A relação entre os Órgãos de Comunicação Social e os partidos classificados como “anti‑sistema” tornou‑se, na última década, um dos temas centrais da sociologia política europeia. Não se trata apenas de medir simpatias ou antipatias: trata‑se de compreender como se constrói, quotidianamente, a percepção pública de actores políticos que desafiam o consenso dominante. França foi pioneira neste campo ao estudar, com rigor metodológico, o enquadramento mediático do Rassemblement National. O que se descobriu não foi uma conspiração, mas sim um conjunto de incentivos internos, alinhamentos institucionais e pressões culturais que produziam, de forma sistemática, uma narrativa desfavorável.
Portugal encontra‑se hoje num ponto semelhante. O
crescimento do Chega e a centralidade mediática de André Ventura tornaram o
partido num objecto permanente de escrutínio. A percepção pública — amplificada
por redes sociais, comentadores e militâncias adversárias — é a de que existe
uma “hostilidade estrutural” dos OCS. Contudo, quando se analisam casos
concretos, como os artigos de 2026 da jornalista Inês André Figueiredo,
verifica‑se que a percepção não coincide com a realidade factual: as peças são neutras, factuais e sem enquadramento adversarial. Este contraste entre sensação e facto é, por si
só, revelador.
A discrepância não deve ser ignorada. Pelo contrário: deve
ser estudada. Portugal apresenta características que tornam plausível a
existência de fenómenos semelhantes aos franceses — concentração
elevada da propriedade dos media, dependência de publicidade estatal,
homogeneidade sociológica das redacções e crescente polarização política. Estes factores não
produzem, por si, censura formal; produzem algo mais subtil: ambientes editoriais
onde certos enquadramentos se tornam mais prováveis do que outros.
O precedente francês ensina que a análise mediática não pode
assentar em impressões, indignações momentâneas ou leituras partidárias. Exige método, comparação
internacional, análise linguística, estudo institucional e distinção
rigorosa entre narrativa e facto. Só assim se poderá determinar se
existe, em Portugal, um padrão estrutural de negatividade ou se a percepção
pública resulta de outros factores — como a polarização, a amplificação digital
ou a própria estratégia comunicacional dos actores políticos.
Num país em transformação, compreender a relação entre OCS e
política não é apenas um exercício académico: é uma necessidade democrática. E
o primeiro passo é este: separar a percepção da
realidade factual. O segundo será estudar, com seriedade, o que
ainda ninguém estudou.
