terça-feira, 27 de janeiro de 2026

Ventura: um teste psicológico, mais do que político

Quando um sistema inteiro entra em pânico por causa de um homem, fingir que ele é secundário é mentira consciente

Há políticos que dividem opiniões. E há políticos que desorganizam sistemas.
André Ventura pertence claramente à segunda categoria. E é precisamente por isso que quase ninguém consegue falar dele com seriedade. A esmagadora maioria dos que dizem “saber quem Ventura é” não sabe coisa nenhuma. Limita-se a projectar nele as suas pulsões — entusiasmo ou repulsa — e a chamar a isso análise política.
Não é. É psicologia barata embrulhada em retórica cívica.

O que se pode fazer com honestidade intelectual não é dissecar a “pessoa”, nem as suas intenções íntimas, nem a sua vida privada. Isso é território de tablóide, café e comentador militante. O que se pode fazer é observar padrões públicos repetidos, ao longo do tempo, sob pressão e sem ela, em debate, em conflito, em vitória e em derrota — e perceber o que esses padrões revelam sobre o fenómeno político.

E o fenómeno é este: Ventura é o único actor político deste ciclo que obriga o sistema inteiro a reagir.
Ele não responde à agenda. Ele impõe-a.
Tudo o resto — candidatos, comentadores, editoriais, manifestos de “salvação da democracia”, apelos à moderação e súbitos acessos de virtude republicana — surge depois, como reflexo condicionado. Ventura é a causa. Os outros são a resposta. Fingir o contrário é uma encenação pobre.

A reacção que provoca diz tudo. Raramente se discute o que ele propõe. Discute-se o que ele “é”. Em vez de argumentos, rótulos. Em vez de discordância, patologização. Em vez de confronto político, alarmismo moral.
Não se diz “está errado”. Diz-se “é perigoso”.
Isto não é debate democrático. É mecanismo defensivo. Serve para proteger um ecossistema confortável, habituado à alternância sem ruptura, à mudança cosmética vendida como progresso e à ausência total de fricção real. Uma classe política e mediática que vive bem dentro da moldura e entra em pânico quando alguém a desloca um centímetro.
O mais revelador é que esta reacção vem sempre travestida de superioridade ética. Mas não há ali ética nenhuma. Há autopreservação. Há medo de perder o controlo do discurso, das regras implícitas, do consenso artificial que permite governar sem pensar demasiado.
Convém sublinhar — antes que os devotos do antifascismo automático entrem em convulsão — que isto não santifica Ventura. Não o torna estadista, nem garante competência governativa, nem absolve excessos, contradições ou oportunismos. Identifica algo muito mais incómodo para o sistema: Ventura funciona como detonador de posicionamento.

Num país treinado para confundir estabilidade com virtude, alguém que introduz conflito real não é tratado como concorrente. É tratado como ameaça existencial. E ameaças existenciais não se enfrentam com ideias. Tentam-se neutralizar, isolar, deslegitimar.
É por isso que esta eleição — especialmente na segunda volta — é sobre Ventura, quer se queira quer não.
A figura que lhe faz frente poderia chamar-se outra coisa qualquer. O seu papel manter-se-ia intacto: oferecer uma saída emocionalmente confortável, uma promessa de anestesia política, um regresso ao ruído branco institucional onde nada muda de facto, mas tudo parece muito responsável.
Ventura faz o contrário. Obriga a escolher tensão em vez de conforto. Conflito em vez de consenso encenado. Verdade incómoda em vez de linguagem higienizada.
Quem vota em Ventura prefere disrupção à anestesia. Quem vota contra Ventura, muitas vezes, não escolhe o outro por convicção — escolhe-o para não ter de pensar no que Ventura obriga a enfrentar.

Por isso não há debate sério. Por isso os media aceitam, sem protesto, a recusa de discutir ideias. Por isso a moral substitui o argumento. 
Esta eleição não mede programas. Mede a capacidade colectiva de suportar fricção.
É um teste psicológico, não político.
E quando um sistema inteiro se organiza em função de um homem, fingir que ele é secundário já não é ingenuidade. É má-fé.

Notas
1. Fenómeno vs. pessoa: este texto analisa padrões públicos e reacções sistémicas; não pretende inferir intenções íntimas nem vida privada.
2. Fricção: uso aqui “fricção” como o choque que obriga actores e instituições a explicitarem posições, interesses e limites — algo raro na alternância cosmética.