No final de Maio de 1974, 400 militantes e dirigentes do MRPP foram presos pelo Copcon de Otelo Saraiva de Carvalho, por ordem do Conselho da Revolução. 400 detenções sem qualquer tipo de acusação ou mandado de captura validado por um juiz. Pela primeira vez, após o 25 de Abril, eram detidos de forma massiva os principais elementos de um partido de extrema-esquerda, que tinha tomado o PCP como o seu maior inimigo. O MRPP – Movimento Reorganizativo do Partido do Proletariado, mais tarde apelidado PCTP/MRPP – Partido Comunista dos Trabalhadores Portugueses. Foi um partido criado na clandestinidade, ainda em 1973, recrutando os seus militantes nas revoltas estudantis universitárias dos anos 70.
O MRPP era talvez um dos maiores inimigos do PCP, que apelidava de social fascista e revisionista e que acusava de se afastar dos verdadeiros ideais da revolução proletária. Na verdade, o MRPP, que em 1975 se considerava ideologicamente mais puro, era Maoista e não Leninista como o PCP. Ao contrário deste último, que ainda ambicionava e lutava para ser poder, o MRPP desde cedo assumiu ser um partido contestatário, revolucionário sem qualquer respeito pelas instituições ou vocação de poder. Entre os seus membros e dirigentes foram várias as personagens que vieram ter um papel relevante na vida política Portuguesa: Durão Barroso, Saldanha Sanches, Maria José Morgado, Ana Gomes, Fernando Rosas, para além dos inefáveis Garcia Pereira e do grande educador da classe operária, Arnaldo de Matos. Romeu Francês e João Araujo, advogados das FP25 também pertenceram ao MRPP.
A década de 1960 assistiu na Europa e também em Portugal a uma onda de radicalização, particularmente entre os jovens, que se sentiram atraídos por causas de extrema-esquerda e a desafiaram as estruturas tradicionais de autoridade. O Marxismo-Leninismo era visto como uma realidade demasiado centralizada e burocrática, sendo que a atração pelo Maoísmo estava também na Revolução Cultural, na rejeição das hierarquias tradicionais, e que promovendo a agitação social desmantelar as estruturas de poder estabelecidas. Tudo isto alimentado pela guerra do Vietnam e o consequente sentimento anti-imperialista
Em Portugal, os Maoistas do MRPP eram fundamentalmente estudantes, filhos da altaburguesia lisboeta que em grise de negação dos valores tradicionais radicalizaram no fim do marcelismo, Embalados no fulgor próprio de uma juventude bastante politizada, romântica e idealista, a maioria dos seus protagonistas de 74 e 75, aderiram ao Maoismo, mas rapidamente se afastariam do radicalismo inconsequente, do fundamentalismo ideológico e de forma mais ou menos generalizada adoptaram uma atitude mais pragmática - aos poucos aderiram a causas e movimentos mais democráticos, como o PS e o PSD. O MRPP era fundamentalmente um fenómeno lisboeta, estudantil e apesar do discurso, nada tinha de proletário. Caracterizava-se por uma estética única, que traduziam uma ideologia visual de transformação social e revolucionária, materializada em actos colectivos de classes de trabalhadores e do chamado campesinato. É de lamentar que alguns dos seus murais, tão ricos em história, se tenham perdido.
O MRPP não era uma estrutura particularmente organizada, mas ainda assim apresentava-se como bastante beligerante nas ruas da capital, nos idos anos de 74 e 75. Saiam em grupos de 10, 20, 30 militantes e foram responsáveis por muitos dos motins confrontos de rua, à direita ou à esquerda, tanto fazia. Na verdade o seu inimigo era também o PCP, e por isso tornou-se uma força de oposição na dialética, mas também das poucas que se lhe opôs fisicamente na rua. Talvez por isso, tenha tecido uma aliança tacita e subtil com o PS, cujas sedes chegou a defender de ataques do PCP ou de militantes de outros partidos da extrema-esquerda.
Logo a 3 de Maio de 1974, um grupo de militantes do MRPP invade o aeroporto de Figo Maduro para boicotar o primeiro embarque de tropas para a Angola, previsto a seguir ao 25 de Abril. Alguns deles não chegam a embarcar. Saldanha Sanches, director do “Luta Popular” órgão oficial do partido repete por várias vezes o apelo à deserção - “Nem mais um embarque” e é o primeiro preso político pós 25 de Abril, detenção que somará a tantas outras que já tinha no seu cadastro (ou curriculum).
A 4 de novembro de 1974, o cerco ao primeiro comício da Juventude Centrista. Apesar de ter sido pedida protecção ao Copcon este não conteve a turba de gente que gritava “Morte ao Fascismo’ e ‘O Povo Vencerá’ . No total, mais de 26 militantes feridos entre os quais o próprio Saldanha Sanches que também seria detido no dia seguinte. Seguidamente, os manifestantes seguiram para o Largo do Caldas onde invadiram e destruíram a sede nacional do CDS. Ouvi António Lobo Xavier a relatar que teve de fugir pelas traseiras de prédios vizinhos que tendo encontrado refúgio em casa de desconhecidos que viviam nos prédios confinantes. José Ribeiro e Castro fez um relato semelhante no que diz respeito ao cerco do D. Luiz.
A 17 de Março de 1975, o MRPP é proibido de concorrer às eleições para a Constituinte, a realizar a 25 de Abril do mesmo ano. Tal como o MRPP, são também proibidos de concorrer o Partido da Democracia Cristã e a Aliança Operária Camponesa. Já antes tinha sido proibido o Partido do Progresso.
