sábado, 31 de janeiro de 2026

Da luta existencial ao manual de boas maneiras

Quando o argumento morre, sobra a etiqueta. 
E quando o medo manda, o regime pede “boa educação”.

Durante anos venderam-nos a novela apocalíptica: a “democracia” estava a cair, o “regime” tremia, a História regressava de botas cardadas. André Ventura era tudo — fascista, nazi, racista, antidemocrata — o bingo completo do pânico moral. Era suposto o povo entrar em modo de pavor permanente, com a imprensa a tocar sirenes e o comentariado a fazer de bombeiro-pirómano.

Nada pegou como queriam. E, quando a chantagem começou a perder gás, o guião mudou: já não é Hitler — é um malcriado. Já não é ameaça ao Estado de Direito — é ameaça ao bom-tom. A tragédia ideológica virou queixume de salão: Ventura não tem “gravitas”, não tem “maneiras”, não tem “perfil”. Em suma: pode deixar o país “mal na fotografia” lá fora.
E eis a solução milagrosa do regime: ~
António José Seguro, o “bem-educado”. Manso, previsível, polido, cordato. Um candidato que não incomoda, não agita, não ameaça o conforto institucional de ninguém. O homem certo para tranquilizar a tribo dos instalados e para embalar a consciência dos que confundem civilidade com virtude política.
Repare-se no truque: reduzir a escolha presidencial a um concurso de etiqueta. Como se a nação estivesse a eleger um mestre-de-cerimónias para jantares diplomáticos — e não um Presidente. Como se o país precisasse de um candidato “fofinho” para a fotografia do protocolo, em vez de um juízo político sobre rumo, poder e responsabilidade.

É aqui que a operação fica obscena: esta súbita cruzada pelas “boas maneiras” aparece precisamente quando se consolida um candidato alternativo junto dos deixados para trás — os que o sistema despreza, mas de quem precisa para fingir que representa “o povo”. E então o regime, impotente para rebater ideias, recorre ao insulto social em modo educadinho: “baixa escolaridade”, “equivocados”, “deploráveis”, “gente sem maneiras”. A mesma condescendência de sempre, agora perfumada com colónia institucional.

O mais cómico — e ao mesmo tempo o mais revelador — é ver os revolucionários de ontem e os activistas de hoje, herdeiros de uma tradição que sempre desprezou a “civilidade burguesa”, fingirem uma súbita paixão pelo decoro. Ontem a rua era “legítima”; hoje o problema é o tom. Ontem era a luta; hoje é a etiqueta. O antifascismo virou manual de boas maneiras para consumo de elites.
Convém dizer o óbvio: não vamos escolher um simpático. Vamos fazer uma escolha política. E o candidato que “não grita” continua a ser socialista. O “bem-educado” continua a representar uma máquina, uma cultura e uma rede — a mesma velha engenharia de poder que vive do regime e para o regime, e que agora convoca a direita domesticada para um abraço temporário e interesseiro.
A frase “é bem-educado” não é elogio político: é senha de reconhecimento. É o carimbo do sistema. É a forma polida de dizer: este é dos nossos, não estraga a festa.

Agulhadas finais
– Quando o argumento morre, o regime refugia-se no decoro: a etiqueta é o último reduto de quem já não tem razão.
– A “boa educação” virou arma política: não para elevar o debate, mas para domesticar o voto.
– Quando todos os bem-educados se juntam numa unanimidade tão civilizada, é porque alguém saiu do guião — e isso mete medo. ```

terça-feira, 27 de janeiro de 2026

Ventura: um teste psicológico, mais do que político

Quando um sistema inteiro entra em pânico por causa de um homem, fingir que ele é secundário é mentira consciente

Há políticos que dividem opiniões. E há políticos que desorganizam sistemas.
André Ventura pertence claramente à segunda categoria. E é precisamente por isso que quase ninguém consegue falar dele com seriedade. A esmagadora maioria dos que dizem “saber quem Ventura é” não sabe coisa nenhuma. Limita-se a projectar nele as suas pulsões — entusiasmo ou repulsa — e a chamar a isso análise política.
Não é. É psicologia barata embrulhada em retórica cívica.

O que se pode fazer com honestidade intelectual não é dissecar a “pessoa”, nem as suas intenções íntimas, nem a sua vida privada. Isso é território de tablóide, café e comentador militante. O que se pode fazer é observar padrões públicos repetidos, ao longo do tempo, sob pressão e sem ela, em debate, em conflito, em vitória e em derrota — e perceber o que esses padrões revelam sobre o fenómeno político.

E o fenómeno é este: Ventura é o único actor político deste ciclo que obriga o sistema inteiro a reagir.
Ele não responde à agenda. Ele impõe-a.
Tudo o resto — candidatos, comentadores, editoriais, manifestos de “salvação da democracia”, apelos à moderação e súbitos acessos de virtude republicana — surge depois, como reflexo condicionado. Ventura é a causa. Os outros são a resposta. Fingir o contrário é uma encenação pobre.

