sexta-feira, 10 de julho de 2026

O CHEGA entre Gramsci, Benedikt Kaiser e Leão XIII

O jornalismo (num país livre e democrático) não existe para confirmar convicções; existe para investigar factos, contextualizá-los e permitir que os cidadãos formem a sua própria opinião.

1. Introdução — A crise das categorias políticas em Portugal
A política portuguesa atravessa uma fase de transformação conceptual. As categorias que dominaram o debate público desde os anos 1990 tornaram-se insuficientes para explicar fenómenos híbridos que combinam crítica social, retórica nacional, combate cultural e contestação institucional. O CHEGA é o caso mais evidente desta mutação.
Este texto procura investigar factos, contextualizar discursos e situar o fenómeno numa genealogia intelectual mais ampla, sem confirmar convicções prévias.
2. O CHEGA, Gramsci e a despesa “de esquerda”
A teoria gramsciana da hegemonia cultural oferece uma chave de leitura útil: disputar o senso comum implica disputar os temas que estruturam a vida quotidiana. O CHEGA tem vindo a ocupar um espaço discursivo tradicionalmente associado à esquerda — despesa social, protecção dos vulneráveis, crítica à desigualdade — mas reinterpretando-o através de uma gramática moral, nacional e securitária.
Esta inversão estratégica procura construir um “povo” politicamente mobilizado através da questão social, sem adoptar o enquadramento igualitário da esquerda clássica.
3. Gramsci, Benedikt Kaiser e Leão XIII na questão social
A leitura gramsciana, porém, é insuficiente para explicar a totalidade do fenómeno. Surge aqui Benedikt Kaiser, publicista político da Nova Direita alemã, que defende uma crítica de direita ao capitalismo como parte de uma estratégia transversal. Kaiser argumenta que a direita deve disputar a questão social, não abandoná-la às forças progressistas.
A isto soma-se Leão XIII e a doutrina social da Igreja, que articulam justiça social, dignidade humana e preocupação com os trabalhadores dentro de uma visão moral e comunitária.
O CHEGA opera, assim, num cruzamento inesperado: crítica cultural (Gramsci), crítica de direita ao capitalismo (Kaiser) e intuições de justiça social (Leão XIII).
4. A hipótese:
“o CHEGA ficou mais social”
Há evidências que sustentam esta hipótese:
  • . reforço da linguagem sobre salários, habitação, pobreza e serviços públicos;
  • . disputa do eleitorado popular urbano e periurbano;
  • . centralidade crescente da questão social nos discursos parlamentares.
Contudo, permanece uma ambiguidade entre retórica social e propostas concretas. 
5. Uma direita metapolítica, social, nacional e pró-europeia?
Esta hipótese é mais exigente, mas também mais explicativa:
  • .Metapolítica: deslocar o combate para o plano cultural e civilizacional;
  • .Social: apropriação da questão social como instrumento de disputa hegemónica;
  • .Nacional: reforço da identidade, soberania e comunidade moral;
  • .Pró-europeia (civilizacional): defesa da Europa como espaço histórico e cultural, acompanhada de crítica às instituições europeias enquanto estruturas tecnocráticas.
Se esta síntese estiver a emergir, Portugal poderá estar a assistir ao nascimento de uma direita inédita no seu sistema político. 
6. Concluindo: Interpretar politicamente sem confirmar convicções
A epígrafe que abre este texto é metodológica: a análise política séria exige investigação, não militância; exige contexto, não slogans; exige categorias novas, não reciclagem das antigas.
Este   ReVisões   continuará a trabalhar neste sentido!