelectual ou temático. Também não parece sério. O CHEGA, mesmo sem se apresentar como partido doutrinário no sentido clássico, participa claramente de uma tendência europeia mais vasta: a reconstrução de uma direita nacional, socialmente sensível, culturalmente identitária e crítica do neoliberalismo globalizado.

É nessa tendência que a comparação com Kaiser ganha interesse. Não para reduzir Ventura a Kaiser, nem para transformar Kaiser em ideólogo secreto do CHEGA, mas para perceber que há uma deslocação em curso no espaço da direita europeia. A velha direita liberal, economicista, urbana, tecnocrática e obediente à linguagem dos mercados já não esgota o campo da direita. Está a nascer, ou a regressar, uma direita que quer falar de nação, fronteiras, trabalho, pertença, soberania e solidariedade.
A expressão “patriotismo solidário” ajuda a compreender essa deslocação. Ela mostra que a questão social deixou de pertencer exclusivamente à esquerda e que a questão nacional deixou de poder ser tratada como sobrevivência folclórica. Numa época de globalização desregulada, migrações massivas, desindustrialização, precariedade, dissolução cultural e fragilidade do Estado social, a pergunta decisiva volta a ser a mais antiga de todas: quem somos nós, e que deveres temos uns para com os outros?

Kaiser responde a partir da metapolítica. Ventura responde a partir da política.
Um escreve para preparar um horizonte. O outro fala para disputar o poder.
A convergência existe. A equivalência, não.
E talvez seja precisamente isso que torna a comparação interessante. Porque mostra que o CHEGA não é apenas um fenómeno de protesto, como repetem preguiçosamente os seus adversários. É também a expressão portuguesa, tumultuosa, imperfeita e eleitoralmente eficaz, de uma reorganização ideológica mais vasta da direita europeia.
Pode gostar-se ou não. Pode temer-se ou saudar-se. Mas convém percebê-la antes de a insultar.

O problema do comentariado português é que prefere quase sempre o insulto à análise. Chama “populismo” àquilo que não compreende, “extrema-direita” àquilo que não quer discutir e “ressentimento” àquilo que não sabe explicar. Mas uma sociedade política não muda apenas porque alguém grita mais alto. Muda quando antigas categorias deixam de organizar a experiência colectiva e quando novas perguntas começam a impor-se.
A pergunta que hoje atravessa a direita europeia é esta: pode haver soberania sem protecção económica? Pode haver solidariedade sem comunidade? Pode haver Estado social sem fronteiras? Pode haver democracia nacional se as grandes decisões forem transferidas para mercados, tribunais, burocracias internacionais, organizações supranacionais e elites mediáticas sem mandato popular?

Kaiser procura responder a estas perguntas no plano das ideias.
Ventura responde-lhes no plano do conflito político português.
Entre ambos haverá, portanto, menos uma relação de mestre e discípulo do que uma afinidade de época. Um dá linguagem teórica a uma inquietação europeia. O outro dá tradução política portuguesa a parte dessa inquietação.
E isso, para quem ainda pensa, é muito mais interessante do que mais uma etiqueta pronta a colar.

terça-feira, 14 de abril de 2026

eu fui preso politico!

...mandato em branco em Setembro de 1974! Cerco do edifício e invasão da minha residência por um Pelotão de Soldados do COPCON de armas aperradas! Enviado numa "Chaimite" para o Reduto Norte da Prisão de Caxias! Sujeito a permanecer "de pé" nos longos interrogatórios fritos por "funcionários" do Partido Comunistas Português! Libertado sem qualquer explicação ou desculpa em Dezembro!
... e o resto é História para os mais novos!



sábado, 17 de janeiro de 2026

André Ventura contra todos os outros...

Sobre as presidenciais, depois de todos os debates, polémicas e sondagens, só parece haver duas ideias geralmente aceites. A primeira é que André Ventura é o candidato com mais probabilidade de passar à segunda volta. A segunda ideia é que André Ventura é o candidato com menos probabilidade de ser eleito. Entre estes dois lugares-comuns, está desenhado o impasse da política portuguesa.

