Quando a Comunicação Social não mente sobre os factos — treina o público a aceitá-los. ---
“O “deepfake narrativo” mais perigoso não é o que mente sobre um facto. É o que quer treinar quem vê, ouve ou lê a aceitar o argumento.”
A passagem do director nacional da Polícia Judiciária para o cargo de ministro da Administração Interna não é um episódio administrativo. É um sintoma político. Num Estado de Direito maduro, a transição directa da chefia operacional de uma polícia criminal para a tutela governativa das forças de segurança deveria, no mínimo, suscitar um debate denso sobre separação de poderes, garantias institucionais e higiene constitucional.
Não suscitou. Pelo contrário: foi celebrada. E os aplausos mais efusivos vieram precisamente daqueles que, em permanência, se apresentam como guardiões das “Direitas, Liberdades e Garantias”, vigilantes do espírito constitucional e árbitros morais da República.
É aqui que entra o “deepfake narrativo”. Não houve mentira factual. Ninguém negou a trajectória do nomeado. Ninguém falsificou datas ou cargos. O que houve foi enquadramento. E o enquadramento é hoje a mais sofisticada forma de manipulação política.
O comentariado e o jornalistado — essa dupla engrenagem da legitimação simbólica — não precisaram de inventar nada. Bastou-lhes repetir palavras-chave: “competência”, “experiência”, “perfil técnico”, “estabilidade”. Bastou-lhes deslocar o foco do problema institucional para a biografia individual. Bastou-lhes transformar uma questão estrutural numa narrativa de mérito pessoal.
O resultado? A percepção pública deixa de perguntar se é saudável para o regime esta promiscuidade funcional entre polícia criminal e poder executivo. Passa a perguntar apenas se o nomeado é “competente”. E assim o essencial dissolve-se no acessório.
Num verdadeiro Estado de Direito, a aparência de independência das instituições é tão relevante quanto a independência efectiva. A democracia não vive apenas de legalidade formal; vive de cultura constitucional. E cultura constitucional significa desconfiança saudável perante acumulações de poder e zonas cinzentas entre quem investiga e quem governa.
Mas quando a Comunicação Social decide que a narrativa é a da “normalidade institucional”, o debate fecha-se antes de começar. Quem questiona é rapidamente remetido para a categoria dos “exagerados”, dos “alarmistas” ou, pior ainda, dos suspeitos ideológicos.
O “deepfake narrativo” não impõe uma mentira. Impõe um hábito mental. Treina o cidadão a aceitar como irrelevante aquilo que deveria inquietá-lo. Ensina-o a considerar como natural o que, noutras circunstâncias e com outros protagonistas, seria denunciado como atentado ao equilíbrio constitucional.
O perigo, portanto, não está no facto isolado. Está na pedagogia implícita. Está na habituação progressiva à erosão das fronteiras institucionais. Está na transformação do excepcional em rotina e do problemático em elogio consensual.
Quando os que se dizem mais atentos às garantias do Estado de Direito são os primeiros a relativizá-las, algo se deslocou no eixo moral do regime. E essa deslocação não é obra do acaso: é o produto de um enquadramento persistente, reiterado, confortável.
Não se trata de discutir pessoas. Trata-se de discutir princípios. E um regime que abdica de discutir princípios em nome de conveniências narrativas começa a trocar a substância pela aparência.
O “deepfake narrativo” é isso mesmo: não altera os factos — altera o critério com que os avaliamos.
E quando o critério se degrada, o regime segue-lhe o caminho.
ReVisões — porque a normalização é sempre o primeiro passo da decadência.