O problema com o PSD não é ter renegado
a ideologia dos seus fundadores – o problema mesmo é ser cada vez menos um
partido de ideias e propostas e mais um partido de simples ocupação do poder. (José Manuel Fernandes)
José Manuel Fernandes também toca no nervo quando identifica no PPD/PSD o vício do partido de ocupação do poder: muito aparelho, muita táctica, muita frase gongórica, mas pouco propósito. Uma agenda reformista não nasce de São Bento nem de uma moção de congresso inchada de palavras. Nasce de uma ideia de país, de uma pedagogia política e de uma maioria que se constrói antes do dia fatal da votação.
A questão sobre o posicionamento do PPD/PSD face à viragem do país à direita e à existência de uma maioria parlamentar tem marcado o debate político recente. (Passos Coelho)
E Passos Coelho, goste-se ou não dele, disse o óbvio que o actual PPD/PSD fingiu não ouvir: se o país virou à direita e se há uma maioria parlamentar à direita, então era dentro da direita parlamentar que devia ter sido tentado um acordo de legislatura, com CHEGA e IL. Difícil? Evidentemente. Impossível? Só se saberia tentando. Mas o actual PPD/PSD preferiu continuar a brincar ao centro virtuoso entre dois “extremismos”, enquanto precisava dos votos de um deles para governar.
segunda-feira, 22 de junho de 2026
A propósito do chumbo da Lei Laboral
Óh tótós: "numa negociação não há vencedores nem vencidos"
A frase é conhecida, repetida em cursos de gestão, em manuais de diplomacia e em conversas de café com pretensões de sabedoria: numa negociação séria não há vencedores nem vencidos. Há partes que entram com interesses diferentes, ouvem, argumentam, cedem no acessório e tentam salvar o essencial. Quando tudo corre bem, ninguém sai com tudo; mas todos saem com alguma coisa.
Ora, se isto é assim, talvez valha a pena fazer a pergunta que quase ninguém quer fazer:
Se PPD/PSD e CHEGA estiveram realmente a negociar, como justificam ambos que não tenha havido acordo?
O PPD/PSD diz que não podia ceder na descida da idade da reforma, porque as pensões são sagradas, a Segurança Social não é um brinquedo eleitoral e uma reforma laboral não podia transformar-se numa feira de promessas previdênciais. É um argumento respeitável. O problema é que, sendo respeitável, não chega. Porque quem governa sem maioria absoluta não pode descobrir, na véspera da votação, que precisa de uma maioria parlamentar. Muito menos pode confundir negociação com pedido de obediência. O PPD/PSD queria aprovar uma reforma sem ter construído antes uma maioria política, social e comunicacional para a defender. Chamou negociação ao que parece ter sido uma tentativa tardia de evitar o desastre.
O CHEGA, por seu lado, afirma que não foi eleito para ser muleta gratuita do Governo. Dirá que, se o Governo queria votos, tinha de aceitar contrapartidas substantivas. E dirá ainda que a baixa da idade da reforma, sobretudo para carreiras contributivas longas, não era um capricho, mas uma condição política ligada à vida concreta de muitos trabalhadores. Também aqui há um argumento atendível. O problema é que uma negociação não é uma proclamação de comício. É a arte de distinguir o que se exige, o que se obtém, o que se adia e o que se transforma em compromisso verificável.
Daqui resulta a comédia. O PPD/PSD acusa o CHEGA de irresponsabilidade. O CHEGA acusa o PPD/PSD de arrogância. Ambos podem ter alguma razão. Mas ambos revelam a mesma incapacidade: negociar sem transformar o processo numa encenação destinada ao consumo das respectivas claques.
O actual PPD ficou dependente de divisas
ocas, e às vezes apalermadas, cunhadas por agências de comunicação. (Miguel
Morgado)
Miguel Morgado tem razão quando vê nesta derrota mais do que uma votação perdida: vê um impasse estratégico. Um partido que vive de divisas ocas, fabricadas por agências de comunicação, acaba por descobrir que slogans não substituem rumo. “Governar para as pessoas” serve para cartaz; não serve para aprovar reformas difíceis.
No fim, não houve vencedores nem vencidos. Houve apenas vencidos.
O Governo perdeu a reforma. O PPD/PSD perdeu autoridade. O CHEGA perdeu a oportunidade de mostrar que sabe transformar força parlamentar em resultado concreto. A IL ficou com razão sem consequência. A esquerda celebrou uma vitória que não lhe custou nada. E o país ficou exactamente onde estava: com reformas adiadas, partidos em pose e comentadores a explicar, muito solenemente, que a culpa é sempre dos outros.
Óh tótós: negociar não é exigir que o outro assine a nossa acta. Também não é entrar na sala para sair de lá com uma manchete. Negociar é perceber o preço das coisas antes de entrar no bazar.
Desta vez, entraram todos. Mas parece que ninguém sabia o preço de nada.