A primeira opinião traduz o facto de André Ventura ser o único líder político em actividade que interessa aos portugueses. Os debates mais vistos foram aqueles em que ele esteve. E foi curioso ver alguns dos seus rivais adoptarem contra ele os tiques e os truques que lhe são atribuídos: interrupções, elevações da voz, risos. Julgam mesmo que o sucesso de Ventura foi apenas técnica de comunicação. Não percebem que foi uma questão de substância, isto é, que Ventura interessou, não porque tivesse jeito e graça, mas porque falou do que os portugueses estavam a falar: o choque a que o país foi sujeito quando percebeu que os governantes, sem lhe perguntarem, tinham decidido abolir qualquer controle da imigração. Toda a gente falava disso em privado, ninguém falava em público, por receio de ser posto na fogueira como racista ou desumano. Ventura foi o líder político que ousou falar do assunto, e da perspectiva que importa: a da coesão nacional, que é o primeiro pilar da democracia, da segurança e da solidariedade social.
Esqueçam o estilo. Ventura é o único político activo que está associado a uma causa, e mais: à necessidade de manter essa causa, que não é uma causa qualquer, mas existencial, no debate público. Perante Ventura, os demais políticos podiam ter reagido comprometendo-o em políticas públicas de resposta aos problemas; em vez disso, viram apenas a oportunidade de, fazendo dele um monstro a que seria preciso resistir, arranjarem uma maneira de ficarem no poder sem resolverem problema nenhum. Percebe-se que o país não se possa arriscar a não ter André Ventura na segunda volta.
A segunda opinião traduz uma convicção: a de que o país, embora alarmado com o caos migratório, o colapso dos serviços públicos ou a estagnação económica, e, por isso, a precisar de levar André Ventura à segunda volta como testemunha desse alarme, ainda não quer rupturas, e, portanto, acabará por não eleger Ventura. É com o que contam os outros candidatos. Nenhum deles está associado a uma grande causa, nenhum deles prestou um grande serviço ao país, nenhum deles beneficia sequer de grande estima, como Marcelo Rebelo de Sousa quando foi eleito. São apenas candidatos contra André Ventura, e só esperam ser eleitos, não porque o país os deseje como presidentes, mas por não serem Ventura. Cotrim de Figueiredo, que pisou as “linhas vermelhas” por distracção, tentou logo redimir-se, colando-se ao governo de Montenegro (“conte comigo”). Eis o que é o anti-venturismo: a redução da política à defesa mecânica do status quo. É isso que estes candidatos representam da maneira mais indiferenciada. 

Ganharão mesmo, esses anti-Venturas? E se ganharem desta vez, ganharão da próxima? Talvez André Ventura ainda represente, para muitos, um risco. Mas perante a perigosa experiência a que a oligarquia está a sujeitar a sociedade portuguesa, esse risco parecerá, por comparação, cada vez menor. Haverá um momento em que Ventura, por mais controverso, surgirá como o único meio de restaurar a normalidade. Com o seu anti-venturismo tão cínico como bacoco, a oligarquia anda apenas a adiar o dia em que já não conseguirá parar André Ventura.
(imagem acrescentada em 20Jan26)

 

os candidatos para o Pinheiro do Observador...

Luís Marques Mendes reagiu com inesperado amadorismo à polémica sobre a sua vida profissional e as suas ligações políticas. Qualquer pessoa dotada da capacidade para antecipar o óbvio deveria ter percebido há muitos meses que, depois do caso Spinumviva, um candidato com uma empresa familiar que tem como sócios a mulher e os filhos iria ser alvo do mais implacável escrutínio. Além de ter dissolvido a sociedade, Marques Mendes deveria ter tomado a iniciativa de revelar a lista completa dos clientes e de explicar detalhadamente o que fez para cada um deles. Em vez disso, ficou à espera que surgissem as perguntas e as suspeições, como se estivesse a fazer figas para que ninguém se lembrasse de falar sobre o assunto. Podia ter controlado e arrumado o tema, mas ficou a servir de saco de pancada dos adversários.
António José Seguro também teve dificuldades em ver o óbvio. Com o espaço da direita hiperlotado, evidentemente ele devia ter-se apresentado desde o início como o único candidato viável da esquerda. Há aquela frase célebre: “Se anda como um pato, se nada como um pato e se fala como um pato, então é porque é um pato”. Se Seguro foi líder da JS, se foi líder do PS e se fez toda a vida no PS, então é porque é socialista e, por definição, de esquerda. Mas, até chegar a essa conclusão incontestável e começar a apelar ao voto útil de toda a esquerda, António José Seguro embrulhou-se em conversas sobre “gavetas” e sobre a sua irreprimível vontade de agradar à direita desiludida com Marques Mendes.
Henrique Gouveia e Melo também tentou, absurdamente, agradar a toda a gente: aos que odeiam o sistema e aos que idolatram o sistema; aos que adoram Mário Soares e aos que desconfiam de Mário Soares; aos que já votaram no PS, aos que já votaram no PSD, aos que já votaram na IL e aos que já votaram no Chega. O almirante conseguiu o extraordinário feito de fazer com que os eleitores tenham hoje mais dúvidas sobre o que lhe anda na cabeça do que tinham no tempo em que ainda não tinha aberto a boca para falar sobre nada. Ninguém verdadeiramente sabe se um voto em Gouveia e Melo é útil ou pernicioso. Nas presidenciais, queria ser o novo general Ramalho Eanes, mas corre o risco de ser o novo almirante Pinheiro de Azevedo.