A reacção que provoca diz tudo. Raramente se discute o que ele propõe. Discute-se o que ele “é”. Em vez de argumentos, rótulos. Em vez de discordância, patologização. Em vez de confronto político, alarmismo moral.
Não se diz “está errado”. Diz-se “é perigoso”.
Isto não é debate democrático. É mecanismo defensivo. Serve para proteger um ecossistema confortável, habituado à alternância sem ruptura, à mudança cosmética vendida como progresso e à ausência total de fricção real. Uma classe política e mediática que vive bem dentro da moldura e entra em pânico quando alguém a desloca um centímetro.
O mais revelador é que esta reacção vem sempre travestida de superioridade ética. Mas não há ali ética nenhuma. Há autopreservação. Há medo de perder o controlo do discurso, das regras implícitas, do consenso artificial que permite governar sem pensar demasiado.
Convém sublinhar — antes que os devotos do antifascismo automático entrem em convulsão — que isto não santifica Ventura. Não o torna estadista, nem garante competência governativa, nem absolve excessos, contradições ou oportunismos. Identifica algo muito mais incómodo para o sistema: Ventura funciona como detonador de posicionamento.

Num país treinado para confundir estabilidade com virtude, alguém que introduz conflito real não é tratado como concorrente. É tratado como ameaça existencial. E ameaças existenciais não se enfrentam com ideias. Tentam-se neutralizar, isolar, deslegitimar.
É por isso que esta eleição — especialmente na segunda volta — é sobre Ventura, quer se queira quer não.
A figura que lhe faz frente poderia chamar-se outra coisa qualquer. O seu papel manter-se-ia intacto: oferecer uma saída emocionalmente confortável, uma promessa de anestesia política, um regresso ao ruído branco institucional onde nada muda de facto, mas tudo parece muito responsável.
Ventura faz o contrário. Obriga a escolher tensão em vez de conforto. Conflito em vez de consenso encenado. Verdade incómoda em vez de linguagem higienizada.
Quem vota em Ventura prefere disrupção à anestesia. Quem vota contra Ventura, muitas vezes, não escolhe o outro por convicção — escolhe-o para não ter de pensar no que Ventura obriga a enfrentar.

Por isso não há debate sério. Por isso os media aceitam, sem protesto, a recusa de discutir ideias. Por isso a moral substitui o argumento. 
Esta eleição não mede programas. Mede a capacidade colectiva de suportar fricção.
É um teste psicológico, não político.
E quando um sistema inteiro se organiza em função de um homem, fingir que ele é secundário já não é ingenuidade. É má-fé.

Notas
1. Fenómeno vs. pessoa: este texto analisa padrões públicos e reacções sistémicas; não pretende inferir intenções íntimas nem vida privada.
2. Fricção: uso aqui “fricção” como o choque que obriga actores e instituições a explicitarem posições, interesses e limites — algo raro na alternância cosmética.


conferir e xomentar


 

segunda-feira, 26 de janeiro de 2026

A direita útil do PS e o antifascismo de aluguer

Quando o medo substitui a política e a salvação da democracia passa a significar a exclusão do eleitor

Há um velho reflexo condicionado na política portuguesa que reaparece sempre que o
Partido Socialista se vê ameaçado: uma parte da direita corre em seu auxílio, convencida de que está a salvar o regime quando, na verdade, está apenas a reciclar o poder socialista. Não é novo. Mas raramente foi tão explícito, tão mal justificado e tão politicamente contraproducente como no recente manifesto dos chamados “não-socialistas”.
O pretexto é conhecido: travar, impedir o “populismo”, salvar a democracia. O efeito real é outro: legitimar novamente o PS, reabilitar o seu espaço político e oferecer-lhe uma vitória moral que não conquistou nas urnas nem no debate público. Em nome de um antifascismo abstracto, entrega-se poder concreto a um partido com responsabilidades directas no empobrecimento, na desestruturação social e no bloqueio político do país.
A direita que não acredita em si própria
O manifesto dos “não-socialistas” não é um exercício de lucidez democrática; é um acto de desistência estratégica. Ao apelar ao voto, os seus signatários assumem implicitamente que a direita portuguesa é incapaz de se organizar, de se reformular ou de disputar o poder sem tutela moral do PS.
A contradição é evidente. Muitos dos subscritores conhecem bem o historial político de Seguro, os governos que apoiou e as políticas que viabilizou. Sabem — e disseram-no durante anos — o que o PS fez ao país. Ainda assim, assinam. Não por convicção, mas por medo: medo de perder o controlo do campo político, medo de um eleitorado que já não obedece às antigas mediações, medo de um actor político que não pede licença.
O antifascismo como arma de intimidação
A segunda operação em curso é ainda mais perigosa: a tentativa de transformar uma escolha eleitoral legítima num acto moralmente condenável. Chamar “fascista” a Ventura tornou-se um automatismo retórico e uma estratégia deliberada de desqualificação do eleitor. Já não se combate uma candidatura; combate-se o direito de a escolher.
A história recente devia ter ensinado alguma coisa. Em 1986, a retórica antifascista foi usada contra Freitas do Amaral. Noutras paragens europeias, foi usada contra candidatos que chegaram ao poder sem que a democracia colapsasse. O alarmismo falhou sempre. Mas insiste-se nele, como se a repetição pudesse substituir a realidade.
Linhas vermelhas contra eleitores
A democracia não se protege excluindo eleitores, mas integrando-os no jogo político. As chamadas “linhas vermelhas” não defendem o regime; congelam o sistema. Funcionam enquanto os partidos visados são marginais. Colapsam quando passam a representar uma parte significativa da sociedade.
A experiência europeia é clara: partidos rotulados como “populistas” entraram e saíram de governos sem destruir a democracia. Governaram bem ou mal. Foram julgados. E substituídos. Exactamente como manda o regime democrático.
O verdadeiro risco
O risco para a democracia não está num voto. Está numa elite que se recusa a aceitar que o eleitorado mudou. Está na criminalização simbólica do dissenso e na tentativa de impor uma ortodoxia política pela intimidação moral.
Ao ajudar o PS em nome da salvação do regime, esta direita “responsável” não protege a democracia. Protege um sistema que já não sabe reformar-se e que reage à perda de controlo com moralismo e histeria retórica. No fim, quem agradece é o PS. E, ironicamente, também Ventura.

