Grande parte do debate público europeu continua a tratar o fenómeno do Islão político com uma mistura de ingenuidade e simplificação.
Para alguns, trata-se apenas de um extremismo religioso. Para outros, de uma reacção defensiva de comunidades marginalizadas.
Ambas as interpretações falham um elemento essencial: o Islão político é, antes de tudo, uma ideologia moderna de poder.
Tal como outras ideologias revolucionárias do século XX, procura reorganizar a sociedade segundo um modelo político totalizante. A religião desempenha um papel central, mas sobretudo enquanto instrumento de legitimação política.
A revolução iraniana de 1979 constitui um exemplo paradigmático:
Influenciado por pensadores como Ali Shariati, o Islão xiita foi reinterpretado através de categorias inspiradas no pensamento revolucionário moderno. A narrativa religiosa passou a estruturar-se como uma luta histórica entre oprimidos e opressores.
Khomeini transformou essa retórica numa arquitectura institucional baseada na tutela política dos juristas islâmicos.
O resultado não foi uma simples teocracia tradicional.
Foi um regime revolucionário que instrumentalizou a religião para legitimar um Estado autoritário.
Este modelo não se limita ao Irão. O Islão político desenvolveu ao longo das últimas décadas uma dimensão transnacional, procurando influenciar comunidades muçulmanas muito para além do Médio Oriente.
Nas democracias ocidentais, essa influência manifesta-se frequentemente através de uma estratégia dupla: mobilização identitária e tentativa de restringir a crítica pública sob o argumento da discriminação religiosa.
Se essa estratégia tiver sucesso, as democracias liberais enfrentarão um paradoxo singular:
Ao tentar proteger a diversidade cultural, poderão acabar por enfraquecer os princípios liberais que tornam essa diversidade possível.
