terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

De ao """Ventura: um teste psicológico, mais do que político"""

Quando  um sistema  inteiro se organiza em função de 
um homem, fingir que ele é secundário é negar o óbvio

Há fenómenos políticos que não se deixam compreender por simpatia ou repulsa. Exigem distância, método e alguma honestidade intelectual. André Ventura é um desses casos.
A esmagadora maioria das pessoas que afirma ter uma opinião formada sobre Ventura encontra-se exactamente na mesma posição: fala como se soubesse, mas não sabe. Constrói certezas a partir de reacções emocionais — adesão ou aversão — e não de observação sustentada. Confunde impressão com conhecimento, juízo moral com análise política.
O que é possível fazer com seriedade não é “conhecer a pessoa”. Isso pertence ao domínio da especulação, da psicologia de café ou da maledicência mediática. O que é possível — e necessário — é observar padrões públicos repetidos ao longo do tempo: sob pressão e fora dela, em debate e em crise, na vitória e na derrota. A partir desses padrões, inferir a estrutura do actor político, o seu estilo, os seus incentivos e o tipo de reacções que desencadeia.
Isto não é conhecer o homem.
É analisar o fenómeno.
E aquilo que sabemos com alguma segurança não diz respeito à sua vida privada, às suas intenções íntimas ou à sua moral pessoal. O que sabemos é outra coisa, bem mais relevante:

Ventura é o único actor político deste ciclo que obriga o sistema inteiro a reagir.
Ele é a causa.
Os outros são a resposta.

Este ponto é frequentemente obscurecido por uma neblina de adjectivos. Mas é simples observação empírica. Ventura alterou o campo. E quando alguém altera o campo político, não é apenas “mais um candidato”. Disrupção não é sinónimo de resposta correcta, nem garantia de bom governo. Mas é condição prévia para que algo deixe de ser meramente cosmético.
A prova está no tipo de reacção que ele gera. Os seus críticos raramente recorrem ao debate de ideias. Agarram-se à moralização, à rotulagem, à patologização. Em vez de um “discordo”, surge um “ele é”. Em vez de uma crítica argumentada, aparece o rótulo de “perigoso”.

Isto não é discussão política.
É um mecanismo defensivo.

Serve para evitar o confronto com aquilo que perturba, substituindo-o por julgamento moral. O que fica exposto não é superioridade ética, mas os incentivos psicológicos de autopreservação de uma classe instalada: confortável, habituada ao consenso morno, à linguagem vaga e à ausência de fricção. Gente que vive bem dentro do quadro e reage mal quando alguém lhe mexe na moldura.
Convém dizê-lo com clareza: esta leitura não santifica Ventura. Não o transforma num herói moral, nem prova que governaria melhor, nem desculpa excessos retóricos ou contradições programáticas. Identifica outra coisa — e é isso que verdadeiramente importa.

Ventura funciona como um detonador de posicionamento.
Num país habituado à alternância política sem ruptura e à mudança cosmética apresentada como virtude democrática, alguém que introduz fricção real não é tratado como um político normal. É tratado como uma ameaça existencial. E ameaças existenciais não se discutem. Tentam-se neutralizar.

É por isso que esta segunda volta é, na prática, sobre Ventura.
A figura que lhe faz frente poderia ter outro nome, outra biografia, outro passado partidário. Pouco importa. A sua função permaneceria a mesma: oferecer uma saída emocionalmente confortável, uma promessa de estabilidade, um regresso à política sem incómodo, sem tensão, sem perguntas difíceis.

Ventura faz o oposto. Obriga a escolher não apenas um candidato, mas um tipo de tensão, um tipo de conflito, um tipo de verdade.
Quem vota a favor de Ventura tende a preferir disrupção a anestesia.

Quem vota contra Ventura, em grande medida, não escolhe o outro por convicção profunda, mas contra a inquietação que Ventura provoca — e contra a necessidade de rever algo essencial.
No fundo, esta eleição não mede programas. Isso é visível na recusa sistemática em debater ideias e no à-vontade com que media e personagens públicas auto-proclamadas “democráticas” não denunciam essa recusa como aquilo que é: um bloqueio deliberado ao debate essencial numa democracia de facto.

Esta eleição mede outra coisa.
Mede a capacidade colectiva de suportar fricção.
É um teste psicológico, mais do que político.
E quando um sistema inteiro se organiza em função de um homem, fingir que ele é secundário não é prudência.
É negação do óbvio.

sábado, 7 de fevereiro de 2026

De Belém como árbitro a Belém como porteiro...