domingo, 25 de janeiro de 2026

51 anos de memória e de lições ignoradas

...do cerco ao CDS ao cerco ao Chega
Em 25 de Janeiro de 1975, no Palácio de Cristal do Porto, o primeiro Congresso do Centro Democrático Social (hoje CDS – Partido Popular) foi interrompido por um cerco de militantes e simpatizantes da extrema-esquerda. Durante mais de doze horas, manifestantes rodearam o edifício, condicionaram a realização dos trabalhos e, segundo testemunhos da altura, houve feridos e constrangimentos graves antes que as Forças de Segurança pudessem repor a ordem. (arquivos.rtp.pt)
Esse episódio — que passou para a história política portuguesa como um sinal da radicalização e intolerância que marcou o Processo Revolucionário em Curso — constituiu uma ameaça direta à livre organização e expressão de um partido político recém-nascido, numa fase em que a democracia portuguesa ainda se debatia com forças políticas que recusavam regras e pluralismo. (TSF)
Hoje, 51 anos depois, é recorrente ouvir-se — nas palavras de alguns cronistas e comentadores — que se vive um “cerco” semelhante, desta feita dirigido ao PARTIDO CHEGA. Não se fala de barricadas nem de bloqueios físicos, mas de uma pressão política, mediática e institucional que procura limitar o espaço de um partido que desafia a ortodoxia política vigente. Trata-se, como bem argumenta o texto no Blasfémias, de uma resistência dos chamados “partidos estruturais” — PSD, CDS e outros — a uma força que, vindo “de dentro” do sistema, põe em causa pactos informais, equilíbrios de bastidores e redes de influência entranhadas no aparelho estatal e corporativo. (BLASFÉMIAS)
Do confronto aberto ao cerco simbólico
O cerco ao CDS em 1975 foi físico e explícito: manifestantes bloquearam a entrada ao congresso, criaram uma situação de tensão direta e forçaram uma interrupção dos trabalhos. Foi um exemplo claro de intolerância política que, numa sociedade livre, se só por si deveria ter sido decisivamente condenado por todos os defensores da democracia plural. (arquivos.rtp.pt)
Já o “cerco” ao Chega no presente não é feito com corpo, mas com linguagem e práticas políticas e mediáticas. Não é a violência nas ruas, mas a violência do discurso: a construção de uma narrativa que tenta associar o partido e o seu líder a periculosidades latentes à democracia. Esta narrativa, muitas vezes difundida e amplificada por setores dos media e do establishment político, baseia-se explicitamente no medo — medo de mudança, medo de perda de poder, medo de ruptura com práticas consensuais que, apesar de duramente criticadas por muitos, se tornaram parte do “modus operandi” da política tradicional. (BLASFÉMIAS)
O medo como instrumento político
No texto de Blasfémias, a autora desmonta a versão oficial difundida por muitos comentadores: segundo esta narrativa dominante, o Chega seria um “risco para a democracia”. Mas, como argumenta, esta explicação é insuficiente para justificar a hostilidade constante que se observa — não apenas contra ideias, mas contra o próprio espaço político que o Chega ocupa. O que verdadeiramente se teme, sugere-se, não é a perda da democracia, mas a perda de um controlo que partidos como o PSD e o CDS mantêm há décadas nas engrenagens do poder. (BLASFÉMIAS)
Esta leitura não é teoria da conspiração: é, antes, uma análise crua de como funcionam muitas vezes as relações de poder num regime que se orgulha de «democracia» mas que, no concreto, tende a favorecer a perpetuação de elites e de práticas discretas de influência, redes clientelares e acordos tácitos. Um partido que se recusa a entrar nesses jogos e que expõe essas dinâmicas torna-se instintivamente um alvo. (BLASFÉMIAS)
Comparar para compreender — sem equiparar 
Comparar o cerco físico que o CDS sofreu em 1975 com a atual pressão política ao Chega não é equiparar literalmente situações diferentes. O contexto sociopolítico de 1975 — num país ainda marcado pelo PREC, por confrontos ideológicos e por uma transição recente da ditadura para a democracia — não é o mesmo que o de 2026. O cerco ao CDS aconteceu no quadro de uma luta aberta entre forças que, em muitos casos, rejeitavam a própria noção de pluralismo democrático. (Wikipedia)
O “cerco” ao Chega, no entanto, manifesta-se em múltiplas frentes: debates acalorados, tentativas de deslegitimar nas urnas ou nos media, apelos à contenção e à exclusão política e social. É um cerco de natureza simbólica e discursiva, mas não menos relevante — porque molda percepções, influencia decisões e tem impactos reais na vida política do país.
há que aprender com a história para não repetir o silêncio
A memória histórica do que aconteceu no Palácio de Cristal, há 51 anos, não deve ser um simples anedotário de datas e efemérides. Deve servir de alerta: quando uma sociedade tolera a exclusão de vozes políticas em nome de discursos de medo, corre o risco de criar um ambiente em que a própria democracia se torna frágil — não por falta de instituições, mas por falta de pluralismo e coragem para enfrentar ideias divergentes sem recorrer à marginalização e ao reduzido espaço parlamentar.
Hoje, como ontem, é essencial defender que todas as correntes políticas possam apresentar as suas propostas e debater as suas ideias. A história do CDS em 1975 ensina-nos que o cerco, seja físico ou simbólico, é sempre um sinal de fragilidade democrática — e que a resposta deve ser, não mais cerco, mas mais diálogo e mais verdade política.



