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Chegados ao fim desta primeira fase da série, impõe-se uma constatação desconfortável: existe, em certos sectores da direita portuguesa, uma predisposição estrutural para perder em vez de ganhar com ruptura. Isto é: andam "de lado"
A maioria dos caranguejos anda de lado, em crab walk devido à estrutura articulada das suas patas, que se dobram para os lados, tornando esta forma de locomoção mais eficiente. Dito isto, e embora prefiram andar de lado, por vezes também conseguem mover-se para a frente ou para trás, mas de forma mais lenta e desajeitada.
Não se trata de mera opção táctica. Trata-se de disposição psicológica. A vitória é aceitável desde que não perturbe o código implícito de respeitabilidade. Se para vencer for necessário confrontar consensos mediáticos, desafiar narrativas instaladas ou incorporar eleitorados incómodos, então a derrota torna-se preferível — desde que digna.
I. A estética acima da estratégia
A política transforma-se, assim, em exercício estético. Discute-se o tom, o estilo, a postura. A estratégia é secundária. A substância programática dissolve-se na preocupação com a imagem.
Esta atitude tem consequências previsíveis: a incapacidade de liderar um espaço político amplo. Porque liderar implica integrar diferenças, suportar tensões e aceitar riscos. Quem privilegia o “crab walk” evita o conflito; quem evita o conflito abdica da liderança.
II. O conforto da respeitabilidade
Perder com “crab walk” permite preservar capital simbólico. Mantém-se o acesso aos salões mediáticos, conserva-se a aprovação do comentariado, protege-se a reputação pessoal. A derrota é reinterpretada como prova de superioridade moral.
Mas a política democrática não recompensa apenas a respeitabilidade; recompensa eficácia. E eficácia implica capacidade de mobilização, articulação e agregação.
III. A recusa da mediação
Uma direita que prefere censurar o eleitorado dissidente a compreendê-lo abdica da função mediadora que historicamente coube às forças conservadoras: canalizar tensões sociais para dentro do sistema institucional.
Quando essa mediação falha, o conflito não desaparece — radicaliza-se. A recusa em incorporar sectores descontentes não elimina o descontentamento; desloca-o.
IV. A aristocracia democrática
Há aqui uma contradição latente: num regime de massas, a liderança exige diálogo vertical entre elites e eleitorado. Contudo, a direita que prefere perder com “crab walk” adopta uma postura quase aristocrática. A distinção cultural substitui a representação política.
Esta aristocracia psicológica não governa; observa. Não constrói maioria; comenta-a.
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Concluido-me:
Ganhar com ruptura não significa destruir instituições. Significa reconhecer que estabilidade sem adaptação é ilusão. Uma ordem política conserva-se pela capacidade de responder a desafios reais, não pela defesa abstracta da sua imagem.
A direita que prefere perder com “crab walk” preserva a serenidade do discurso, mas arrisca perder o país real. E quando o país real se sente ignorado, procura liderança noutro lugar.
No fim, o “crab walk” pode confortar consciências. Mas não substitui estratégia. E muito menos substitui liderança.