Quem quer travar a democracia quando o voto não convém?
( o veto preventivo apresentado como “virtude republicana” )

Há perguntas que, quando feitas, revelam mais sobre quem responde do que sobre o tema em discussão. “Quem quer travar o PSD, o CHEGA e a IL no Governo?” é uma delas.
As respostas surgem com uma franqueza perturbadora — e com um à-vontade constitucional ainda mais inquietante. Pela primeira vez, figuras centrais do sistema admitem, sem pudor, que pretendem impedir soluções governativas antes mesmo de estas existirem, apenas porque não gostam dos protagonistas.
Comecemos por António José Seguro. Ex-líder do PS, hoje candidato presidencial, Seguro não se limita a manifestar preferências políticas. Vai mais longe: anuncia que usará os poderes de Belém para bloquear, preventivamente, qualquer maioria de direita que inclua PSD, CHEGA ou Iniciativa Liberal. Não é reacção a uma crise institucional concreta. É um programa: declarado, reiterado, exibido como prova de “responsabilidade”.
Ou seja: antes de haver Governo, já há veto. Antes de haver actos, já há punição. Antes do voto produzir efeitos, já há interdição. Isto não é moderação: é tutela política preventiva. É a democracia com rodinhas — para não fugir para onde o comentariado não quer.
O segundo caso, José Luís Carneiro, afina a mesma música noutro tom. Declarou que “não será por mim que o Chega chega ao poder” e admitiu viabilizar um Governo minoritário do PSD não por convicção, mas por contenção. Não para governar melhor — mas para impedir que outros governem. O PS a funcionar como tampão: não perde, “administra” a derrota.

O padrão é evidente. Quando o voto produz maiorias aceitáveis, chama-se “estabilidade democrática”. Quando produz maiorias incómodas, chama-se “perigo”, “ameaça” ou “excepção”. E assim se instala uma doutrina não escrita, mas já praticada: há votos legítimos e votos a neutralizar.
Convém dizê-lo sem eufemismos: um Presidente da República não é um comissário político do regime, nem um guarda de fronteira ideológica. A Constituição não lhe dá mandato para corrigir o eleitorado quando este vota “mal”. A ideia de Belém como última barreira contra certas escolhas democráticas é tudo menos democrática: é um reflexo saneador, agora embrulhado em linguagem institucional e boas maneiras.
Hoje trava-se o CHEGA. Amanhã será outro. O critério não é a legalidade — é a conveniência. E quando a conveniência passa a mandar no voto, o regime deixa de ser democracia e passa a ser um clube: entra quem o porteiro deixar.

Agulhadas finais 
1. Quando se promete bloquear Governos antes das eleições, já não se respeita a democracia — terceiriza-se o voto para Belém.
2. “Moderação” não é veto preventivo: é apenas o nome polido de uma velha pulsão — proibir, sanear e prender… agora com gravata e Constituição na mão.
3. O problema nunca foi “o populismo”. O problema é o sistema achar que o eleitor é um menor: vota, mas depois os adultos tratam do assunto.
4. Se a democracia só é “democracia” quando dá o resultado certo, então não é democracia: é um referendo permanente ao gosto do comentariado.

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

A Verdadeira Ameaça à Democracia Não São os Eleitores — É o Jornalistado Militante

Somos diariamente avisados de que a polarização está a destruir a democracia portuguesa. O problema, dizem-nos, são os eleitores “radicalizados”, os populistas, as redes sociais, os “discursos perigosos”. Raramente se olha para o espelho. No entanto, a força mais corrosiva da política contemporânea não está no voto — está na comunicação social que trocou o cepticismo pela militância e o escrutínio pela cartilha.
O enviesamento mediático já não é um acidente ocasional. É um modelo de negócio, uma identidade editorial e, em demasiados casos, uma posição moral auto-atribuída.

Em Portugal, uma parte significativa do jornalistado e do comentariado deixou de tratar a política como matéria de interesse público para a tratar como missão cívica. Não informam: orientam. Não contextualizam: enquadram. Não descrevem a realidade: corrigem-na. O objectivo não é que o leitor compreenda — é que concorde.
A fronteira entre notícia e opinião esbateu-se ao ponto de desaparecer. Manchetes insinuam, textos “explicativos” instruem, editoriais disfarçam-se de reportagens. O leitor é conduzido pela mão como uma criança a quem se repete o que é aceitável pensar e o que deve ser repudiado.

Isto não é exclusivo de um título, mas há casos paradigmáticos. Em órgãos como o Observador, por exemplo, a diversidade de colunistas convive com uma curiosa homogeneidade moral: a mesma indignação selectiva, os mesmos alarmes democráticos, as mesmas personagens elevadas a ameaça existencial. A pluralidade é formal; o enquadramento é fechado.
O mesmo acontecimento, conforme o protagonista, muda de natureza. Uns merecem compreensão psicológica, contexto histórico e leitura benévola. Outros recebem rótulos, suspeições e alarmismo. Os factos até podem ser os mesmos — a narrativa nunca é.
Esta prática tem consequências graves. A confiança é a moeda da democracia. Quando os cidadãos percebem que estão a ser educados em vez de informados, afastam-se. Primeiro com cepticismo, depois com cinismo, finalmente com desprezo. E esse vazio é rapidamente ocupado por quem promete “dizer a verdade” — ainda que o faça de forma grosseira ou simplista.