Entre o espantalho e o espelho: Ventura, o jornalistado e a tentação activista

Há textos que valem menos pelo alinhamento partidário que recusam do que pela lucidez com que desmontam um automatismo mental instalado. O brilhante texto de André Abrantes Amaral inscreve-se nessa categoria rara. Não é um texto de apoio a André Ventura — e é precisamente por isso que merece ser levado a sério. O seu alvo não é o líder do Chega, mas a estratégia discursiva daqueles que dizem combatê-lo e acabam, sistematicamente, por o reforçar.
Essa estratégia é hoje demasiado familiar. Consiste em transformar Ventura no espantalho moral do regime, colando-lhe rótulos máximos — “fascista”, “antidemocrata”, “ameaça existencial à democracia” — numa inflação verbal que dispensa análise e substitui o argumento pelo anátema. O efeito é perverso: quem acusa perde credibilidade, quem é acusado ganha centralidade, e o debate público degrada-se num teatro de exorcismos.
Convém dizê-lo sem rodeios. Chamar fascista a André Ventura não é apenas intelectualmente preguiçoso; é politicamente contraproducente. Pode — e deve — discutir-se o seu populismo, a demagogia das suas promessas, a elasticidade ideológica do seu discurso, a pressão retórica que exerce sobre instituições e comunicação social. Tudo isso pertence ao campo normal da crítica democrática. Mas reduzir o fenómeno Ventura a um regresso do fascismo histórico é um erro de diagnóstico que apenas revela a incapacidade de compreender o país real.
E é aqui que o texto de Amaral toca num ponto essencial, que no ReVisões tem sido reiteradamente sublinhado: Ventura não cresce no vazio. Cresce num país com salários estruturalmente baixos, acesso cada vez mais difícil à saúde, uma crise de habitação que atinge já várias gerações e reformas que prometem pouco mais do que sobrevivência. Cresce depois de três décadas de “consensos responsáveis” que, vistos à distância, produziram imobilismo, captura partidária do Estado e uma democracia cada vez mais formal e cada vez menos substantiva.
O erro da esquerda — acompanhada por uma parte significativa do centro-direita mediático — é duplo. Primeiro, tratar o descontentamento social como um problema moral, não político. Segundo, acusar os eleitores de desvio democrático sempre que recusam alinhar num candidato apresentado como “o único aceitável”. Quando se encosta uma parte do país à parede, não se está a defender a democracia; está-se a corroê-la.

Há um erro estratégico mais fundo: alinhar na lógica de divisão que se diz combater. Dividir o país entre “democratas” e “antidemocratas” não é substancialmente diferente de o dividir entre “bons” e “maus” portugueses. É aceitar o terreno do adversário e jogar com as suas regras. É, no fundo, dar-lhe vantagem à partida
A experiência recente em França deveria servir de aviso. A demonização sistemática da direita populista pelo centro-direita e pelos socialistas não resolveu problema algum. Agravou-os. Consolidou clivagens, cristalizou ressentimentos e deixou o sistema político refém de alianças negativas, feitas mais por medo do que por projecto. A convicção portuguesa de que somos moralmente imunes a esse percurso é uma ilusão recorrente — até ao dia em que se bate na parede. E, como a história ensina, com estrondo.
Há ainda um factor geracional que o jornalistado insiste em ignorar. A democracia portuguesa tem mais de cinquenta anos. Para uma parte significativa do eleitorado, o “fantasma do fascismo” não é memória vivida, mas narrativa herdada — frequentemente instrumentalizada. Usá-la como arma absoluta num combate político quotidiano é esvaziá-la de sentido. Quando tudo é fascismo, nada o é.
Nada disto implica absolver André Ventura de críticas sérias, nem subscrever o seu discurso identitário ou as suas soluções fáceis. Implica apenas recusar a histeria moral como método político e denunciar o activismo disfarçado de jornalismo. Um jornalismo que não explica, não contextualiza e não escuta; que se limita a distribuir certificados de virtude democrática, abdica da sua função essencial. Torna-se actor político, ainda que continue a fingir neutralidade.
Talvez esteja aqui a ironia maior: ao transformar Ventura no eixo moral do regime, o jornalistado e o comentariado não o combatem — legitimam-no. Fazem dele o espelho deformado de um sistema que prefere insultar os seus críticos a reformar-se. E enquanto assim for, continuará a falhar onde mais importa: na compreensão do país que diz representar.
Agulhadas finais
Quem chama fascista a tudo o que incomoda acaba, invariavelmente, a fazer campanha pelo incómodo.
— O activismo mediático não substitui política pública nem resolve descontentamentos reais.
— Um sistema que só se sabe defender por exorcismos morais já desistiu de se reformar.

o cerco ao Palácio de Cristal

 

sábado, 24 de janeiro de 2026

jornalistado e comentariado!

"Chamar a isto jornalismo é um insulto aos verdadeiros jornalistas. Se eu fosse o Dr Ventura daria entrada com um processo contra o activista da RTP. Pode não dar em nada, mas quem não se sente!

