quarta-feira, 8 de julho de 2026

Quando o Jornalismo troca as Perguntas pelas Convicções

Uma democracia saudável precisa de uma imprensa livre. Mas precisa, acima de tudo, de uma imprensa curiosa, incómoda e mas intelectualmente honesta. Quando um tema deixa de ser investigado com profundidade e passa a ser tratado sobretudo em função de quem o levanta, o jornalismo perde parte da sua missão.
Durante anos, qualquer referência aos efeitos de uma imigração muito intensa foi frequentemente recebida com suspeição moral. Em vez de se discutir se havia pressão sobre a habitação, sobre o SNS, sobre as escolas, sobre os transportes ou sobre os serviços públicos, discutia-se sobretudo quem fazia as perguntas e quais seriam as suas intenções.
Hoje, muitas das dificuldades que antes eram desvalorizadas ocupam diariamente as manchetes. A escassez de habitação, a pressão sobre o Serviço Nacional de Saúde, os atrasos administrativos e as dificuldades de integração são temas reconhecidos por praticamente todo o espectro político. A realidade acabou por impor perguntas que durante demasiado tempo pareceram inconvenientes.

O que merece reflexão não é que existam jornalistas ou comentadores com opiniões — isso é natural e legítimo. O problema surge quando a opinião substitui a investigação e quando a discordância política parece condicionar a curiosidade jornalística. O papel da imprensa não é proteger governos nem combater partidos; é escrutinar o poder, seja ele qual for.
Também merece reflexão a facilidade com que se desqualifica um dirigente político em vez de se confrontarem os factos que apresenta. Num regime democrático, cada voto tem exatamente o mesmo valor. Um cidadão vale um voto, independentemente da profissão, da notoriedade ou da simpatia que desperta. Ignorar ou caricaturar as preocupações de centenas de milhares — ou mesmo milhões — de eleitores não resolve problema algum; apenas aumenta a distância entre os órgãos de comunicação social e uma parte significativa da sociedade.
Uma imprensa de referência distingue-se pela capacidade de colocar perguntas difíceis, mesmo quando as respostas incomodam. Quando prefere classificar pessoas em vez de examinar factos, deixa de ajudar os cidadãos a compreender a realidade e passa a participar nela como mais um ator político.
O jornalismo não tem a obrigação de concordar com André Ventura, nem com qualquer outro líder político. Tem, isso sim, a obrigação de investigar, contextualizar e informar. Quando faz menos do que isso, perde autoridade. E essa perda não resulta dos discursos dos políticos; resulta das escolhas de quem decidiu trocar as perguntas pelas convicções.