Os defensores deste jornalismo militante respondem, com ar doutoral, que “a objectividade é um mito”. É uma meia-verdade usada como escudo. Nenhum jornalista é neutro, mas isso não dispensa a honestidade intelectual, a proporcionalidade, a dúvida metódica e a boa-fé. O problema não é a ausência de neutralidade — é a ausência de escrúpulos.
Perdeu-se, acima de tudo, a humildade. Uma imprensa saudável interroga-se a si própria. A actual recompensa a certeza, a pressa e o teatro moral. As correcções são discretas, a nuance é suspeita, a dissidência interna é punida. Quem sai do guião arrisca o rótulo, o silêncio ou o exílio profissional.

O ciclo fecha-se de forma perfeita: o público recompensa indignação, os media entregam indignação, os políticos aprendem a representar para as câmaras em vez de governar. A política transforma-se numa sucessão de reacções encenadas para consumo mediático.
E, no entanto, o público vê. Nota a cobertura selectiva. Nota as histórias que desaparecem quando se tornam incómodas. Nota a diferença de tom, de adjectivação, de severidade. Cada truque narrativo corrói mais um pouco a credibilidade. E a credibilidade, uma vez perdida, raramente regressa.
Uma imprensa livre é indispensável à democracia. Uma imprensa que confunde activismo com escrutínio é apenas mais um actor político — sem votos, mas com megafone.
A solução não está numa fantasia de neutralidade absoluta. Está num regresso à decência profissional: separar notícia de opinião, tratar adversários como cidadãos e não como hereges, e recordar que o papel do jornalismo não é ganhar batalhas morais, mas iluminar a realidade — mesmo quando ela contraria as convicções da redacção.

Agulhadas finais:
Quando todos os jornais parecem moralmente de acordo, desconfie: não é consenso, é conformismo.
Uma imprensa que escolhe inimigos em vez de factos acaba sempre a fabricar monstros — e a precisar deles.
O maior perigo para a democracia não é o eleitor que vota “mal”; é o jornalista que acha que deve votar por ele.

“Baste a quem basta o que lhe basta” ou "o mínimo elevado a virtude"

Fernando Pessoa escreveu-o em Mensagem, no poema "O das Quinas", o verso severo: “Baste a quem basta o que lhe basta.

É um aviso, não um elogio. Um diagnóstico de decadência moral e política: quando o mínimo passa a bastar, o máximo deixa de ser exigido e o País encolhe.
É exactamente aqui que estamos. Uma parte influente da Direita Caviar e da Esquerda Rasca decidiu que, para a Presidência da República, basta não ser Ventura. Não importa quem é o candidato, o que pensa, o que fez, o que fará. Basta-lhe não ser o outro. Não deveria bastar.
A campanha em torno de António José Seguro foi reduzida a isto: um exercício negativo, um anti-programa, um busto da República para pôr em Belém. Não se vota num homem real, com passado político, escolhas, responsabilidades; vota-se numa abstracção piedosa chamada “democracia”, “humanismo”, “decência”. É o vazio apresentado como virtude.

O artigo “Basta não ser Ventura” acerta no nervo do problema ao perguntar: o que significa votar num candidato presidencial? 
Dizem-nos que é possível votar em Seguro sem ser socialista, sem o apreciar, sem aderir ao partido que o sustenta, um voto “asséptico”, “higiénico”, sem consequências.
Mas, dizem os mesmos, não é possível votar em André Ventura sem “ingressar” no Chega, sem prestar culto à personalidade, sem assinar por baixo do estilo. Porquê? 
Porque razão o voto em Seguro é um voto “neutro”, enquanto o voto em Ventura é uma conversão ideológica?
A resposta é simples e cínica: porque convém aos oligarcas do comentariado e do jornalistado. Porque assim se bloqueia qualquer voto instrumental, qualquer voto de sinalização política, qualquer voto que queira marcar temas que só Ventura levou à campanha do caos migratório ao risco para a coesão social, do imobilismo sistémico ao perigo de uma restauração do domínio do PS.
O voto deixa de ser um instrumento do eleitor e passa a ser um teste moral imposto pelos mediadores do regime.

Histeria selectiva, memória curta
Os mesmos que hoje anunciam o apocalipse democrático se Ventura vencer, nunca se mostraram especialmente perturbados com o que o PS - e José Sócrates - fizeram efectivamente ao regime entre 2005 e 2011. A subversão, o endividamento, a captura institucional, o desprezo pelas regras: tudo isso passou. O escândalo, agora, são cartazes. A comoção, agora, é imaginária.
Esta histeria anti-fascista não protege a democracia: empobrece-a. Dispensa o escrutínio, desvaloriza o debate, sacraliza um candidato e demoniza o outro. O País é infantilizado; o eleitor, tratado como suspeito.

