domingo, 26 de julho de 2026

Quando a Direita recupera a Questão Social

Num artigo anterior — A Direita precisa de aprender com Gramsci, sem se tornar gramsciana - defendi que a principal lição do pensador comunista italiano não está no marxismo, mas na compreensão dos mecanismos da hegemonia cultural.
Uma corrente política não conquista verdadeiramente o poder apenas quando vence eleições. Conquista-o quando consegue definir as palavras, os valores e as causas consideradas legítimas. Quando a sua visão deixa de parecer excêntrica e passa a integrar o senso comum.
A evolução do CHEGA deve ser analisada à luz desta disputa.
O partido combina um discurso nacional, conservador e securitário com propostas sociais e laborais que, durante décadas, foram identificadas quase exclusivamente com a Esquerda. O comentariado vê nisso contradição, oportunismo ou simples caça ao voto.
Pode, porém, estar a nascer outra coisa: uma direita nacional e social, ainda incompleta, mas já diferente da velha direita liberal-conservadora. .
A Esquerda não inventou o "trabalhador"
Quando o CHEGA defende a reforma aos 65 anos ou depois de 40 anos de descontos, aproxima-se objectivamente de posições do PCP e do Bloco de Esquerda.
Mas uma medida semelhante não tem necessariamente a mesma origem ideológica.
A defesa do trabalhador, do descanso, da reforma digna e da protecção das famílias não pertence por direito hereditário à Esquerda. Muito antes de o marxismo reclamar o monopólio da questão social, a doutrina social católica discutia o salário justo, a dignidade do trabalho, os deveres da propriedade e os limites morais do poder económico.
Leão XIII não defendia a luta de classes. A Rerum Novarum rejeitava tanto o colectivismo socialista como a exploração do trabalhador por um mercado sem freios morais.
É, portanto, intelectualmente errado concluir que qualquer proposta favorável aos trabalhadores é necessariamente de esquerda.
A Esquerda apropriou-se culturalmente da questão social. Não a inventou.
Coincidência não significa identidade .
O CHEGA tem defendido a redução da idade da reforma, o regresso dos 25 dias de férias, a valorização do trabalho por turnos e uma maior protecção da maternidade e da vida familiar.
Estas posições coincidem parcialmente com reivindicações tradicionais da esquerda partidária e sindical. O enquadramento, porém, é diferente.
O PCP interpreta o trabalhador através do conflito entre capital e trabalho. O Bloco acrescenta-lhe uma leitura identitária e cultural. O CHEGA procura integrar trabalhadores, pequenos empresários, reformados, forças de segurança e classes médias empobrecidas numa comunidade nacional.
Onde a Esquerda vê uma classe, esta Nova Direita procura ver um povo.
Onde a Esquerda propõe a solidariedade internacional dos trabalhadores, o CHEGA apresenta uma solidariedade nacional entre quem trabalha, produz, desconta e sustenta a comunidade.
Onde a Esquerda acusa o capitalismo, o CHEGA denuncia o conluio entre Estado, interesses económicos protegidos, burocracias partidárias e elites transnacionais.
Pode discutir-se a coerência desta formulação. Não se deve, contudo, confundir semelhança de propostas com identidade de projecto político.
A energia e a justiça económica
A questão da energia oferece outro exemplo.
Ao defender a redução drástica do IVA sobre o gás e a electricidade, o CHEGA parte do princípio de que a energia é um bem essencial e de que a carga fiscal penaliza injustamente famílias e empresas.
Também aqui existe convergência material com propostas da Esquerda.
Para o PCP e para o BE, a pobreza energética demonstra o fracasso das privatizações e da lógica capitalista aplicada aos sectores estratégicos.
Para o CHEGA, a factura energética representa sobretudo um mecanismo de extracção fiscal, uma penalização da produção nacional e mais uma consequência de decisões tomadas por elites afastadas da realidade quotidiana.
A Esquerda afirma que o capital explora o trabalhador.
O CHEGA responde que o sistema político, fiscal e económico explora quem trabalha, produz e cumpre.
A diferença está na deslocação do conflito social.
Gramsci e a disputa da linguagem .
É aqui que regressamos a Gramsci.
Uma força política conquista hegemonia quando retira ao adversário as palavras com que este legitimava o seu poder.
Durante décadas, a Esquerda possuiu quase exclusivamente conceitos como «trabalhador», «justiça social», «desigualdade», «precariedade», «pobreza» e «privilégio».
  • A velha direita aceitou essa divisão política.
  • A Esquerda falava de justiça; a Direita falava de défice.
  • A Esquerda falava dos trabalhadores; a Direita falava dos mercados.
  • A Esquerda organizava sindicatos, associações e redes culturais; a Direita organizava conferências sobre competitividade e privatizações.
Depois admirou-se por ter perdido os sectores populares.
O CHEGA percebeu, talvez mais por intuição do que por elaboração doutrinária, que uma direita limitada aos impostos, às empresas e ao crescimento económico nunca constituiria uma maioria social duradoura.
Por isso começou a disputar as palavras abandonadas pela velha direita: .
Trabalho; Protecção; Reforma; Salário; Descanso; Justiça; Privilégio; Povo.
Isto é metapolítica aplicada.
Não se trata apenas de apresentar propostas. Trata-se de retirar à Esquerda o monopólio da indignação social.
Benedikt Kaiser e o novo bloco social
Benedikt Kaiser sustenta que a Nova Direita não pode limitar-se à imigração, à segurança ou ao combate contra o progressismo cultural.
Precisa de recuperar a questão social, criticar os efeitos desagregadores da globalização e criar uma aliança entre trabalhadores, famílias, pequenos empresários, classes médias empobrecidas e comunidades locais.
Precisa, numa expressão de origem gramsciana, de formar um novo bloco social.
É isso que torna a experiência do CHEGA politicamente interessante.
O partido procura reunir sectores tradicionalmente considerados incompatíveis: antigos eleitores da Esquerda, pequenos empresários sufocados por impostos, reformados, forças de segurança, populações das periferias e eleitores culturalmente conservadores.
O cimento desta coligação não é a consciência de classe.
É a percepção de abandono.
Abandono pelo Estado, pelos partidos tradicionais, pelas elites económicas, pelas instituições europeias e por uma classe dirigente protegida das consequências das decisões que toma.
A mensagem é simples: quem trabalha, desconta, cumpre a lei e sustenta o País está a ser sacrificado por quem governa, especula ou beneficia de privilégios.
Pode ser uma mensagem simplificadora e até demagógica. Mas possui uma força emocional que a tecnocracia da velha direita e o moralismo da nova esquerda deixaram de ter.
O ponto cego do comentariado 
O comentariado continua a analisar o CHEGA através das categorias políticas do século passado.
Classifica-o como «extrema-direita» e considera o trabalho concluído.
A etiqueta substitui a análise.
Pouco se investiga a deslocação do voto operário, a perda de influência da Esquerda nas periferias, a apropriação da questão laboral ou a combinação entre protecção social, autoridade, soberania e identidade nacional.
Reconhecer a dimensão social do CHEGA obrigaria muitos comentadores a admitir que a Direita já não está confinada ao liberalismo económico e que a Esquerda perdeu a representação exclusiva dos desfavorecidos.
Obrigá-los-ia também a aceitar que os eleitores populares podem votar no CHEGA não por ignorância ou manipulação, mas porque deixaram de se sentir representados por uma Esquerda mais interessada em minorias sociológicas e causas identitárias do que nas condições materiais e culturais dos trabalhadores.
É mais confortável chamar-lhes «ressentidos».
Evita perguntar por que razão se ressentem.
Um partido de protesto total 
Ao combinar segurança, combate à corrupção, crítica à imigração descontrolada, defesa dos trabalhadores e ataque aos privilégios políticos, o CHEGA apresenta-se como partido de protesto total.
  • Contra o crime e contra a precariedade.
  • Contra a desordem e contra os privilégios.
  • Contra a globalização sem fronteiras e contra o abandono dos territórios.
Esta amplitude contém riscos.
Sem doutrina, pode transformar-se numa acumulação oportunista de descontentamentos. Sem sustentabilidade financeira, as promessas sociais podem reduzir-se a proclamações eleitorais. Sem formação de quadros e instituições culturais, tudo poderá continuar excessivamente dependente de André Ventura.
Romper a hegemonia alheia não é o mesmo que construir uma hegemonia própria.
O CHEGA terá, por isso, de responder a uma pergunta que nenhuma intervenção parlamentar consegue evitar para sempre:

