Há fenómenos ideológicos que se apresentam como simples actualizações de linguagem, como ligeiras correcções de sensibilidade ou como discretos progressos civilizacionais. Convém, porém, olhar para eles com mais rigor. O que hoje se dissemina em Portugal sob a aparência benigna da chamada “linguagem neutra” não é um acidente linguístico, nem uma espontânea mutação orgânica da língua: é um programa de reformatação simbólica da realidade, imposto por minorias activistas que procuram transformar a linguagem num instrumento de poder.
A questão, por isso, não é filológica apenas. É também cultural, política e até social.
Durante décadas, os portugueses habituaram-se a olhar para o Brasil como grande espaço de irradiação cultural no domínio da música, do entretenimento ou da expansão lexical própria de uma língua viva. Nada disso constitui, em si mesmo, problema. As línguas sempre circularam, absorveram, devolveram, reinventaram. O problema começa quando o que atravessa o Atlântico já não é a vitalidade natural de uma comunidade linguística, mas sim um pacote ideológico fabricado em meios universitários radicalizados, depois vulgarizado por activismos digitais e, finalmente, recodificado como imperativo moral.
É nesse quadro que a “linguagem neutra” surge não como expressão da língua, mas como agressão à língua.
Os seus promotores invocam a inclusão. Mas a inclusão, aqui, funciona como palavra-talismã: serve para impedir a crítica, bloquear o exame racional e atribuir superioridade moral automática a quem subscreve a nova ortodoxia. Ora, a estrutura gramatical do português não corresponde a uma conspiração patriarcal nem a um dispositivo histórico de opressão. O género gramatical não se confunde com sexo biológico, e só o empobrecimento intelectual contemporâneo permite fingir que uma categoria da gramática latina é idêntica a uma categoria da militância identitária.
A tentativa de impor formas artificiais — “todes”, “amigues”, “elu” e correlatas — não amplia a inteligibilidade comum: fragmenta-a. Não aproxima os falantes: separa-os. Não democratiza a língua: aristocratiza-a. Cria um dialecto de reconhecimento interno, uma senha de pertença, um pequeno catecismo verbal destinado a distinguir os iniciados dos restantes. Sob o pretexto de incluir os alegadamente excluídos, instaura-se uma exclusão nova: a dos que não frequentam os códigos da seita.
É aqui que a crítica deixa de ser meramente conservadora para passar a ser socialmente séria. A norma culta, com todos os seus limites e exigências, continua a ser um instrumento de unificação simbólica e de mobilidade social. Para o filho do operário, para o estudante de origem modesta, para quem depende da escola como meio de ascensão, a existência de uma norma comum é protecção, não opressão. Quem ridiculariza essa norma em nome da transgressão pseudo-emancipatória quase sempre o faz a partir de posições de conforto cultural. Como sucede tantas vezes, são os privilegiados que brincam à revolução sem pagar o preço da desordem que promovem.
A novilíngua identitária não nasce, pois, de uma necessidade popular. Nasce de elites académicas, de sectores editoriais, de activismos de rede e de aparelhos culturais que vivem da fabricação de causas. E esse aspecto merece especial atenção em Portugal. O País, sempre vulnerável a modas importadas e particularmente permeável ao prestígio exterior travestido de modernidade, começa a acolher como sinal de sofisticação aquilo que, noutros contextos, já revelou o seu carácter corrosivo.
Não se trata de hostilidade ao Brasil, nem de recusa da sua produção intelectual em bloco. Seria absurdo e injusto dizê-lo. Trata-se, sim, de notar que uma parte do Brasil universitário e editorial foi convertida em laboratório de tropicalização das piores abstracções ideológicas saídas dos campi norte-americanos. Depois de adaptadas ao contexto brasileiro, essas doutrinas regressam ao espaço lusófono com o selo enganador da modernidade, da diversidade e do progresso moral. E encontram em Portugal um terreno surpreendentemente receptivo: universidades desejosas de parecer avançadas, meios culturais dependentes do consenso progressista, juventudes à procura de causas substitutivas e um jornalistado incapaz — ou indisponível — para distinguir entre inovação cultural e colonização ideológica.
Neste ponto, a defesa da língua cruza-se com a defesa da civilização. Porque a língua não é apenas instrumento de comunicação; é forma de continuidade histórica, depósito de experiência colectiva, estrutura de inteligibilidade do mundo. Quando se adultera deliberadamente a gramática para a submeter a fantasias antropológicas, não se está a “actualizar” a língua: está-se a atacá-la como mediação entre realidade, tradição e comunidade.
É por isso que a pressão para adoptar certas fórmulas ditas inclusivas não deve ser lida como mero excesso de zelo ou excentricidade estudantil. Quem exige que todos usem determinada novilíngua não está a pedir tolerância: está a reclamar obediência simbólica. Está a exigir que a comunidade aceite, como obrigação pública, uma ficção ideológica sobre a natureza humana, sobre a história e sobre a própria função da linguagem.
No fundo, é sempre o mesmo impulso: primeiro altera-se o vocabulário; depois deslegitima-se a norma; em seguida moraliza-se a dissidência; por fim, transforma-se a recusa em prova de culpa. O resultado é conhecido: sociedades mais frágeis, ensino mais confuso, elites mais auto-referenciais e povos cada vez mais afastados da língua em que ainda poderiam reconhecer-se.
Portugal faria bem em resistir enquanto pode. Não por purismo estéril, nem por nostalgia folclórica, mas por elementar lucidez cultural. Uma comunidade que perde a confiança na sua língua comum perde também parte da sua capacidade de transmitir herança, estabelecer critérios e manter coesão. E quando a língua se torna campo de intimidação moral, já não estamos perante um debate gramatical: estamos perante uma disputa pela definição legítima do real.
No fim, o mais revelador neste processo é a sua impostura social. Fala-se em inclusão, mas fabrica-se exclusão. Invoca-se empatia, mas humilha-se quem não domina o novo código. Proclama-se liberdade, mas impõe-se conformidade. E chama-se progresso ao que não passa, afinal, de regressão mascarada.
A “revanche woke” não é apenas uma excentricidade semântica. É mais um capítulo da guerra cultural movida contra a objectividade, contra a tradição e contra a autoridade simbólica da civilização ocidental. E, como quase sempre sucede, começa por pedir apenas uma palavra. Até ao dia em que já exige a rendição inteira.