O precedente que assusta — e que se normaliza
Quando a lógica é “salvar a democracia suspendendo a democracia”, o fim aproxima-se rapidamente. No Reino Unido, o governo trabalhista já ensaiou a supressão de eleições locais onde o partido de Nigel Farage pode vencer. Eis a última estação da campanha virtuosa: cancelar eleições para defender eleições.
Quem acha isto exagero devia ler melhor os sinais. A pedagogia do medo prepara sempre a legitimação do interdito.

o mínimo que não basta
“Baste a quem basta o que lhe basta.” Pessoa escreveu-o como epitáfio de uma vontade cansada. Não como programa político. Eleger um Presidente porque não é outro é aceitar o mínimo como critério supremo. É desistir de perguntar quem é, o que pensa, o que representa. É transformar Belém num altar de boas intenções vagas.
A democracia não se defende com bustos. Defende-se com escolhas reais, com escrutínio duro, com eleitores livres — inclusive livres para votar sem pedir licença moral aos oligarcas do dia.
Se isto é demasiado para a Direita Caviar e para a Esquerda Rasca, o problema não é do eleitor. É do regime que se habituou a viver do mínimo — e a chamar-lhe virtude.

domingo, 1 de fevereiro de 2026

a lição de Gramsci: A direita ajoelhada e o medo de existir

Há textos 
https://observador.pt/opiniao/a-submissao-da-direita-e-a-hegemonia-cultural-da-esquerda/ que não pedem resposta; pedem confirmação. O ensaio de Jérémy Silvares Jerónimo sobre a submissão da direita portuguesa e a hegemonia cultural da esquerda é um desses casos. Não por ser excessivo, mas por ser rigoroso. Não por exagerar, mas por nomear aquilo que muitos preferem continuar a fingir que não vêem: a direita portuguesa, nas suas versões moderada e institucional, não perdeu eleições — perdeu a coragem de existir fora do guião moral imposto pela esquerda.
Convém começar pelo óbvio, raramente dito com frontalidade. As figuras de direita têm todo o direito de não apoiar André Ventura. Podem discordar do seu estilo, das suas propostas, da sua linguagem, da sua estratégia. Podem criticar o Chega, apontar fragilidades programáticas, lacunas ideológicas ou insuficiências de quadros. Nada disso está em causa. O problema começa noutro ponto — mais fundo, mais grave e mais revelador.
A questão não é não apoiar Ventura. A questão é: por que razão sentiram tantos a necessidade de apoiar publicamente José Seguro? E, mais ainda, por que razão essa escolha foi exibida com um fervor quase litúrgico, como se se tratasse de um acto de purificação moral?
Aqui entra o primeiro traço da submissão: o medo. O medo ancestral, herdado e cultivado, de ser rotulado. O medo do epíteto fácil — “fascista”, “nazi”, “reaccionário”, “populista”. O medo de ser colocado fora do círculo dos “aceitáveis”. Não se trata de cálculo político; trata-se de reflexo condicionado. O chamado “circo antifascista” não funciona porque convence — funciona porque intimida.

Este mecanismo não é novo, nem português. É uma técnica política testada, afinada e reciclada ao longo do século XX. A acusação de fascismo foi usada sistematicamente para silenciar adversários, desviar atenções e impedir convergências à direita. Não para defender a democracia, mas para preservar hegemonias. A esquerda aprendeu cedo que não precisava ganhar o debate — bastava interditá-lo moralmente.
E foi aqui que a direita falhou de forma estrutural. Não perdeu a batalha das ideias por inferioridade intelectual; perdeu-a por deserção. Desde o pós-guerra — e em Portugal desde 1974 — a direita decidiu concentrar-se na gestão, na economia, na técnica, no “funcionamento do sistema”, abandonando à esquerda tudo o resto: a cultura, a educação, o vocabulário moral, o imaginário colectivo.
Intelectuais como Mathieu Bock-Côté têm insistido neste ponto com clareza implacável: a direita governou mercados enquanto a esquerda formava consciências. Uma cuidou de índices; a outra moldou almas. O resultado está à vista: quem controla o léxico controla o juízo moral; quem controla o juízo moral decide quem é legítimo e quem é indecente.
A ironia suprema — e talvez a mais trágica — é que esta direita ajoelhada acredita sinceramente que está a defender a democracia quando se submete. Não percebe que, ao aceitar a gramática moral da esquerda, já perdeu antes de começar. Não percebe que, ao alinhar no discurso da “estabilidade” contra o “extremismo”, apenas reforça a narrativa de que qualquer alternativa fora do centrão é patológica por definição.


É aqui que a lição de Gramsci se torna incontornável — e embaraçosa para a direita. O poder político é sempre precedido pelo poder cultural. Quem define o senso comum, os valores aceitáveis e os limites do discurso acaba, mais cedo ou mais tarde, por definir também os resultados eleitorais. A esquerda aprendeu essa lição. A direita, não.
O caso português é exemplar. A esquerda dita os temas, os tons e os interditos. Decide o que é virtude e o que é pecado cívico. E a direita, em vez de contestar esse monopólio moral, apressa-se a provar que também ela é “do bem”. O apoio público a um candidato socialista não foi um gesto estratégico; foi um gesto de submissão simbólica. Uma genuflexão preventiva.
Resta, então, a pergunta final, aquela que nunca obtém resposta honesta: 
quando falam de “estabilidade”, de que estabilidade falam? 
Da estabilidade do país real ou da estabilidade do sistema que se protege a si próprio? Da estabilidade das famílias, dos jovens, dos trabalhadores, ou da estabilidade das redes partidárias, dos aparelhos, dos comentadores e dos profissionais da política?
Enquanto esta pergunta não puder ser feita sem insulto, a hegemonia cultural da esquerda permanecerá intacta. E enquanto a direita continuar a pedir licença moral para existir, continuará condenada a perder — mesmo quando vence.