André Ventura comportou-se na primeira parte da campanha como a atual líder do Partido Conservador inglês. As pessoas mais próximas de Kemi Badenoch dizem que ela tem a capacidade autodestrutiva de começar uma rixa mesmo numa sala vazia. Como se sabe, o combustível político de André Ventura são os inimigos. Esses inimigos podem ser internos ou externos, mas convém, apesar de tudo, que não sejam totalmente imaginários, para que o líder do Chega não pareça um fantasista ou um charlatão. A dada altura, acalmou-se e disciplinou-se. O seu grande objetivo nesta campanha era convencer os fiéis do Chega de que o voto útil nesta eleição era nele e não no almirante — e tudo indica que conseguiu.

João Cotrim de Figueiredo apostou nos jovens, que, em tese, sentem a liberdade de votar sem se deixarem condicionar por cálculos e contas.
Catarina Martins tentou apresentar-se como a legítima herdeira de Mário Soares e de Jorge Sampaio, ignorando que não é possível passar uma vida inteira a habitar o radicalismo para depois se reclamar como a representante confiável da esquerda moderada e bem comportada.
António Filipe refugiou-se na mais empedernida ortodoxia, tentando assim persuadir os simpatizantes do PCP de que o voto em qualquer outro candidato será uma rendição ao desprezível “consenso neoliberal”.
Jorge Pinto apareceu como o último recurso de um partido que preferia a unidade da esquerda e só apresentou um candidato próprio porque tinha mesmo de ser.
[https://observador.pt/opiniao/estas-presidenciais-vao-ser-as-eleicoes-do-voto-util/]

quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

do "la barrage.fr" às "linhas vermelhas.pt"

