Sociologia improvisada e a tentação de explicar o povo
Entre as teses mais recorrentes no debate político recente encontra-se a ideia tranquilizadora de que determinados votos — tidos como emocionais, negativos ou circunstanciais — “voltarão atrás”. A expressão, repetida com ligeireza opinativa, encerra uma concepção peculiar do eleitorado: o cidadão é soberano quando confirma a expectativa dos analistas; é errante quando a contraria. Este argumento assenta num pressuposto paternalista. Parte da convicção de que existe um estado natural de normalidade eleitoral para o qual o votante regressará assim que cessar a perturbação momentânea. O desvio é transitório; a ordem é permanente. Trata-se menos de uma análise empírica do que de um desejo normativo
I. O eleitor como político menor
O paternalismo eleitoral opera por redução simbólica: o eleitor dissidente é interpretado como vítima de emoção, manipulação ou ignorância. A sua escolha não exprime agência racional; exprime carência. Esta atitude revela uma hierarquia implícita entre eleitores — uns maduros, outros imaturos; uns conscientes, outros capturados.
Ora, a tradição democrática moderna funda-se precisamente na recusa desta distinção qualitativa entre votantes. Desde Tocqueville, sabemos que a igualdade política é, antes de tudo, igualdade de dignidade decisória1. Classificar o voto incómodo como erro sociológico enfraquece esse princípio.
II. Sociologia de salão
A tese do “regresso automático” ignora ainda dados elementares da história eleitoral comparada. Movimentos considerados marginais consolidaram-se quando souberam transformar descontentamento difuso em representação política estável2. O que começa como voto de protesto pode tornar-se voto de identidade.
Pressupor que tal fenómeno se dissipa por mera fadiga moral é confundir análise com esperança. O eleitor não regressa por gravidade ética; regressa — ou não — conforme percepcione resposta efectiva às suas inquietações.
III. Moralização versus compreensão
O paternalismo eleitoral é frequentemente acompanhado por um discurso moralizador. A escolha divergente é descrita como “indecente”, “irreflectida” ou “indigna”. Assim, substitui-se o debate programático por uma pedagogia condescendente.
Hannah Arendt advertia para o perigo de transformar juízos políticos em julgamentos morais absolutos3. Quando a política é moralizada em excesso, o adversário deixa de ser interlocutor legítimo e passa a ser falha ética.
Este mecanismo tem consequências previsíveis: reforça a polarização e consolida a identidade daqueles que se sentem desqualificados. O voto deixa então de ser apenas escolha política; torna-se afirmação de autonomia face ao desprezo percebido.
IV. Conservadorismo e responsabilidade
Um conservadorismo intelectualmente consistente deveria interrogar as causas estruturais do desvio eleitoral: transformação demográfica, insegurança cultural, erosão da confiança institucional. Negar a legitimidade do sintoma não elimina a doença.
Burke recordava que a política prudente consiste em reformar para preservar4. Se sectores significativos do eleitorado expressam ruptura, a resposta não pode limitar-se à expectativa de arrependimento futuro.
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Conclusão
A ideia de que “os votos voltam atrás” revela mais ansiedade do que ciência política. É um consolo retórico para quem prefere a normalidade anterior ao confronto com o presente.
Numa democracia madura, o eleitor não é menor sob tutela moral. É agente político pleno — mesmo quando erra, e sobretudo quando discorda. Ignorar esta premissa pode preservar a serenidade dos salões; dificilmente preservará a estabilidade do regime.
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Notas de fim de página
1 Alexis de Tocqueville, De la démocratie en Amérique, 1835–1840.
2 Cas Mudde, Populist Radical Right Parties in Europe, Cambridge University Press, 2007.
3 Hannah Arendt, Between Past and Future, 1961.
4 Edmund Burke, Reflections on the Revolution in France, 1790.