Agulhadas finais
— A direita portuguesa não é derrotada nas urnas: é derrotada no espelho.
— Quem aceita a gramática moral do adversário já assinou a sua rendição.
— O antifascismo ritual não protege a democracia — protege o sistema que vive dela.

Porque não racismo? Porque não xenofobia?

O único restaurante israelita existente em Lisboa fechou. Ameaças, insultos, graffitis… levaram os seus proprietários a fechar a porta. 


No pouco espaço mediático dedicado ao assunto fala-se de anti-sionismo e anti-semitismo para explicar o sucedido. Porque não racismo? Porque não xenofobia? Porque se falarmos de racismo o ónus recai sobre o racista e não sobre aquele que o sofre. Já quando dizemos anti-sionista o problema está no sionista e não tanto naquele que se lhe opõe. Um dia a poeira assentará e tudo isto parecerá que nunca aconteceu. Sobretudo aqueles que agora gritam Free Palestine olharão para outro lado como se nunca tivessem alinhado nestas campanhas. ( Helena Matos )


Regicídio. Começámos mal!

Em 1 de fevereiro de 1908 aconteceu o assassinato do Rei Dom Carlos I de Portugal e seu herdeiro Dom Luís Filipe. Perpetrado por Alfredo Luís da Costa e Manuel Buíça, dois ativistas republicanos e integrantes da Carbonária Portuguesa. O trágico evento aconteceu quando a Família Real estava retornando a Lisboa do Paço Ducal de Vila Viçosa, no Alentejo, onde foram caçar durante o inverno. O Rei Dom Carlos I e Dom Luís Filipe foram atingidos por tiros na carruagem aberta onde também se encontravam a Rainha Dona Amélia e o então Infante Dom Manuel. Enquanto o rei morreu imediatamente, seu herdeiro foi mortalmente ferido, vindo a falecer cerca de vinte minutos depois. Por sua vez, Dona Amélia saiu milagrosamente ilesa, pois tentou defender com um buquê de flores o Infante Dom Manuel que acabaria atingido no braço, mas conseguiria sobreviver. Após todo o caos que se instalou no local, a carruagem real entrou no Arsenal da Marinha que se encontrava nas proximidades. Mas já era tarde demais, Dom Carlos I morreu imediatamente após ser atingido no pescoço. Se a lei da ascensão automática ao trono tivesse sido prevista na lei, o Príncipe Luís Filipe teria tido um dos reinados mais curtos de Portugal, pois, após a morte de seu pai, ele ainda viveu durante vinte minutos.


sábado, 31 de janeiro de 2026

Da luta existencial ao manual de boas maneiras

Quando o argumento morre, sobra a etiqueta. 
E quando o medo manda, o regime pede “boa educação”.

Durante anos venderam-nos a novela apocalíptica: a “democracia” estava a cair, o “regime” tremia, a História regressava de botas cardadas. André Ventura era tudo — fascista, nazi, racista, antidemocrata — o bingo completo do pânico moral. Era suposto o povo entrar em modo de pavor permanente, com a imprensa a tocar sirenes e o comentariado a fazer de bombeiro-pirómano.

Nada pegou como queriam. E, quando a chantagem começou a perder gás, o guião mudou: já não é Hitler — é um malcriado. Já não é ameaça ao Estado de Direito — é ameaça ao bom-tom. A tragédia ideológica virou queixume de salão: Ventura não tem “gravitas”, não tem “maneiras”, não tem “perfil”. Em suma: pode deixar o país “mal na fotografia” lá fora.
E eis a solução milagrosa do regime: ~
António José Seguro, o “bem-educado”. Manso, previsível, polido, cordato. Um candidato que não incomoda, não agita, não ameaça o conforto institucional de ninguém. O homem certo para tranquilizar a tribo dos instalados e para embalar a consciência dos que confundem civilidade com virtude política.
Repare-se no truque: reduzir a escolha presidencial a um concurso de etiqueta. Como se a nação estivesse a eleger um mestre-de-cerimónias para jantares diplomáticos — e não um Presidente. Como se o país precisasse de um candidato “fofinho” para a fotografia do protocolo, em vez de um juízo político sobre rumo, poder e responsabilidade.

É aqui que a operação fica obscena: esta súbita cruzada pelas “boas maneiras” aparece precisamente quando se consolida um candidato alternativo junto dos deixados para trás — os que o sistema despreza, mas de quem precisa para fingir que representa “o povo”. E então o regime, impotente para rebater ideias, recorre ao insulto social em modo educadinho: “baixa escolaridade”, “equivocados”, “deploráveis”, “gente sem maneiras”. A mesma condescendência de sempre, agora perfumada com colónia institucional.