França e Portugal: duas presidenciais, o mesmo “sistema imunitário” (e o mesmo risco de falha)
Em França, a presidência é o coração do regime; em Portugal, é a chave de aberturas e fechos (dissolver, vetar, arbitrar). Mas há um traço comum que atravessa Paris e Lisboa: quando surge um candidato que ameaça reordenar o tabuleiro, activa-se a mesma liturgia — o “cordão sanitário” com incenso mediático, a palavra “perigo” em loop, e a velha moral do “voto responsável” a bater à porta do eleitor como Testemunha de Jeová em véspera eleitoral.
Le Pen e Ventura: semelhanças reais, diferenças decisivas
Semelhança principal: ambos são tratados como teste de stress ao regime. Marine Le Pen, no segundo turno de 2017 e 2022, foi o adversário “útil” para reunir contra si uma coligação negativa: não se vota “por” Macron; vota-se “contra” Le Pen. A literatura e a análise pós-eleitoral descrevem bem este mecanismo, onde a competição se organiza menos por adesão do que por repulsa. 
Em Portugal, Ventura encaixa no mesmo molde: chega ao patamar em que a pergunta já não é “se” tem base eleitoral, mas “se” o sistema consegue impedir que essa base se converta em maioria agregada no segundo turno. E os dados recentes apontam para uma eleição fragmentada e para uma segunda volta provável — e, ao mesmo tempo, para um nível de rejeição de Ventura suficientemente alto para tornar difícil ganhar o frente-a-frente final.
Diferença decisiva: em França, o “frente republicana” é um reflexo condicionado antigo e nacional; em Portugal, o anti-Chega é mais recente e mais dependente da engenharia mediática diária (comentariado, jornalistado, “fact-checking” selectivo, indignação por turnos). 
Resultado: o mecanismo pode ser eficaz… mas também pode cansar, e quando cansa transforma-se em combustível.
O papel das imprensas: a França do “barramento” e Portugal do “cerco permanente” 
Imprensa francesa: tende a funcionar como amplificador do “barramento” (la barrage), sobretudo na segunda volta, reforçando a ideia de que há uma fronteira moral a defender — o que facilita a convergência táctica entre campos ideologicamente incompatíveis (do centro liberal à extrema-esquerda). Essa dinâmica ficou visível nos ciclos recentes e ganhou novo relevo com a crise de governabilidade francesa e a reorganização das alianças à esquerda. 
Imprensa portuguesa: faz algo semelhante, mas com um estilo mais “micro-gestão”: não é só “na segunda volta”. É todos os dias, a todas as horas, com o candidato transformado em assunto, e o assunto transformado em alarme. O paradoxo é conhecido: quanto mais o cerco fecha, mais o sitiado consolida a tribo — e depois, para espanto geral, “cresceu nas sondagens”. (Mistério insondável: ninguém sabe porquê. Nem o painel de comentadores. Nem o painel de comentadores do painel de comentadores.)
E aqui há um detalhe moderno: Ventura não depende apenas dos canais tradicionais; usa-os como matéria-prima para circular nas redes, recortando, reenquadrando e devolvendo ao público sob a forma de “prova” de perseguição. Há investigação académica recente exactamente sobre este padrão de uso de notícias e redes por Ventura enquanto “gatekeeper”. 
A “rejeição” de Le Pen e o risco do efeito bumerangue
O “modelo francês” tem funcionado assim: Le Pen chega ao segundo turno; o sistema une-se; Le Pen perde. Só que, quando se repete demais, a fórmula envelhece. E o envelhecimento acelera quando:
a crise do custo de vida não abranda;
a imigração e a segurança permanecem no centro do quotidiano;
a esquerda radical é percebida como sócia táctica do “sistema” para bloquear a direita populista (mesmo quando diz odiar o “sistema”). 
Em França, este quadro é agravado por um factor objectivo e explosivo que a esquerda tem tentado em Portugal: a incerteza jurídica sobre a própria elegibilidade de Marine Le Pen para 2027, por via do processo e do recurso em curso. Se Le Pen ficar impedida, a sucessão interna (Bardella) pode mudar o estilo e a eficácia eleitoral do RN. 
Ou seja: o “barramento” pode voltar a funcionar… mas também pode falhar por saturação, ou por substituição de rosto e estratégia.

Pode acontecer “uma França” em Portugal?
Sim — mas com especificidade portuguesa.
O cenário “França”: Ventura passa à segunda volta; junta-se um bloco “anti” (do centrão à esquerda) para o travar; Ventura perde, mas sai reforçado politicamente porque normaliza o Chega como pólo inevitável do sistema. Isto é praticamente o equivalente funcional do que sucedeu em França (perder e crescer), adaptado ao nosso semi-presidencialismo. E o próprio retrato recente da corrida portuguesa sugere exactamente a combinação “segunda volta provável + rejeição elevada” que alimenta esse desfecho. 
O cenário “fadiga das ”linhas vermelhas": a campanha anti-Ventura atinge tal nível de histeria que se torna contraproducente; parte do eleitorado não “converte” no segundo turno e escolhe abstenção ou voto de protesto. Numa eleição com fragmentação e cansaço, isto pode apertar perigosamente o resultado.
O cenário chamemos-lhe o “acidente de regime”: uma segunda volta Ventura vs. candidato do “centrão” com baixa capacidade de mobilização emocional; a máquina mediática faz o que sabe, mas não consegue entusiasmar o eleitorado “anti” tradicionalmente abstencionista - e, quando o anti não sai de casa, a matemática torna-se cruel.

Premonições: 
Com a informação pública disponível hoje, a aposta mais prudente é:
  • Ventura tem probabilidade alta de chegar à segunda volta, porque a fragmentação empurra os votos para três ou quatro pólos e ele tem um eleitorado muito identificado. 
  • Ganhar a segunda volta é mais difícil, precisamente por causa da rejeição elevada e do reflexo de “todos contra”.
A consequência política, mesmo numa derrota, pode ser grande: o Chega passará a ser o eixo em torno do qual a direita e o centrão se reorganizam (uns por aproximação táctica, outros por exclusão ritual). E a médio prazo isto empurra Portugal para o mesmo dilema francês: ou o sistema reforma as suas falhas (custos, serviços públicos, imigração, segurança, justiça), ou continuará a fabricar candidatos que diz abominar.

