domingo, 12 de abril de 2015

os “tempos normais” da política

Valha a verdade, a recusa de Guterres tal como a decisão que tomou há precisamente 13 anos, em Abril de 2002, de abandonar o Governo para o qual fora eleito, remetem para algo muito mais profundo e dramático.
Remetem para aquilo que Paulo Portas afirmou esta semana ao pedir uma oportunidade para o seu partido governar em “tempo de normalidade”.
Guterres já sabe (talvez o saiba precisamente desde esse quase agónico Abril de 2002) que Portas já não pode ter aquilo que ainda pede: um tempo de normalidade. 
Nos “tempos normais” da política, esses tempos por que anseiam os líderes portugueses do BE ao CDS, o que distingue os políticos uns dos outros não é o que pensam sobre o país ou o mundo, muito menos o modelo de sociedade que defendem.
Não é por acaso que à esquerda ninguém fala de comunismo ou de socialismo mas sim de esquerda, de esquerdas, de esquerdas da esquerda… e que à direita a definição é em geral feita pela negativa: não se é liberal, não se defende o socialismo, não se faz apologia do capitalismo… 
Em boa verdade aquilo a que nos últimos anos temos ouvido chamar contestação mais não é do que o sussurro de um pedido, um pedido de regresso aos “tempos normais”.
São os bastonários apocalípticos, os bispos possessos, os revisores oficias de contas diletantes, os militares que mandam os civis fazer golpes, a performance dos sindicalistas vitalícios do “faz de conta que eu sou trabalhador”, os reformados indignados com as suas reformas de 3 mil euros, os pensionistas das pensões de miséria mas que para sua e nossa desgraça nunca descontaram miséria alguma, é a produção legislativa do nosso Tribunal Constitucional onde não se distingue o constitucionalismo da fé no abracadabra que nos trará o passado de volta… todos eles querendo apenas que os “tempos normais” regressem.

Os “tempos normais” acabaram quando acabou o dinheiro. (adaptação e resumo do Porque não volta Guterres? artigo de Helena Matos no Observador )

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