O mais cómico — e ao mesmo tempo o mais revelador — é ver os revolucionários de ontem e os activistas de hoje, herdeiros de uma tradição que sempre desprezou a “civilidade burguesa”, fingirem uma súbita paixão pelo decoro. Ontem a rua era “legítima”; hoje o problema é o tom. Ontem era a luta; hoje é a etiqueta. O antifascismo virou manual de boas maneiras para consumo de elites.
Convém dizer o óbvio: não vamos escolher um simpático. Vamos fazer uma escolha política. E o candidato que “não grita” continua a ser socialista. O “bem-educado” continua a representar uma máquina, uma cultura e uma rede — a mesma velha engenharia de poder que vive do regime e para o regime, e que agora convoca a direita domesticada para um abraço temporário e interesseiro.
A frase “é bem-educado” não é elogio político: é senha de reconhecimento. É o carimbo do sistema. É a forma polida de dizer: este é dos nossos, não estraga a festa.

Agulhadas finais
– Quando o argumento morre, o regime refugia-se no decoro: a etiqueta é o último reduto de quem já não tem razão.
– A “boa educação” virou arma política: não para elevar o debate, mas para domesticar o voto.
– Quando todos os bem-educados se juntam numa unanimidade tão civilizada, é porque alguém saiu do guião — e isso mete medo. ```

terça-feira, 27 de janeiro de 2026

Ventura: um teste psicológico, mais do que político

Quando um sistema inteiro entra em pânico por causa de um homem, fingir que ele é secundário é mentira consciente

Há políticos que dividem opiniões. E há políticos que desorganizam sistemas.
André Ventura pertence claramente à segunda categoria. E é precisamente por isso que quase ninguém consegue falar dele com seriedade. A esmagadora maioria dos que dizem “saber quem Ventura é” não sabe coisa nenhuma. Limita-se a projectar nele as suas pulsões — entusiasmo ou repulsa — e a chamar a isso análise política.
Não é. É psicologia barata embrulhada em retórica cívica.

O que se pode fazer com honestidade intelectual não é dissecar a “pessoa”, nem as suas intenções íntimas, nem a sua vida privada. Isso é território de tablóide, café e comentador militante. O que se pode fazer é observar padrões públicos repetidos, ao longo do tempo, sob pressão e sem ela, em debate, em conflito, em vitória e em derrota — e perceber o que esses padrões revelam sobre o fenómeno político.

E o fenómeno é este: Ventura é o único actor político deste ciclo que obriga o sistema inteiro a reagir.
Ele não responde à agenda. Ele impõe-a.
Tudo o resto — candidatos, comentadores, editoriais, manifestos de “salvação da democracia”, apelos à moderação e súbitos acessos de virtude republicana — surge depois, como reflexo condicionado. Ventura é a causa. Os outros são a resposta. Fingir o contrário é uma encenação pobre.

A reacção que provoca diz tudo. Raramente se discute o que ele propõe. Discute-se o que ele “é”. Em vez de argumentos, rótulos. Em vez de discordância, patologização. Em vez de confronto político, alarmismo moral.
Não se diz “está errado”. Diz-se “é perigoso”.
Isto não é debate democrático. É mecanismo defensivo. Serve para proteger um ecossistema confortável, habituado à alternância sem ruptura, à mudança cosmética vendida como progresso e à ausência total de fricção real. Uma classe política e mediática que vive bem dentro da moldura e entra em pânico quando alguém a desloca um centímetro.
O mais revelador é que esta reacção vem sempre travestida de superioridade ética. Mas não há ali ética nenhuma. Há autopreservação. Há medo de perder o controlo do discurso, das regras implícitas, do consenso artificial que permite governar sem pensar demasiado.
Convém sublinhar — antes que os devotos do antifascismo automático entrem em convulsão — que isto não santifica Ventura. Não o torna estadista, nem garante competência governativa, nem absolve excessos, contradições ou oportunismos. Identifica algo muito mais incómodo para o sistema: Ventura funciona como detonador de posicionamento.

Num país treinado para confundir estabilidade com virtude, alguém que introduz conflito real não é tratado como concorrente. É tratado como ameaça existencial. E ameaças existenciais não se enfrentam com ideias. Tentam-se neutralizar, isolar, deslegitimar.
É por isso que esta eleição — especialmente na segunda volta — é sobre Ventura, quer se queira quer não.
A figura que lhe faz frente poderia chamar-se outra coisa qualquer. O seu papel manter-se-ia intacto: oferecer uma saída emocionalmente confortável, uma promessa de anestesia política, um regresso ao ruído branco institucional onde nada muda de facto, mas tudo parece muito responsável.
Ventura faz o contrário. Obriga a escolher tensão em vez de conforto. Conflito em vez de consenso encenado. Verdade incómoda em vez de linguagem higienizada.
Quem vota em Ventura prefere disrupção à anestesia. Quem vota contra Ventura, muitas vezes, não escolhe o outro por convicção — escolhe-o para não ter de pensar no que Ventura obriga a enfrentar.