A Europa terá nestas presidenciais (em França e em Portugal) um barómetro:
  • Se o “cordão” vencer sempre, Bruxelas respira — mas a pressão social acumula-se por baixo.
  • Se o “cordão” falhar uma vez, a mudança pode ser abrupta, e a UE terá de lidar com governos e maiorias mais soberanistas, mais conflituais e menos disponíveis para a moralização permanente de tudo.
Em suma: França e Portugal não são cópias — mas rimam. E, quando a história rima demasiadas vezes, há dias em que deixa de ser poesia e passa a ser contabilidade eleitoral.

André Ventura, “o anti-sistema” | Presidenciais 2026

como é visto pelo comentariado e jornalistado do sistema!  
A história começa nas eleições autárquicas de 2017: André Ventura, candidato desconhecido do PSD à Câmara Municipal de Loures, dá uma entrevista onde faz declarações polémicas sobre a comunidade cigana. Perdeu essas eleições, mas daí nasceu o Chega, que é hoje a segunda maior força política do país. Omnipresente e inescapável, é um enviado de Deus para uns e fascista para outros. Que história conta o percurso político do candidato "anti-sistema" desta corrida presidencial?

segunda-feira, 22 de dezembro de 2025

a igualdade de todos perante a lei ?

O tribunal determinou esta segunda-feira que os cartazes presidenciais de André Ventura, presidente do CHEGA, sejam removidos de imediato da via pública e proibiu a sua reposição futura com teor idêntico ou equivalente. A sentença fixa ainda uma sanção de 2.500 euros por dia, por cartaz, em caso de incumprimento do prazo estabelecido.
Para André Ventura, a decisão representa um precedente preocupante: “Não é possível que um tribunal ache que os ciganos não devem cumprir a lei.” O líder do segundo maior partido sustenta que a mensagem não visa qualquer comunidade, mas reafirma um princípio constitucional básico — a igualdade de todos perante a lei — e considera que a sentença limita a liberdade de intervenção política em período eleitoral.

O candidato presidencial critica o que classifica como “judicialização do discurso político”, defendendo que a Justiça não pode substituir-se ao debate democrático nem impor leituras restritivas a frases de campanha.

sábado, 6 de dezembro de 2025

Do Cordão “Republicano” ao Cerco social-fascista— A Lição Francesa e o Caso Ventura

As elites portuguesas continuam convencidas de que o eleitor é um ser obediente, maleável e propenso a seguir ordens televisionadas. É por isso que, tal como em França, acreditam que um “cordão sanitário” basta para travar quem não se enquadra na narrativa dominante. Em 2026, esse alvo chama-se André Ventura.
1. A eterna subestimação das sondagens
Desde 2019 que as sondagens subestimam o Chega. Isto não é polémico: é estatístico. O eleitor de Ventura não responde, não confia e não gosta de ser avaliado moralmente por quem o entrevista.
Resultado: Ventura vale sempre mais do que o publicado.
2. O candidato com base própria
Gouveia e Melo atrai simpatia. Mendes apela aos nostálgicos do comentário político televisivo. Seguro convoca a máquina socialista.
Ventura, porém, é o único com uma base consolidada: disciplinada, coerente e resistente ao ridículo mediático.
3. O cordão que não se aguenta
A tentativa de copiar a estratégia francesa — todos contra Ventura — esquece um detalhe: Portugal não é França.
  • . A direita moderada não vê Ventura como inimigo existencial.
  • . O eleitor português não gosta de ser mandado votar “contra” e
  • . A elite política perdeu a autoridade moral para liderar cruzadas cívicas.
4. O problema não é Ventura — é a aritmética
A fragmentação dos outros candidatos empurra Ventura para a segunda volta, não por força extrema, mas por coesão do seu eleitorado. Onde os outros dividem, Ventura soma.
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Concluindo-me:
O confronto não será esquerda vs. direita. Será sistema vs. anti-sistema.
E quando essa for a alternativa real, os velhos “cordão republicano” e “cerco social-fascista” transformar-se-á apenas num gadget de limites de ruido socialmente pouco aceitáveis — muito barulho, pouca utilidade.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2025

afinal é possível fazer-lhe uma entrevista!

Uma conversa rara entre André Ventura e Pedro Santana Lopes, que surpreendeu o país.
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Sem filtros, sem ataques — apenas política dita cara a cara. Ventura fala sobre o sistema, a corrupção, a justiça e o papel de um Presidente verdadeiramente interventivo. Um diálogo diferente, direto e revelador, onde se percebe o que cada um realmente pensa sobre o futuro de Portugal

quinta-feira, 27 de novembro de 2025

“Não representou o jornalistado nem o comentariado. Representou quem votou nele.”

