As recentes eleições municipais francesas não devem ser lidas como um episódio local ou meramente conjuntural. Constituem, antes, um sintoma avançado de uma mutação estrutural no espaço político ocidental, onde categorias clássicas — esquerda/direita, povo/elite, Estado/sociedade — vêm sendo substituídas por uma nova grelha interpretativa: identidade, raça e pertença comunitária.
Contrariamente à narrativa dominante nos media, esta mutação não foi impulsionada pela chamada “extrema-direita”, mas sim por sectores organizados da extrema-esquerda contemporânea, em particular pela LFI (La France Insoumise) e por formações satélite, como o Parti Anti-Capitaliste, bem como por redes informais de activismo antifa. O fenómeno central pode ser descrito com precisão: a racialização deliberada do debate político como estratégia de mobilização eleitoral.
Da teoria universitária à prática eleitoral
Importa sublinhar um ponto essencial: não foi a direita — radical ou outra — que reintroduziu o conceito de “raça” no espaço público europeu. Essa reintrodução foi feita por correntes ideológicas oriundas dos campus norte-americanos, posteriormente importadas para a Europa, e hoje plenamente incorporadas no discurso político da extrema-esquerda.
Conceitos como “privilégio branco”, “racismo sistémico”, “culpa histórica” ou “identidades racializadas” deixaram de ser categorias académicas marginais para se tornarem instrumentos de acção política directa. O salto qualitativo dá-se quando estas categorias passam a servir de base para a selecção de candidatos, a construção de listas eleitorais e a definição de mensagens políticas segmentadas. A política deixa, assim, de ser orientada pelo interesse geral e passa a organizar-se segundo blocos identitários concorrentes.
O comunitarismo como estratégia
Os exemplos recentes em França são particularmente elucidativos. Declarações de dirigentes ligados à LFI defendem explicitamente que os eleitores devem votar em candidatos “da mesma cor” ou “da mesma comunidade”, que a representação política deve reflectir identidades raciais ou religiosas e que o poder político deve ser conquistado como forma de “reparação histórica”.
O caso do deputado à Assembleia Nacional de França, Carlos Bilongo, é paradigmático: o seu discurso, marcado por referências à superioridade demográfica e à necessidade de “mostrar força”, traduz uma lógica de confronto identitário que rompe com o universalismo republicano.
Mais significativo ainda é o caso de Bally Bagayoko, cuja vitória em Saint-Denis foi apresentada como o triunfo da chamada “nova França”. Este conceito — popularizado por Jean-Luc Mélenchon — designa explicitamente a França dos bairros imigrantes, a França “não branca”, a França pós-nacional, em oposição implícita àquilo que seria a “velha França”: histórica, cultural e civilizacional.
Estamos, portanto, perante uma inversão conceptual profunda: a política deixa de procurar integrar indivíduos numa comunidade nacional e passa a organizar comunidades em competição dentro do Estado.
O fim do universalismo republicano
A tradição política francesa — desde a Revolução — assenta num princípio claro: o cidadão precede a identidade particular. Qualquer indivíduo pode tornar-se francês desde que aceite os valores da República. A estratégia da extrema-esquerda rompe com este modelo ao introduzir categorias identitárias permanentes, hierarquias morais entre grupos e uma leitura histórica baseada na culpa colectiva.
O resultado é a fragmentação do corpo político. A França — e, por extensão, o Ocidente — arrisca transformar-se num sistema de comunidades em concorrência, em vez de permanecer um Estado Nação politicamente uno.
Uma clarificação necessária: direita radical não é extrema-direita
Neste contexto, torna-se essencial introduzir rigor conceptual — algo frequentemente ausente no discurso mediático. O RN (Rassemblement National) é sistematicamente classificado como “extrema-direita”. Contudo, essa classificação é, do ponto de vista da ciência política, incorrecta.
O RN enquadra-se mais adequadamente na categoria de direita radical, caracterizada pela aceitação da democracia representativa, pela defesa da soberania popular, pela proposta de mecanismos referendários e pela oposição à imigração massiva. Não se confunde, por isso, com as extremas-direitas contra-revolucionárias, com as extremas-direitas revolucionárias do tipo fascista ou nacional-socialista, nem com correntes revolucionário-conservadoras, como a Konservative Revolution, ou ainda com as mais recentes experiências anti-liberais e tecnocráticas agrupadas sob a sigla NRx (Neo-Reactionary Movement).
Confundir todas estas realidades numa mesma etiqueta serve, acima de tudo, um objectivo político: deslegitimar, por via semântica, qualquer oposição séria ao paradigma dominante.
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O que está em curso não é apenas uma disputa eleitoral. É uma transformação mais profunda: substituição do universalismo pelo identitarismo, substituição do cidadão pela comunidade, substituição da integração pela fragmentação.
Paradoxalmente, esta dinâmica — frequentemente atribuída à “extrema-direita” — é hoje impulsionada por sectores que se reclamam da esquerda. E é por isso que o verdadeiro risco para o Ocidente pode não residir onde nos dizem que ele está, mas precisamente onde poucos querem olhar.