Por isso não há debate sério. Por isso os media aceitam, sem protesto, a recusa de discutir ideias. Por isso a moral substitui o argumento. 
Esta eleição não mede programas. Mede a capacidade colectiva de suportar fricção.
É um teste psicológico, não político.
E quando um sistema inteiro se organiza em função de um homem, fingir que ele é secundário já não é ingenuidade. É má-fé.

Notas
1. Fenómeno vs. pessoa: este texto analisa padrões públicos e reacções sistémicas; não pretende inferir intenções íntimas nem vida privada.
2. Fricção: uso aqui “fricção” como o choque que obriga actores e instituições a explicitarem posições, interesses e limites — algo raro na alternância cosmética.


conferir e xomentar


 

segunda-feira, 26 de janeiro de 2026

A direita útil do PS e o antifascismo de aluguer

Quando o medo substitui a política e a salvação da democracia passa a significar a exclusão do eleitor

Há um velho reflexo condicionado na política portuguesa que reaparece sempre que o
Partido Socialista se vê ameaçado: uma parte da direita corre em seu auxílio, convencida de que está a salvar o regime quando, na verdade, está apenas a reciclar o poder socialista. Não é novo. Mas raramente foi tão explícito, tão mal justificado e tão politicamente contraproducente como no recente manifesto dos chamados “não-socialistas”.
O pretexto é conhecido: travar, impedir o “populismo”, salvar a democracia. O efeito real é outro: legitimar novamente o PS, reabilitar o seu espaço político e oferecer-lhe uma vitória moral que não conquistou nas urnas nem no debate público. Em nome de um antifascismo abstracto, entrega-se poder concreto a um partido com responsabilidades directas no empobrecimento, na desestruturação social e no bloqueio político do país.
A direita que não acredita em si própria
O manifesto dos “não-socialistas” não é um exercício de lucidez democrática; é um acto de desistência estratégica. Ao apelar ao voto, os seus signatários assumem implicitamente que a direita portuguesa é incapaz de se organizar, de se reformular ou de disputar o poder sem tutela moral do PS.
A contradição é evidente. Muitos dos subscritores conhecem bem o historial político de Seguro, os governos que apoiou e as políticas que viabilizou. Sabem — e disseram-no durante anos — o que o PS fez ao país. Ainda assim, assinam. Não por convicção, mas por medo: medo de perder o controlo do campo político, medo de um eleitorado que já não obedece às antigas mediações, medo de um actor político que não pede licença.
O antifascismo como arma de intimidação
A segunda operação em curso é ainda mais perigosa: a tentativa de transformar uma escolha eleitoral legítima num acto moralmente condenável. Chamar “fascista” a Ventura tornou-se um automatismo retórico e uma estratégia deliberada de desqualificação do eleitor. Já não se combate uma candidatura; combate-se o direito de a escolher.
A história recente devia ter ensinado alguma coisa. Em 1986, a retórica antifascista foi usada contra Freitas do Amaral. Noutras paragens europeias, foi usada contra candidatos que chegaram ao poder sem que a democracia colapsasse. O alarmismo falhou sempre. Mas insiste-se nele, como se a repetição pudesse substituir a realidade.
Linhas vermelhas contra eleitores
A democracia não se protege excluindo eleitores, mas integrando-os no jogo político. As chamadas “linhas vermelhas” não defendem o regime; congelam o sistema. Funcionam enquanto os partidos visados são marginais. Colapsam quando passam a representar uma parte significativa da sociedade.
A experiência europeia é clara: partidos rotulados como “populistas” entraram e saíram de governos sem destruir a democracia. Governaram bem ou mal. Foram julgados. E substituídos. Exactamente como manda o regime democrático.
O verdadeiro risco
O risco para a democracia não está num voto. Está numa elite que se recusa a aceitar que o eleitorado mudou. Está na criminalização simbólica do dissenso e na tentativa de impor uma ortodoxia política pela intimidação moral.
Ao ajudar o PS em nome da salvação do regime, esta direita “responsável” não protege a democracia. Protege um sistema que já não sabe reformar-se e que reage à perda de controlo com moralismo e histeria retórica. No fim, quem agradece é o PS. E, ironicamente, também Ventura.