A 18 de Março de 1975, o MRPP de Arnaldo Matos defendia “o desmantelamento imediato da GNR, da PSP, do CDS e do PDC” e o “julgamento popular e execução publica de todos os fascistas, PIDES e os implicados no golpe de 11 de Março.
De 15 a 17 de Maio de 1975, o MRPP manteve José Jaime Coelho da Silva, acusado de pertencer ao MDLP, em cárcere privado, numa casa do Restelo e noutra em Sintra. Torturaram-no a ele e também a sua mulher, Natércia Coelho da Silva. Curiosamente estes tinham sido presos por militares do RAL1 e entregues ao MRPP. Nunca ninguém foi julgado por este hediondo crime.
O mesmo quartel, RAL1, onde foi torturado Marcelino da Mata – o militar Português mais condecorado de sempre, que ao ouvir a notícia da sua detenção, em meados de Maio de 75, apresenta-se no quartel. É torturado por dois oficiais do RAL1 e dois militantes do MRPP, um chamado Jorge e outro Ribeiro. Enchem no de pancada e deixam-no com duas costelas partidas. “Então o capitão Quinhones ordenou ao tal militante do MRPP, Jorge que pegasse num fio eléctrico e me torturasse, tendo-me este dado choques nos ouvidos, sexo e no nariz. Pela terceira vez que me fizeram isto desmaiei, pois não aguentei”. Tudo isto se passava num quartel do exército com o conhecimento do comandante – Dinis de Almeida - que mais tarde, o leva para Caxias, dentro de uma chaimite, onde permanecerá mais alguns dias sem qualquer tratamento.
A 27 de Maio de 1975, o Copcon de Otelo Saraiva de Carvalho desencadeia uma vasta operação tendo em vista a prisão de cerca de 400 membros do MRPP. A decisão tinha origem no Conselho da Revolução. Segundo José Lamego, ex militante e ex Secretário de Estado Socialista, o Copcon terá usado o arquivo da PIDE, uma vez que muitos militantes presos, teriam pertencido ao partido antes do 25 A, mas, entretanto, já teriam rumado a outras paragens desencantados com o fundamentalismo ideológico. A partir desse momento, as paredes de Lisboa enchiam-se de pichagens e murais: “Libertação imediata do camarada Arnaldo Matos”.
A 18 de julho de 1975, Arnaldo Matos discursa num comício do MRPP, apesar de se ter evadido da cadeia, apenas uma semana antes, aproveitando uma visita ao hospital militar da Estrela. Os restantes militantes presos viriam a ser libertados uma ou duas semanas mais tarde.
A 9 de Outubro de 1975, já depois da prisão e libertação da maioria dos seus membros, nas semanas antes do 25 de Novembro, em que a contestação estava ao rubro o MRPP destaca uma equipa, da qual faz parte Alexandrino Sousa, para ir colar cartazes para o Terreiro do Paço. Cruzam-se com uma outra, da UDP, partido fundados do Bloco de Esquerda. Segundo os jornais, os UDP´s eram cerca de 60, munidos de trancas de ferro e paus. Envolvem-se num confronto físico e atiram o Alexandrino Sousa ao Rio Tejo, apesar deste alertar para o facto de não saber nadar. Alexandrino morre afogado e nenhum dos militantes da UDP foi sequer acusado.
Em 1976, pasme-se o MRPP apoiou a candidatura presidencial do General Ramalho Eanes, façanha que repetiu com despudor em 1980.
O camarada Arnaldo de Matos o líder mais carismático do MRPP, apelidado como o grande educador da classe operária era uma personagem curiosa. Entre as suas frases míticas como “isto é tudo um putedo“, ou “morte aos traidores”. Tratava o partido como o seu feudo pessoal e de lá saiam secretárias, motoristas e outras mordomias permitidas pela subvenção estatal superior a 200 mil euros anuais. Apesar de afastado do MRPP desde 1982 até 2015 e de não fazer parte de nenhum órgão do partido, destitui Garcia Pereira o advogado de direito de trabalho, que é apelidado no jornal do partido “Luta Popular” de parasita do capitalismo de “canalha” e de “chulo”, na sequência dos maus resultados nas legislativas. Apesar da autocritica, típica dos partidos maoistas, que mais não foi que uma humilhação publica, não tinha perdão. Terminava ali o seu reinado à frente do partido. Arnaldo de Matos, não deixava de ter alguma razão, no que se refere à sua relação com os benefícios do capitalismo. Garcia Pereira, através do seu escritório de advocacia, era uma máquina de facturação e vivia como um verdadeiro burguês e a sua lancha de recreio, que usava para ir à pesca, não era a maior nem sequer luxuosa, mas representava um desvio burguês, dos mais comentados na marina.
A história do MRPP é rica e a sua estética e linguagem, muito diferentes de tudo o resto na mesma área política. Era um partido cheio de contradições caracterizado pelo fundamentalismo ideológico, a sobranceria moral e intelectual típica desta área ideológica. O papel na revolução e no PREC foi absolutamente marginal apesar de imensamente ruidoso e fez parte do folclore do PREC, Saldanha Sanches e Maria José Morgado foram dos primeiros a fazer greve de fome, pós 25 de Abril e como ainda hoje vemos, nem sempre os seus ex militantes abandonaram aquele estilo trauliteiro e ruidoso e muito inconsequente. No entanto, hoje, o MRPP é uma agremiação mixuruca, sem qualquer relevância e na história será pouco mais que um pequeno paragrafo. Já não se distingue, nem pela dialética, estética ou sequer pela prática nas ruas.