( Regina Cunha )

sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

Proibir, sanear e prender: a velha tentação de chamar “democracia” à exclusão

Quando a esquerda confunde pluralismo com limpeza política — e, depois, pede votos à direita com ar ofendido
Há frases que regressam como um cheiro antigo numa casa fechada. Não porque sejam “nostálgicas”, mas porque descrevem um mecanismo que nunca desapareceu: o impulso de baptizar “democracia” aquilo que é, na prática, uma operação de exclusão.
Em 1974, António José Saraiva — professor, ensaísta, historiador da cultura, homem de esquerda heterodoxa e de inteligência rara — citado por Rui Ramos (Observador 23Jan26) tentava explicar um facto elementar a uma esquerda que, de repente, descobrira que “democratizar” podia significar proibir, sanear e prender a direita. A advertência era simples: um regime que assenta na exclusão de uma parte importante do país nunca poderá ser uma democracia. O que se estava a viver não era “a abertura”, mas a tentação de um monopólio moral: quem manda decide o que é “democrático”; quem discorda é “reaccionário”; e, portanto, dispensável.

O problema não é histórico. É estrutural. O vício não morreu com o Verão Quente; apenas mudou de gravata e de vocabulário. Hoje já não se diz “fascista” com a mesma facilidade de 1975 (embora o reflexo persista). Diz-se “inaceitável”, “anti-democrático”, “discurso de ódio”, “ameaça institucional”, “extremismo”. A embalagem é nova; o gesto é o mesmo: reduzir o pluralismo a um corredor estreito onde só passam os que rezam o catecismo certo.
A política como limpeza: o método, não o acidente
Quem viveu 1974–75 (e não o viveu por interpostas memórias de sofá) sabe o que significaram os saneamentos: a pressa moral convertida em procedimento administrativo; a ideia de que a nova legitimidade dispensava garantias; o gosto pela lista, pelo carimbo, pela expulsão, pelo “afastamento preventivo”. Houve normas, houve comissões, houve justificações. E houve, sobretudo, uma convicção intoxicante: “agora somos nós — e isso basta”.
A literatura académica descreve com frieza o que, para muitos, foi vida quotidiana: entre 1974 e 1975, os saneamentos tornaram-se prática intensa, com regras que iam sendo criadas à medida que a realidade se radicalizava. (Redalyc)

E, ao lado do saneamento, a detenção, o medo, a intimidação social, a fronteira móvel do “permitido”. O PREC não foi apenas um “período de transformação”; foi também o laboratório de uma tentação totalitária — com idas e vindas, com facções, com resistências, com minorias responsáveis que impediram o pior. (defesa.gov.pt)
É aqui que Saraiva é útil. Porque Saraiva não fala como folhetinista; fala como alguém que sabe que democracia não é um prémio para os vencedores — é um método para conviver com os vencidos sem os tratar como inimigos a abater.

O 25 de Novembro e a condição mínima da democracia
A democracia liberal portuguesa — com todos os seus defeitos, e são muitos — nasce quando se fecha a porta à ideia de “democracia” como purga. O 25 de Novembro foi, nesse sentido, uma vacina amarga: não contra a esquerda democrática, mas contra a esquerda que queria tornar-se a própria definição de democracia.

Esse capítulo não é um detalhe historiográfico. É a chave para perceber a chantagem moral contemporânea: a de que a direita só é “aceitável” quando se ajoelha, quando pede licença, quando promete não tocar nos dogmas. A direita, para certos sectores, é tolerada como se fosse um parente pobre: pode entrar na sala, desde que não fale alto e não mexa nos móveis.
Os “neo-seguristas” e o truque de segunda volta
E aqui entramos no presente — onde o passado regressa, com filtro e maquilhagem.
Os “neo-seguristas de segunda volta” (usemos o nome sem pejo) descobriram, como por milagre, uma súbita paixão pelo pluralismo. Ontem, a direita era um problema. Hoje, a direita é um reservatório de votos que convém seduzir com apelos à “união”, à “moderação” e à “responsabilidade democrática”.
O que mudou? A doutrina? A visão do país? O respeito pela dissidência?
Não. Mudou a aritmética.

E é por isso que a frase de 1974 morde: porque revela a contradição central do moralismo político. Quem ontem usava “democracia” como arma de exclusão, hoje quer que a direita aceite o papel de figurante no filme da virtude. Querem o voto da direita — mas não querem a direita. Querem a soma — mas não querem a substância.
Há qualquer coisa de obsceno nesta coreografia: durante anos, o espaço mediático e político repetiu que certas posições eram “inadmissíveis”; agora, pede-se a quem foi tratado como intruso que se comporte como convidado grato. É o mesmo gesto antigo: primeiro, desumaniza-se politicamente; depois, exige-se civilidade ao desumanizado.
mínimo que se deve exigir (e o máximo que convém recusar)
democracia não é “o regime em que vence quem eu aprovo”. É o regime em que o adversário pode vencer sem ser expulso do país moral. É o regime em que o voto do outro não precisa de autorização ética para existir.

Se os neo-seguristas perceberam isto, óptimo: é uma conversão tardia, mas sempre é conversão. Só há um problema: conversões de segunda volta têm prazo de validade. Passado o dia da eleição, regressa o velho impulso de “purificar” o debate — e de declarar indigno tudo o que não caiba na moldura.
E é por isso que convém repetir, sem sentimentalismos: quando um campo político acredita que a democracia é a sua propriedade, o resultado não é democracia. É hegemonia com urnas.

