Quando o medo substitui a política e a salvação da democracia passa a significar a exclusão do eleitor
Há um velho reflexo condicionado na política portuguesa que reaparece sempre que o Partido Socialista se vê ameaçado: uma parte da direita corre em seu auxílio, convencida de que está a salvar o regime quando, na verdade, está apenas a reciclar o poder socialista. Não é novo. Mas raramente foi tão explícito, tão mal justificado e tão politicamente contraproducente como no recente manifesto dos chamados “não-socialistas”.
O pretexto é conhecido: travar, impedir o “populismo”, salvar a democracia. O efeito real é outro: legitimar novamente o PS, reabilitar o seu espaço político e oferecer-lhe uma vitória moral que não conquistou nas urnas nem no debate público. Em nome de um antifascismo abstracto, entrega-se poder concreto a um partido com responsabilidades directas no empobrecimento, na desestruturação social e no bloqueio político do país.
A direita que não acredita em si própria
O manifesto dos “não-socialistas” não é um exercício de lucidez democrática; é um acto de desistência estratégica. Ao apelar ao voto, os seus signatários assumem implicitamente que a direita portuguesa é incapaz de se organizar, de se reformular ou de disputar o poder sem tutela moral do PS.
A contradição é evidente. Muitos dos subscritores conhecem bem o historial político de Seguro, os governos que apoiou e as políticas que viabilizou. Sabem — e disseram-no durante anos — o que o PS fez ao país. Ainda assim, assinam. Não por convicção, mas por medo: medo de perder o controlo do campo político, medo de um eleitorado que já não obedece às antigas mediações, medo de um actor político que não pede licença.
O antifascismo como arma de intimidação
A segunda operação em curso é ainda mais perigosa: a tentativa de transformar uma escolha eleitoral legítima num acto moralmente condenável. Chamar “fascista” a Ventura tornou-se um automatismo retórico e uma estratégia deliberada de desqualificação do eleitor. Já não se combate uma candidatura; combate-se o direito de a escolher.
A história recente devia ter ensinado alguma coisa. Em 1986, a retórica antifascista foi usada contra Freitas do Amaral. Noutras paragens europeias, foi usada contra candidatos que chegaram ao poder sem que a democracia colapsasse. O alarmismo falhou sempre. Mas insiste-se nele, como se a repetição pudesse substituir a realidade.
Linhas vermelhas contra eleitores
A democracia não se protege excluindo eleitores, mas integrando-os no jogo político. As chamadas “linhas vermelhas” não defendem o regime; congelam o sistema. Funcionam enquanto os partidos visados são marginais. Colapsam quando passam a representar uma parte significativa da sociedade.
A experiência europeia é clara: partidos rotulados como “populistas” entraram e saíram de governos sem destruir a democracia. Governaram bem ou mal. Foram julgados. E substituídos. Exactamente como manda o regime democrático.
O verdadeiro risco
O risco para a democracia não está num voto. Está numa elite que se recusa a aceitar que o eleitorado mudou. Está na criminalização simbólica do dissenso e na tentativa de impor uma ortodoxia política pela intimidação moral.
Ao ajudar o PS em nome da salvação do regime, esta direita “responsável” não protege a democracia. Protege um sistema que já não sabe reformar-se e que reage à perda de controlo com moralismo e histeria retórica. No fim, quem agradece é o PS. E, ironicamente, também Ventura.
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