A mesma lógica apareceu no voto ao lado do PS no projecto que obriga o Estado a pagar o prémio salarial de devolução de propinas aos recém-formados, acumulável com o IRS Jovem. Para os liberais de cartilha, isto é horror orçamental. Para a direita antiga, é pecado ideológico. Para André Ventura, é simplesmente política: falar aos jovens, aos trabalhadores, aos reformados, aos antigos eleitores socialistas e comunistas, cansados de décadas de promessas, impostos, moralismo e patranhas.
É aqui que entra Benedikt Kaiser. Em Der Hegemonie entgegen, já traduzido em França como Vers l’hégémonie, Kaiser recupera Gramsci para a Nova Direita: a política não se ganha apenas no Parlamento, mas na cultura, nos valores, nas redes sociais, nos compromissos com grupos concretos e na capacidade de criar uma nova ideia de senso comum.
Há aqui risco, evidentemente. A fronteira entre política social e irresponsabilidade orçamental pode ser estreita. Mas há também uma intuição certeira: se a esquerda ocupou durante décadas o monopólio da “justiça social”, a direita ou disputa esse território ou resigna-se a ser a guarda-livros do regime.
No fundo, André Ventura não está a dizer que o CHEGA é de esquerda. Está a dizer coisa mais perigosa para o sistema: que há causas sociais que não pertencem à esquerda. Pertencem aos portugueses.
.jpg)