Notas de fim
- A esquerda que ontem confundia “democratizar” com “limpar” quer hoje ser salva por quem tentou varrer. Chamem-lhe pluralismo; eu chamo-lhe necessidade.
- Quem só descobre a virtude do adversário quando precisa do seu voto não aprendeu tolerância: aprendeu cálculo.
- Uma democracia onde a direita só é “aceitável” quando está calada não é democracia — é apenas um saneamento adiado.
- António José Saraiva (1917–1993), professor e ensaísta, figura central da história da cultura e literatura portuguesas. (instituto-camoes.pt)
- A formulação “democratizar = proibir, sanear e prender a direita” circula frequentemente atribuída a António José Saraiva; a confusão é alimentada pela proximidade nominal com José António Saraiva (1948–2025), autor de uma crónica política publicada em 1974 (Do Estado Novo à Segunda República). (idl.pt)
- Sobre a intensificação e enquadramentos dos saneamentos no pós-25 de Abril, ver sínteses académicas sobre o tema. (Redalyc)
- Enquadramento geral do PREC e do seu período crítico, incluindo a tensão entre pluralismo e tentação hegemónica. (defesa.gov.pt)

quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

“O confronto não é entre democratas e anti-democratas"

Para o politólogo e escritor Jaime Nogueira Pinto, o que está em jogo nesta segunda volta é uma clara bipolarização entre a direita nacional conservadora e popular e aquilo a que chama “o resto”: a direita consentida, a “direita da esquerda”, o “Centrão”, o centro-esquerda e a esquerda radical, que considera hoje residual, valendo menos de 4%. Na sua leitura, a direita não-socialista está com André Ventura e este poderá ainda atrair eleitores dos candidatos que ficaram pelo caminho na primeira volta.


Jaime Nogueira Pinto considera que António José Seguro é o candidato do “Centrão” preferido por parte da direita, até porque é, nas suas palavras, “um espécimen raro, numa classe política onde um político honesto tende a aparecer, aos olhos do povo, como um bem escasso”. Destaca ainda a composição “curiosa” do eleitorado de Seguro, que inclui “socialistas moderados e centristas, mas também, a contragosto, a esquerda do PS, mobilizada pelo ‘anti-fascismo’ e pelo argumento de ‘salvar a democracia’”, bem como todos os eleitores afetados pelo que designa por SDAV - Síndrome Disfuncional Anti-Ventura -, “fenómeno que, como se viu na noite eleitoral, pode gerar reações descontroladas até nos comentadores mais moderados”.
Em síntese, para o politólogo, "porque António José Seguro pertence a uma esquerda moderada e é pessoalmente respeitável, desta vez será fácil contar com a direita claramente anti-socialista mas mais difícil contar com a direita que não se identifica com a direita nacional conservadora ou que ainda não consegue votar em Ventura".

Jaime Nogueira Pinto rejeita a ideia de que a polarização em curso seja entre socialismo e populismo autoritário, ou entre democráticos e anti-democráticos, como muitos defendem. Recorda que as autocracias “são poderes não democráticos por herança, sem limites e derivados da força ditatorial”, enquanto André Ventura é, segundo afirma, “essencialmente, um fenómeno democrático que vive em democracia, da democracia e do voto popular”. Sublinha ainda o crescimento rapidíssimo do Chega, que em seis anos multiplicou por vinte o seu eleitorado, acrescentando que António José Seguro “também não é tão socialista como isso”.
Na sua perspetiva, estes candidatos “não têm grande necessidade, nem interesse, em radicalizar excessivamente” a campanha. Na opinião do politólogo, André Ventura poderá “aproveitar a sua visão de direita para denunciar o estado de um país governado pela esquerda há meio século, com exceção dos períodos do primeiro cavaquismo e do governo de Passos Coelho”. Já António José Seguro poderá “deixar a radicalização para os anti-fascistas e surgir como uma figura conciliadora”.

Nogueira Pinto sublinha ainda a importância da abstenção, que considera potencialmente decisiva, observando que, “de certo modo, foi essa a recomendação implícita deixada por figuras e forças políticas que ficaram de fora, como Cotrim de Figueiredo, Gouveia e Melo e o PSD”.
Em conclusão, Jaime Nogueira Pinto afirma que o “Centrão” e os seus eleitores estão a ser “forçados a uma definição clara”. E admite um cenário em que ambos os candidatos podem sair a ganhar: 
“André Ventura como líder incontestável da direita e António José Seguro como Presidente da República”.

 

 

 

Que País é este?

 gravada em 18 de Dezembro de 2025

quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

Vai ganhar. Mas ganha com restos, oportunismo e memória curta!