Que sociedade pretende construir?
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A Direita não está a tornar-se de esquerda 
O que estamos a observar pode não corresponder a uma esquerdização do CHEGA.
Pode corresponder ao regresso da Direita à questão social.
A velha direita portuguesa abandonou durante demasiado tempo os trabalhadores à Esquerda, a cultura aos progressistas, os sindicatos aos comunistas e a solidariedade ao Estado burocrático.
Defendeu o mercado, mas esqueceu-se da comunidade.

Uma Nova Direita terá de compreender que a Nação não é apenas território, bandeira, fronteira e memória. É também dignidade do trabalho, protecção entre gerações, segurança económica e reconhecimento de quem sustenta a comunidade.
Gramsci ajuda a compreender a disputa pela hegemonia.
Leão XIII recorda que a sociedade não pode ser reduzida nem à luta de classes nem à lei do mais forte.
Benedikt Kaiser mostra que uma direita nacional que abandone a questão social acabará por abandonar o próprio povo.

O CHEGA parece ter intuído esta convergência. Ainda não sabemos se conseguirá transformá-la numa doutrina coerente e numa verdadeira alternativa de poder.
Mas uma coisa começa a tornar-se evidente: a Esquerda deixou de possuir o monopólio da linguagem da justiça social.
Não porque o CHEGA se tenha tornado de esquerda.
Mas porque a Esquerda confundiu durante demasiado tempo uma conquista cultural com um direito de propriedade.
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