Há momentos parlamentares que, pela sua simplicidade, expõem décadas de silêncio organizado. O gesto de André Ventura ao afastar, com a mão, os cravos deixados sobre as rosas brancas por uma deputada da extrema-esquerda [1], é um desses momentos. Pequeno, directo, quase instintivo — mas politicamente devastador.
Os cravos são “apenas” simbólicos? São. Mas é justamente por serem simbólicos que a esquerda os usa como quem finca bandeiras em território conquistado. Desde 1976 que Abril foi convertido num exclusivo partidário, um dogma portátil, uma espécie de licença ideológica que permite chantagem moral sempre que convém. Ventura, ao retirar os cravos, retirou a máscara a essa propriedade privada da História [2].
A reacção do jornalistado foi de antologia. Pivots alarmados, analistas em sobressalto, comentadores em modo pavloviano: todos sentidos na defesa da liturgia dos cravos, como se a democracia portuguesa colapsasse perante um gesto de higiene simbólica. O regime jornalístico revelou o seu verdadeiro nervo: não protege símbolos — protege narrativas [3].
Curiosamente, nenhum dos indignados esclareceu o essencial: a “boa convivência democrática” não obriga ninguém a aceitar símbolos da extrema-esquerda. Obriga, sim, a garantir participação política, respeito pelas leis e liberdade de expressão. Mas aceitar a decoração partidária da Assembleia da República? Isso, meus caros, não faz parte de nenhum manual constitucional. Faz parte de outra coisa: a velha confusão entre Portugal e a redacção do Diário de Notícias de 1975 [4].

A ironia é que os mesmos que berram pela “moderação” são os primeiros a impor símbolos radicais como se fossem relicários da República. Hoje é um cravo. Amanhã, quem sabe, teremos discursos feitos em cima de uma foice e um martelo, tudo em nome da etiqueta democrática. A esquerda sabe que ganhou a batalha simbólica durante décadas — por isso reage com furor quando alguém, pela primeira vez em muito tempo, contesta os adereços da sua narrativa.
O que verdadeiramente irritou o regime foi isto: Ventura expôs o tabu que ninguém quer discutir — o 25 de Novembro separa democratas e totalitários [5].
Separou-os em 1975; separa-os hoje.
O país tem sido condicionado a aceitar que discutir Novembro “divide”. Pois divide.
E ainda bem. Democracias fazem-se de conflitos abertos, não de concórdias impostas. As concórdias, deixemo-las para os sistemas que preferem povos dóceis e símbolos únicos. O Estado Novo sabia isso. O PREC também. O regime mediático, pelos vistos, continua a sabê-lo [6].
O discurso de Ventura, longe de incendiar coisa alguma, devolveu ao Parlamento o que este parecia ter esquecido: a democracia é plural, conflituosa e irreconciliável nos seus fundamentos mais profundos. Foi assim que Abril prometeu ser. Foi assim que Novembro garantiu que voltasse a ser.
Quando o regime resmunga que “Ventura põe o país a falar dele”, engana-se mais uma vez. Ninguém está a falar de Ventura — está-se a falar do país. Está-se a falar da História. E está-se a falar das falsificações que, durante meio século, muitos aceitaram como inevitáveis por pura fadiga moral.
Ventura não representou o jornalistado. Não representou o comentariado. Representou quem votou nele — e lembrou ao país que símbolos não são intocáveis, narrativas não são dogmas e que democracia não é uma coreografia de boas-maneiras, mas o confronto ordeiro das discórdias insanáveis que nos definem enquanto povo livre [7].
Notas:
[1] Episódio amplamente relatado durante a sessão parlamentar evocativa do 25 de Novembro.
[2] A apropriação simbólica do 25 de Abril pela esquerda é uma constante da historiografia militante desde finais dos anos 70.
[3] A reacção pública dos comentadores televisivos ilustra o fenómeno do jornalismo-activista, já analisado em textos anteriores no ReVisões.
[4] A confusão entre institucionalidade e militância política é um traço persistente dos resquícios ideológicos do PREC.
[5] Como vários historiadores — Rui Ramos, Jaime Nogueira Pinto, entre outros — têm lembrado, o 25 de Novembro encerrou a deriva proto-totalitária do PREC.
[6] A “concórdia obrigatória” tem longas raízes no imaginário autoritário português, tanto à direita como à esquerda.
[7] A defesa do pluralismo democrático exige, por vezes, a rudeza necessária para romper liturgias que se tornaram dogmas.