Seguro: é o candidato que ninguém quis — até precisar
Rejeitado pelo PS, vilipendiado pela esquerda e agora abraçado por oportunistas — uma vitória que nos pode sair cara.
.
António José Seguro não regressou por redenção. Regressou por necessidade.
Foi rejeitado por António Costa, desvalorizado por Augusto Santos Silva, empurrado para fora pelo núcleo duro do PS e vilipendiado pela esquerda durante mais de 10 anos. Hoje, os mesmos ressuscitam-no porque precisam dele para travar a queda.
Entretanto, os ratos da direita abandonam à pressa os candidatos que apoiaram para jurar fidelidade a Seguro. Não por convicção — por medo.
Vai ganhar. Mas ganha com restos, oportunismo e memória curta.
E cada manobra destas empurra mais jovens para Ventura. Depois do tabu quebrado, não há regresso.
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[dedicado aos mais novos porque os velhos lhes vão branquear a história!]
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Para onde vais, António José Seguro?
O candidato que ninguém quis... até precisarem!
uma falsificação em curso que convém desmontar sem rodeios: a ideia de que António José Seguro representa uma continuidade natural do Partido Socialista ou uma espécie de reserva moral injustamente esquecida. Não representa. Seguro foi politicamente rejeitado, afastado e neutralizado pelo seu próprio partido, com método, nomes e intenções claras.
Não foi um acidente. Foi uma decisão.
A execução política de Seguro em 2014
Em 2014, quando António Costa desafia a liderança de Seguro, fá-lo com um argumento simples e devastador dentro do aparelho socialista: Seguro não ganhava eleições. Não tinha “pulso”, não tinha agressividade, não tinha capacidade de impor hegemonia à esquerda. Costa não disputou apenas uma liderança — disputou a legitimidade de Seguro como líder político.
O golpe foi total. Seguro não foi tratado como adversário interno respeitável, mas como um erro a corrigir. O partido alinhou rapidamente. O aparelho fechou-se. E o veredicto foi aplicado sem piedade: Seguro tornou-se politicamente dispensável.
os abraços de hoje
Entre os que contribuíram activamente para esse isolamento está Augusto Santos Silva, ideólogo maior do costa-centrismo. Nunca escondeu o seu desprezo político por Seguro, considerado insuficiente, mole, incapaz de impor respeito à direita e à esquerda. Santos Silva é hoje um dos rostos que surgem a legitimar Seguro — com a mesma convicção com que ontem o descartou.
Pedro Nuno Santos, então estrela em ascensão, representava já a ala que via Seguro como um obstáculo ao “novo PS”: mais ideológico, mais conflituante, mais disponível para entendimentos estruturais com a extrema-esquerda. Para esse sector, Seguro era um resíduo de um PS demasiado institucional.
No mesmo campo alinharam Mariana Vieira da Silva e Alexandra Leitão, figuras centrais do consulado Costa, que nunca esconderam preferência por um PS mais musculado, menos preso a equilíbrios e mais confortável com o radicalismo retórico. Seguro não encaixava. Foi politicamente asfixiado.
O resultado fala por si: António José Seguro afastou-se do Partido Socialista durante mais de dez anos. Não por escolha estratégica, não por pausa reflexiva, mas porque não lhe deixaram espaço político. Foi empurrado para fora com luvas de veludo e eficácia cirúrgica.
                                                                           O vilipendia-lo sistemático da esquerda
Durante essa década, a esquerda e a extrema-esquerda não se limitaram a ignorar Seguro. Vilipendiaram-no.
  • Para o Bloco, era um social-liberal frouxo.
  • Para o PCP, irrelevante.
  • Para o Livre, um passado ultrapassado.
Seguro foi apresentado como o exemplo do PS que não serve. Hoje, ironicamente, é o instrumento que permite à esquerda e à extrema-esquerda recuperar fôlego eleitoral, depois de uma sequência de perdas e irrelevâncias. O PS ganha oxigénio. O Bloco evita o colapso. O PCP adia a extinção simbólica. Tudo isto graças a um homem que foi desprezado por esse mesmo campo político.
Não há aqui reconciliação ideológica. Há utilização táctica.
Os ratos do centro-direita
Ao mesmo tempo, assiste-se a um espectáculo particularmente indecoroso: personalidades do centro-direita que até à véspera apoiavam Luís Marques Mendes ou João Cotrim de Figueiredo surgem agora a jurar fidelidade republicana a António José Seguro.
Não mudaram ideias. Mudaram de medo.
  • Medo do isolamento mediático.
  • Medo de não pertencer ao “lado certo”.
  • Medo de assumir escolhas fora do consenso imposto.
São ratos políticos, que abandonam o navio ao primeiro cálculo desfavorável. Mas o eleitor perceberá isso com uma clareza que os comentadores insistem em subestimar.
O efeito colateral: Ventura
Enquanto o sistema se fecha sobre si próprio, uma parte significativa do eleitorado jovem observa e conclui o óbvio: não há alternativa dentro do perímetro permitido. É nesse vazio que André Ventura cresce.
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Para uma geração que nunca viveu um PS moderado, que só conhece Sócrates e Costa, a narrativa do “regresso ao centro-esquerda responsável” soa a ficção tardia. O impulso dado a Seguro pode garantir a vitória imediata. Mas normaliza eleitoralmente o Chega no médio prazo. E depois do tabu quebrado, o voto repete-se com facilidade.

,,,mas Seguro vai ganhar!
Mas ganhará com os restos do sistema, com os que o rejeitaram ontem e com os que fogem hoje. E isso tem custos políticos que não desaparecem com discursos sobre estabilidade ou fantasmas do passado.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

a ver vamos...


Vai já ou fica à espera do resultado da 2ª Volta?

e do Observador não vai ninguém?

previsões no Correio da Manha...a um ano de distancia!

vamos lá ver se este acertou ou se apenas mandou um "bitaite" prós tótós...
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"Tudo indica que a realidade vai acelerar na corrida às presidenciais. É curioso como, quando ainda falta quase um ano para irmos a votos, as eleições para Belém despertam já tanto interesse, tantas movimentações e tantos cálculos políticos. Sinal da importância do cargo. Os portugueses gostam verdadeiramente do Presidente da República que é eleito, independentemente da margem da vitória. Cada Presidente acaba, de uma maneira ou de outra, por ser o Presidente de todos nós, e isso é sintoma do profundo laço emocional que nos une ao chefe do Estado. Por outro lado, o anterior Presidente não se pode recandidatar, e a escolha do senhor que se segue deverá ter implicações para uma década. Será, portanto, uma longa campanha, e o lote de candidatos começa a definir-se. André Ventura promete oficializar em fevereiro. Se houver más sondagens, terá dificuldade em desistir. Marques Mendes é o candidato para manter a Presidência ligada ao PSD. E à direita é tudo, com a eventual junção de um nome liberal para marcar o ponto, tal como, aliás, à esquerda, farão o PCP e o Bloco. Mais a sério, António José Seguro ou Mário Centeno, ou os dois, tentarão o pleno dos votos do PS para conseguirem chegar à segunda volta. Ao lado, ou acima dos partidos, vai correr Gouveia e Melo. Sendo Ventura divisivo, sobram os outros quatro nomes. Um deles deverá ser o próximo chefe do Estado."

palpites!

