sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

Proibir, sanear e prender: a velha tentação de chamar “democracia” à exclusão

Quando a esquerda confunde pluralismo com limpeza política — e, depois, pede votos à direita com ar ofendido
Há frases que regressam como um cheiro antigo numa casa fechada. Não porque sejam “nostálgicas”, mas porque descrevem um mecanismo que nunca desapareceu: o impulso de baptizar “democracia” aquilo que é, na prática, uma operação de exclusão.
Em 1974, António José Saraiva — professor, ensaísta, historiador da cultura, homem de esquerda heterodoxa e de inteligência rara — citado por Rui Ramos (Observador 23Jan26) tentava explicar um facto elementar a uma esquerda que, de repente, descobrira que “democratizar” podia significar proibir, sanear e prender a direita. A advertência era simples: um regime que assenta na exclusão de uma parte importante do país nunca poderá ser uma democracia. O que se estava a viver não era “a abertura”, mas a tentação de um monopólio moral: quem manda decide o que é “democrático”; quem discorda é “reaccionário”; e, portanto, dispensável.

O problema não é histórico. É estrutural. O vício não morreu com o Verão Quente; apenas mudou de gravata e de vocabulário. Hoje já não se diz “fascista” com a mesma facilidade de 1975 (embora o reflexo persista). Diz-se “inaceitável”, “anti-democrático”, “discurso de ódio”, “ameaça institucional”, “extremismo”. A embalagem é nova; o gesto é o mesmo: reduzir o pluralismo a um corredor estreito onde só passam os que rezam o catecismo certo.
A política como limpeza: o método, não o acidente
Quem viveu 1974–75 (e não o viveu por interpostas memórias de sofá) sabe o que significaram os saneamentos: a pressa moral convertida em procedimento administrativo; a ideia de que a nova legitimidade dispensava garantias; o gosto pela lista, pelo carimbo, pela expulsão, pelo “afastamento preventivo”. Houve normas, houve comissões, houve justificações. E houve, sobretudo, uma convicção intoxicante: “agora somos nós — e isso basta”.
A literatura académica descreve com frieza o que, para muitos, foi vida quotidiana: entre 1974 e 1975, os saneamentos tornaram-se prática intensa, com regras que iam sendo criadas à medida que a realidade se radicalizava. (Redalyc)

E, ao lado do saneamento, a detenção, o medo, a intimidação social, a fronteira móvel do “permitido”. O PREC não foi apenas um “período de transformação”; foi também o laboratório de uma tentação totalitária — com idas e vindas, com facções, com resistências, com minorias responsáveis que impediram o pior. (defesa.gov.pt)
É aqui que Saraiva é útil. Porque Saraiva não fala como folhetinista; fala como alguém que sabe que democracia não é um prémio para os vencedores — é um método para conviver com os vencidos sem os tratar como inimigos a abater.

O 25 de Novembro e a condição mínima da democracia
A democracia liberal portuguesa — com todos os seus defeitos, e são muitos — nasce quando se fecha a porta à ideia de “democracia” como purga. O 25 de Novembro foi, nesse sentido, uma vacina amarga: não contra a esquerda democrática, mas contra a esquerda que queria tornar-se a própria definição de democracia.

Esse capítulo não é um detalhe historiográfico. É a chave para perceber a chantagem moral contemporânea: a de que a direita só é “aceitável” quando se ajoelha, quando pede licença, quando promete não tocar nos dogmas. A direita, para certos sectores, é tolerada como se fosse um parente pobre: pode entrar na sala, desde que não fale alto e não mexa nos móveis.
Os “neo-seguristas” e o truque de segunda volta
E aqui entramos no presente — onde o passado regressa, com filtro e maquilhagem.
Os “neo-seguristas de segunda volta” (usemos o nome sem pejo) descobriram, como por milagre, uma súbita paixão pelo pluralismo. Ontem, a direita era um problema. Hoje, a direita é um reservatório de votos que convém seduzir com apelos à “união”, à “moderação” e à “responsabilidade democrática”.
O que mudou? A doutrina? A visão do país? O respeito pela dissidência?
Não. Mudou a aritmética.

E é por isso que a frase de 1974 morde: porque revela a contradição central do moralismo político. Quem ontem usava “democracia” como arma de exclusão, hoje quer que a direita aceite o papel de figurante no filme da virtude. Querem o voto da direita — mas não querem a direita. Querem a soma — mas não querem a substância.
Há qualquer coisa de obsceno nesta coreografia: durante anos, o espaço mediático e político repetiu que certas posições eram “inadmissíveis”; agora, pede-se a quem foi tratado como intruso que se comporte como convidado grato. É o mesmo gesto antigo: primeiro, desumaniza-se politicamente; depois, exige-se civilidade ao desumanizado.
mínimo que se deve exigir (e o máximo que convém recusar)
democracia não é “o regime em que vence quem eu aprovo”. É o regime em que o adversário pode vencer sem ser expulso do país moral. É o regime em que o voto do outro não precisa de autorização ética para existir.

Se os neo-seguristas perceberam isto, óptimo: é uma conversão tardia, mas sempre é conversão. Só há um problema: conversões de segunda volta têm prazo de validade. Passado o dia da eleição, regressa o velho impulso de “purificar” o debate — e de declarar indigno tudo o que não caiba na moldura.
E é por isso que convém repetir, sem sentimentalismos: quando um campo político acredita que a democracia é a sua propriedade, o resultado não é democracia. É hegemonia com urnas.

Notas de fim
- A esquerda que ontem confundia “democratizar” com “limpar” quer hoje ser salva por quem tentou varrer. Chamem-lhe pluralismo; eu chamo-lhe necessidade.
- Quem só descobre a virtude do adversário quando precisa do seu voto não aprendeu tolerância: aprendeu cálculo.
- Uma democracia onde a direita só é “aceitável” quando está calada não é democracia — é apenas um saneamento adiado.
- António José Saraiva (1917–1993), professor e ensaísta, figura central da história da cultura e literatura portuguesas. (instituto-camoes.pt)
- A formulação “democratizar = proibir, sanear e prender a direita” circula frequentemente atribuída a António José Saraiva; a confusão é alimentada pela proximidade nominal com José António Saraiva (1948–2025), autor de uma crónica política publicada em 1974 (Do Estado Novo à Segunda República). (idl.pt)
- Sobre a intensificação e enquadramentos dos saneamentos no pós-25 de Abril, ver sínteses académicas sobre o tema. (Redalyc)
- Enquadramento geral do PREC e do seu período crítico, incluindo a tensão entre pluralismo e tentação hegemónica. (defesa.gov.pt)