Quando três poderes tentam governar, a política acaba sempre por escolher um vencedor
A política portuguesa atravessa um momento curioso: perante um impasse entre forças partidárias de peso comparável, começa a insinuar-se a expectativa de que a solução virá da moderação, do diálogo e da boa vontade. Um Presidente sensato, dizem alguns, poderá juntar as pontas soltas e desbloquear as reformas necessárias.
A história política mostra que sistemas dominados por três forças equivalentes raramente produzem estabilidade ou reformas profundas. Pelo contrário: tendem a gerar paralisia, negociação permanente e diluição de responsabilidades. E quando a situação se torna insustentável, a resolução surge quase sempre da mesma forma: um dos actores prevalece e os outros cedem ou desaparecem.
Não é uma particularidade portuguesa. É uma regularidade histórica.
A lição romana: os triunviratos nunca foram estáveis
O exemplo clássico encontra-se na própria origem do conceito de triunvirato.
No final da República Romana formou-se o chamado Primeiro Triunvirato, uma aliança informal entre três das figuras mais poderosas do seu tempo: Júlio César, Pompeu e Marco Licínio Crasso.
O acordo parecia perfeito. Cada um dos três líderes dispunha de recursos políticos diferentes: prestígio militar, influência no Senado ou poder financeiro. Juntos, dominavam Roma.
Mas o equilíbrio era ilusório.
A morte de Crasso na batalha de Carras, em 53 a.C., destruiu o frágil triângulo de poder. O sistema bipartiu-se imediatamente e o conflito entre César e Pompeu conduziu à guerra civil. O resultado é conhecido: César venceu e a República entrou numa fase irreversível de transformação.
Poucos anos depois surgiu um novo arranjo político — o Segundo Triunvirato, composto por Octaviano, Marco António e Lépido.
Também aqui o objectivo era governar em conjunto e estabilizar o sistema. Também aqui o equilíbrio não durou. Lépido foi rapidamente afastado e o conflito entre António e Octaviano terminou na batalha de Áccio, que abriu caminho ao Império Romano.
A lição romana é clara: os triunviratos não estabilizam o poder — apenas adiam a decisão sobre quem o exercerá sozinho.
A repetição do padrão na Europa moderna
A Europa contemporânea oferece inúmeros exemplos menos dramáticos, mas estruturalmente semelhantes.
Na França da IV República, após a Segunda Guerra Mundial, o sistema político fragmentou-se entre várias forças que procuravam governar através de coligações permanentes. O resultado foi uma instabilidade crónica, com governos efémeros e incapacidade de resolver crises estruturais.
A situação tornou-se tão insustentável que acabou por abrir caminho ao regresso de Charles de Gaulle e à criação da V República, um sistema institucional desenhado precisamente para evitar a paralisia dos equilíbrios partidários instáveis.
A Itália da chamada Primeira República oferece um caso semelhante. Durante décadas, a multiplicação de partidos e alianças produziu governos frágeis e negociações intermináveis. As reformas estruturais tornaram-se quase impossíveis, até que o sistema colapsou no início da década de 1990.
Mesmo em democracias consolidadas, a fragmentação partidária produz frequentemente governos minoritários dependentes de equilíbrios delicados. O resultado raramente é a estabilidade; é, antes, a gestão permanente do impasse.~
O erro recorrente: confundir consenso com governação
Existe uma ideia profundamente enraizada na cultura política europeia segundo a qual quanto maior for o consenso, melhor será a governação.
Mas esta crença ignora um facto fundamental: consensos são úteis para estabilizar decisões, mas raramente servem para produzi-las.
A política democrática vive de escolhas. Escolher implica preferir uma estratégia em detrimento de outra, assumir riscos e aceitar que nem todos os actores ficarão satisfeitos. Quando se tenta conciliar permanentemente posições incompatíveis, o resultado tende a ser um compromisso que neutraliza os efeitos de todas elas.
Nesse cenário, ninguém perde — mas também ninguém governa verdadeiramente.
Mais importante ainda: a responsabilidade política dilui-se. Se todas as decisões resultam de compromissos colectivos, torna-se difícil identificar quem deve ser responsabilizado pelos resultados. A política transforma-se então num exercício de negociação permanente, onde o mérito e o erro são igualmente distribuídos.
É precisamente esse o perigo dos sistemas tripolares.
A experiência histórica mostra que os sistemas dominados por três forças comparáveis resolvem-se normalmente de três maneiras.
A primeira é o colapso de um dos actores, provocado por derrota eleitoral, crise interna ou perda de legitimidade.
A segunda é a absorção política, quando uma das forças se aproxima de outra até formar um bloco dominante.
A terceira — e mais frequente — é simplesmente a prevalência progressiva de um dos pólos, que acaba por impor a sua agenda enquanto os restantes perdem capacidade de influência.
Em todos os casos, o resultado final é semelhante: o sistema deixa de ser tripolar.
A política como decisão
A política moderna gosta de apresentar-se como um exercício de diálogo permanente. É uma imagem tranquilizadora e, em certa medida, necessária numa sociedade democrática.
Mas a história recorda-nos algo menos confortável: governar é decidir. E decidir implica, inevitavelmente, que uma visão prevaleça sobre outras.
Os triunviratos — formais ou informais — tendem a adiar essa decisão. Funcionam como mecanismos de gestão do impasse, não como instrumentos de governação efectiva.
Mais cedo ou mais tarde, porém, o impasse resolve-se. E resolve-se quase sempre da mesma maneira:
Um dos actores vence.
Os outros cedem.
Até lá, a política continua a representar o seu teatro habitual de consensos e boas intenções — enquanto o país permanece suspenso entre propostas incompatíveis.
A história de Roma recorda-nos que os triunviratos raramente governam durante muito tempo.
Limitam-se a preparar o momento em que alguém governará sozinho.