 


comentariado e jornalistado!

acham que esta sondadeira e este comentador têm condições para continuar a comentar?

pitonisas!


 

lá no paraíso deles, Álvaro Barreirinhas Cunhal, voltará a aconselhar:

"Camaradas, quando forem votar, apontem a caneta e, depois, tapem os olhos."



premonições!

 Manuel Castelo-Branco

Se tudo correr como demonstra a tendência, a 2° volta das Presidenciais será entre Marques Mendes e Seguro. A cereja em cima do bolo seria Cotrim e Ventura a ultrapassar o Almirante. Não é impossível e em certa medida é até desejável.
Neste cenário, qq que fosse a votação de Ventura, mesmo o 3° lugar com menos % que nas legislativas representa uma derrota para o lider do Chega. Em qq caso, a votação de Cotrim demonstra que o candidato tem potencial, apesar de não ser confiável, ja que de dois em dois anos, procura um novo cargo.
No campeonato dos mixurucos da extrema esquerda, tanto me faz, mas o facto de Catarina Martins estar à frente, demonstra o grande erro de Anacleto Louçã ao a ter substituido pela gémea Mortágua.
Vamos acompanhando.
17 Novembro 2025

previsão premonitória para as Eleições Presidenciais 2026

em 05Jan2025 a minha
Previsão dos Resultados das Presidenciais Portugal 25 Jan 2026 – 1 Mar 2026

1ª volta "Ka Malo"              27,84 %

              André Ventura        23,15%

              "An uk as             21,95 %

              "Ó der ico"               7, 07 %

 2ª volta "Ka Malo            58,55 %

              André Ventura        41,45%


domingo, 18 de janeiro de 2026

Jornalismo, activismo e a tentação de substituir o leitor

O artigo de Miguel Morgado que serve de base a esta reflexão acerta num ponto essencial que muitos fingem não ver: a crise do jornalismo contemporâneo não é, antes de mais, tecnológica, nem resulta de um qualquer “algoritmo maligno”. É uma crise moral, epistemológica e, sobretudo, uma crise de missão. O problema não é o excesso de redes sociais; é a demissão de uma parte significativa do jornalismo da função que justificou, historicamente, a sua autoridade.
Durante décadas — séculos, mesmo — a imprensa foi uma das colunas mestras do regime das liberdades. Não porque “defendesse a democracia”, mas porque informava. Não porque educasse moralmente o cidadão, mas porque lhe fornecia matéria-prima factual suficiente para que pudesse formar o seu próprio juízo. O texto recorda bem que a imprensa não sobreviveu à erosão das restantes sedes de autoridade por acaso: sobreviveu porque se impôs como autoridade factual, e não como consciência política substituta.
É aqui que se dá a ruptura contemporânea. Quando o jornalista deixa de se ver como mediador da realidade e passa a encarar-se como “guardião da democracia”, o seu trabalho deixa de ser regido por critérios de verdade factual e passa a ser orientado por juízos normativos. O resultado é inevitável: selecção de temas, enquadramentos enviesados, silêncios estratégicos, amplificações artificiais. Tudo isto não em nome da verdade, mas em nome de uma causa — ainda que apresentada como nobre.
O artigo desmonta com clareza essa confusão fatal. Defender a democracia é um objectivo político legítimo, mas não é um critério jornalístico universal. O que um jornalista considera “defesa da democracia” será sempre discutível, contingente e ideologicamente marcado. Ao assumir esse papel, o jornalista abdica da única coisa que o distingue do activista: a suspensão do juízo político em favor da exposição rigorosa dos factos.

A consequência não é apenas teórica; é prática e visível. A perda acelerada de credibilidade dos media tradicionais não resulta de campanhas externas, nem de populismos digitais, mas da percepção crescente de que a informação deixou de ser apresentada como realidade a conhecer e passou a ser apresentada como realidade a interpretar “correctamente”. Quando isso acontece, o leitor deixa de confiar, não porque discorda das conclusões, mas porque percebe que alguém decidiu pensar por ele.
O exemplo de instituições outrora reputadas, como a BBC, ilustra bem este fenómeno. Ao assumirem explicitamente a missão de “defender a democracia”, acabaram por comprometer a sua própria autoridade factual. Não por conspirarem, mas por confundirem funções: trocaram a exigência da verdade pela pedagogia política.
Miguel Morgado lembra algo fundamental e hoje quase subversivo: a guarda da democracia
não pertence ao jornalista, mas ao cidadão. A imprensa serve a democracia quando informa; trai-a quando tutela. Nenhuma sociedade livre precisa de jornalistas-pastores a conduzir consciências; precisa de jornalistas rigorosos que aceitem a modéstia da sua função.
Num tempo exigente, em que a tentação de “fazer o bem” pela via da manipulação informativa parece irresistível, este texto cumpre uma função saudável e rara: recentra o debate onde ele sempre deveria ter estado. Não na moral do jornalista, mas na sua missão. Não na causa que defende, mas na verdade que relata.
A democracia não se protege infantilizando o público. Protege-se tratando-o como adulto. E isso começa, inevitavelmente, por um jornalismo que volte a saber o que é - e, sobretudo, o que não é.