Quando um sistema inteiro se organiza em função de
um homem, fingir que ele é secundário é negar o óbvio
Há fenómenos políticos que não se deixam compreender por simpatia ou repulsa. Exigem distância, método e alguma honestidade intelectual. André Ventura é um desses casos.
A esmagadora maioria das pessoas que afirma ter uma opinião formada sobre Ventura encontra-se exactamente na mesma posição: fala como se soubesse, mas não sabe. Constrói certezas a partir de reacções emocionais — adesão ou aversão — e não de observação sustentada. Confunde impressão com conhecimento, juízo moral com análise política.
O que é possível fazer com seriedade não é “conhecer a pessoa”. Isso pertence ao domínio da especulação, da psicologia de café ou da maledicência mediática. O que é possível — e necessário — é observar padrões públicos repetidos ao longo do tempo: sob pressão e fora dela, em debate e em crise, na vitória e na derrota. A partir desses padrões, inferir a estrutura do actor político, o seu estilo, os seus incentivos e o tipo de reacções que desencadeia.
Isto não é conhecer o homem.
É analisar o fenómeno.
E aquilo que sabemos com alguma segurança não diz respeito à sua vida privada, às suas intenções íntimas ou à sua moral pessoal. O que sabemos é outra coisa, bem mais relevante:
Ventura é o único actor político deste ciclo que obriga o sistema inteiro a reagir.
Ele é a causa.
Os outros são a resposta.
Este ponto é frequentemente obscurecido por uma neblina de adjectivos. Mas é simples observação empírica. Ventura alterou o campo. E quando alguém altera o campo político, não é apenas “mais um candidato”. Disrupção não é sinónimo de resposta correcta, nem garantia de bom governo. Mas é condição prévia para que algo deixe de ser meramente cosmético.
A prova está no tipo de reacção que ele gera. Os seus críticos raramente recorrem ao debate de ideias. Agarram-se à moralização, à rotulagem, à patologização. Em vez de um “discordo”, surge um “ele é”. Em vez de uma crítica argumentada, aparece o rótulo de “perigoso”.
Isto não é discussão política.
É um mecanismo defensivo.
Serve para evitar o confronto com aquilo que perturba, substituindo-o por julgamento moral. O que fica exposto não é superioridade ética, mas os incentivos psicológicos de autopreservação de uma classe instalada: confortável, habituada ao consenso morno, à linguagem vaga e à ausência de fricção. Gente que vive bem dentro do quadro e reage mal quando alguém lhe mexe na moldura.
Convém dizê-lo com clareza: esta leitura não santifica Ventura. Não o transforma num herói moral, nem prova que governaria melhor, nem desculpa excessos retóricos ou contradições programáticas. Identifica outra coisa — e é isso que verdadeiramente importa.
Ventura funciona como um detonador de posicionamento.
Num país habituado à alternância política sem ruptura e à mudança cosmética apresentada como virtude democrática, alguém que introduz fricção real não é tratado como um político normal. É tratado como uma ameaça existencial. E ameaças existenciais não se discutem. Tentam-se neutralizar.
É por isso que esta segunda volta é, na prática, sobre Ventura.
A figura que lhe faz frente poderia ter outro nome, outra biografia, outro passado partidário. Pouco importa. A sua função permaneceria a mesma: oferecer uma saída emocionalmente confortável, uma promessa de estabilidade, um regresso à política sem incómodo, sem tensão, sem perguntas difíceis.
Ventura faz o oposto. Obriga a escolher não apenas um candidato, mas um tipo de tensão, um tipo de conflito, um tipo de verdade.
Quem vota a favor de Ventura tende a preferir disrupção a anestesia.
Quem vota contra Ventura, em grande medida, não escolhe o outro por convicção profunda, mas contra a inquietação que Ventura provoca — e contra a necessidade de rever algo essencial.
No fundo, esta eleição não mede programas. Isso é visível na recusa sistemática em debater ideias e no à-vontade com que media e personagens públicas auto-proclamadas “democráticas” não denunciam essa recusa como aquilo que é: um bloqueio deliberado ao debate essencial numa democracia de facto.
Esta eleição mede outra coisa.
Mede a capacidade colectiva de suportar fricção.
É um teste psicológico, mais do que político.
E quando um sistema inteiro se organiza em função de um homem, fingir que ele é secundário não é prudência.
É negação do óbvio.
E quando um sistema inteiro se organiza em função de um homem, fingir que ele é secundário não é prudência.
É negação do óbvio.













.jpg)





