“o CHEGA ficou mais social”, ou
“o CHEGA pode estar a intuir uma direita metapolítica, social e nacional” ?
O CHEGA ainda se declara “nacional, conservador, liberal e personalista”, mas o seu programa também fala de funções sociais, subsidiariedade, trabalhadores/empresários, sindicatos, reforma e coesão social. Isto permite a leitura que propõe — mas convém formulá-la como “inflexão” ou “intuição estratégica”, não como doutrina plenamente fechada.
Eu (ainda) não diria que o CHEGA já possui uma doutrina orgânica, fechada e consciente de “Nova Direita social” nos moldes alemães, franceses ou italianos. Mas já há sinais suficientes para defender que o partido de André Ventura intuiu uma ruptura com a velha direita portuguesa: menos “gestão liberal-conservadora” e mais direita nacional, social, popular e culturalmente combativa. Faltava-lhe e/ou ainda lhe falta consolidar uma "Ponte"
A Ponte que faltava e que aquele partido está a fazer com Leão XIII é muito pertinente. A Rerum Novarum não é socialismo; é precisamente uma resposta cristã ao conflito entre capital e trabalho, defendendo propriedade, família, salário justo, descanso, protecção dos operários e associações de trabalhadores. Leão XIII escreveu que o Estado deve melhorar a sorte da classe operária e que os pobres são cidadãos “com o mesmo título que os ricos”; também defendeu descanso, limites ao trabalho e sindicatos/corporações como meios legítimos de protecção social.
Mas o Chega ainda se declara “nacional, conservador, liberal e personalista” e o seu programa reconhece funções sociais do Estado em ensino, saúde e segurança social, invoca subsidiariedade, fala de “ancoragem no social”, defende a cooperação entre trabalhadores e empresários, admite sindicatos e ordens profissionais, e reconhece um plano público de pensões como garante de estabilidade e coesão social.
Talvez tenhamos andado a olhar para o fenómeno CHEGA com uma lente demasiado estreita. Vimos André Ventura através do Parlamento, das polémicas, dos soundbites, dos ataques mediáticos, das reacções indignadas do comentariado e dos sermões moralistas da velha direita. Mas talvez o essencial esteja noutro lugar: na lenta formação de uma direita nova, diferente da velha direita do CDS/PP e do PPD/PSD.
A velha direita portuguesa habituou-se a duas funções: gerir o Estado melhor do que o PS e pedir desculpa por existir. Era liberal na economia, conservadora nas ocasiões solenes e social apenas quando precisava de ir a eleições. Falava muito de contas certas, pouco de trabalhadores; muito de défice, pouco de povo; muito de responsabilidade orçamental, pouco de abandono social. Ora, a política mudou. E Ventura percebeu que uma direita sem questão social é apenas uma contabilidade com gravata.
Foi por isso que a frase -“se reduzir a idade de reforma para 65 anos ou para 40 anos de desconto é de esquerda, então vamos assumir que somos de esquerda, mas somos portugueses” - teve mais importância do que parece. Não era apenas uma tirada parlamentar. Era a afirmação de uma direita que já não aceita entregar à esquerda o monopólio do trabalho, da reforma, do salário, da juventude ou da protecção social.
Entrou Gramsci,
recuperado por Benedikt Kaiser para a Nova Direita: antes do poder político vem o poder cultural. A política não se ganha apenas no Parlamento. Ganha-se nos conceitos, na linguagem, nos valores, nas redes sociais, nas organizações, nas editoras, nos jornais, nas associações, nas periferias, nos grupos concretos. Ganha-se quando uma ideia deixa de parecer excêntrica e passa a parecer senso comum.
mas faltava uma peça: Leão XIII.
A Rerum Novarum não é uma relíquia piedosa para sacristias doutrinárias. É uma das grandes respostas europeias à questão social moderna. Contra o socialismo, defende a propriedade, a família e a liberdade. Contra o capitalismo selvagem, defende o trabalhador, o descanso, o salário justo, a dignidade do operário e a legitimidade das associações laborais. Leão XIII não entregou o trabalhador à luta de classes; também não o entregou ao mercado puro. Colocou-o dentro da Nação, da família, da comunidade, da justiça e do bem comum.
e
aqui que o CHEGA pode estar a intuir algo de decisivo: a direita não pode abandonar a questão social. A protecção dos trabalhadores, dos reformados, dos jovens qualificados, dos pequenos contribuintes e das classes médias baixas não pertence à esquerda. Pertence à comunidade nacional. A esquerda sequestrou a linguagem social durante décadas; a direita, por medo de parecer socialista, deixou-lhe o terreno livre. Resultado: milhões de portugueses passaram a ouvir a direita apenas quando ela falava de cortes, impostos, défices e sacrifícios.
Tem de articular quatro camadas.
A primeira é cultural: disputar conceitos, linguagem e senso comum. A segunda é social: reconquistar trabalhadores, precários, pensionistas, classes médias baixas e periferias abandonadas. A terceira é nacional: ligar protecção social, soberania, identidade, fronteiras e pertença. A quarta é organizativa: construir uma direita-mosaico, onde partido, intelectuais, imprensa, movimentos, juventudes, editoras e associações cumprem funções diferentes, sem fingirem que são todos a mesma coisa.
O adversário, por isso, não é apenas a esquerda. É também o liberalismo global, que vê no homem apenas consumidor, contribuinte, recurso humano ou unidade estatística. A esquerda dissolve o povo em minorias; o liberalismo global dissolve-o em mercado. Uma direita nacional tem de responder aos dois: sem socialismo, mas também sem servilismo perante a economia sem rosto.
Ventura talvez não tenha ainda uma teoria acabada para isto. Mas a política nem sempre começa pela teoria. Muitas vezes começa pela intuição. E a intuição parece clara: a direita portuguesa, se quiser governar de forma duradoura, não pode limitar-se a ganhar eleições. Tem de formar quadros, disputar a cultura, recuperar a questão social, romper com o liberalismo globalista e construir uma ligação orgânica entre partido, povo e pensamento.
Porque não há vitória política duradoura sem retaguarda cultural, sem povo social e sem paciência histórica.
E talvez seja isso que a velha direita ainda não percebeu: o CHEGA não quer apenas ocupar o lugar que o CDS deixou vago. Quer mudar o próprio mapa da direita portuguesa.