domingo, 25 de janeiro de 2026

51 anos de memória e de lições ignoradas

...do cerco ao CDS ao cerco ao Chega
Em 25 de Janeiro de 1975, no Palácio de Cristal do Porto, o primeiro Congresso do Centro Democrático Social (hoje CDS – Partido Popular) foi interrompido por um cerco de militantes e simpatizantes da extrema-esquerda. Durante mais de doze horas, manifestantes rodearam o edifício, condicionaram a realização dos trabalhos e, segundo testemunhos da altura, houve feridos e constrangimentos graves antes que as Forças de Segurança pudessem repor a ordem. (arquivos.rtp.pt)
Esse episódio — que passou para a história política portuguesa como um sinal da radicalização e intolerância que marcou o Processo Revolucionário em Curso — constituiu uma ameaça direta à livre organização e expressão de um partido político recém-nascido, numa fase em que a democracia portuguesa ainda se debatia com forças políticas que recusavam regras e pluralismo. (TSF)
Hoje, 51 anos depois, é recorrente ouvir-se — nas palavras de alguns cronistas e comentadores — que se vive um “cerco” semelhante, desta feita dirigido ao PARTIDO CHEGA. Não se fala de barricadas nem de bloqueios físicos, mas de uma pressão política, mediática e institucional que procura limitar o espaço de um partido que desafia a ortodoxia política vigente. Trata-se, como bem argumenta o texto no Blasfémias, de uma resistência dos chamados “partidos estruturais” — PSD, CDS e outros — a uma força que, vindo “de dentro” do sistema, põe em causa pactos informais, equilíbrios de bastidores e redes de influência entranhadas no aparelho estatal e corporativo. (BLASFÉMIAS)
Do confronto aberto ao cerco simbólico
O cerco ao CDS em 1975 foi físico e explícito: manifestantes bloquearam a entrada ao congresso, criaram uma situação de tensão direta e forçaram uma interrupção dos trabalhos. Foi um exemplo claro de intolerância política que, numa sociedade livre, se só por si deveria ter sido decisivamente condenado por todos os defensores da democracia plural. (arquivos.rtp.pt)
Já o “cerco” ao Chega no presente não é feito com corpo, mas com linguagem e práticas políticas e mediáticas. Não é a violência nas ruas, mas a violência do discurso: a construção de uma narrativa que tenta associar o partido e o seu líder a periculosidades latentes à democracia. Esta narrativa, muitas vezes difundida e amplificada por setores dos media e do establishment político, baseia-se explicitamente no medo — medo de mudança, medo de perda de poder, medo de ruptura com práticas consensuais que, apesar de duramente criticadas por muitos, se tornaram parte do “modus operandi” da política tradicional. (BLASFÉMIAS)
O medo como instrumento político
No texto de Blasfémias, a autora desmonta a versão oficial difundida por muitos comentadores: segundo esta narrativa dominante, o Chega seria um “risco para a democracia”. Mas, como argumenta, esta explicação é insuficiente para justificar a hostilidade constante que se observa — não apenas contra ideias, mas contra o próprio espaço político que o Chega ocupa. O que verdadeiramente se teme, sugere-se, não é a perda da democracia, mas a perda de um controlo que partidos como o PSD e o CDS mantêm há décadas nas engrenagens do poder. (BLASFÉMIAS)
Esta leitura não é teoria da conspiração: é, antes, uma análise crua de como funcionam muitas vezes as relações de poder num regime que se orgulha de «democracia» mas que, no concreto, tende a favorecer a perpetuação de elites e de práticas discretas de influência, redes clientelares e acordos tácitos. Um partido que se recusa a entrar nesses jogos e que expõe essas dinâmicas torna-se instintivamente um alvo. (BLASFÉMIAS)
Comparar para compreender — sem equiparar 
Comparar o cerco físico que o CDS sofreu em 1975 com a atual pressão política ao Chega não é equiparar literalmente situações diferentes. O contexto sociopolítico de 1975 — num país ainda marcado pelo PREC, por confrontos ideológicos e por uma transição recente da ditadura para a democracia — não é o mesmo que o de 2026. O cerco ao CDS aconteceu no quadro de uma luta aberta entre forças que, em muitos casos, rejeitavam a própria noção de pluralismo democrático. (Wikipedia)
O “cerco” ao Chega, no entanto, manifesta-se em múltiplas frentes: debates acalorados, tentativas de deslegitimar nas urnas ou nos media, apelos à contenção e à exclusão política e social. É um cerco de natureza simbólica e discursiva, mas não menos relevante — porque molda percepções, influencia decisões e tem impactos reais na vida política do país.
há que aprender com a história para não repetir o silêncio
A memória histórica do que aconteceu no Palácio de Cristal, há 51 anos, não deve ser um simples anedotário de datas e efemérides. Deve servir de alerta: quando uma sociedade tolera a exclusão de vozes políticas em nome de discursos de medo, corre o risco de criar um ambiente em que a própria democracia se torna frágil — não por falta de instituições, mas por falta de pluralismo e coragem para enfrentar ideias divergentes sem recorrer à marginalização e ao reduzido espaço parlamentar.
Hoje, como ontem, é essencial defender que todas as correntes políticas possam apresentar as suas propostas e debater as suas ideias. A história do CDS em 1975 ensina-nos que o cerco, seja físico ou simbólico, é sempre um sinal de fragilidade democrática — e que a resposta deve ser, não mais cerco, mas mais diálogo e mais verdade política.



Entre o espantalho e o espelho: Ventura, o jornalistado e a tentação activista

Há textos que valem menos pelo alinhamento partidário que recusam do que pela lucidez com que desmontam um automatismo mental instalado. O brilhante texto de André Abrantes Amaral inscreve-se nessa categoria rara. Não é um texto de apoio a André Ventura — e é precisamente por isso que merece ser levado a sério. O seu alvo não é o líder do Chega, mas a estratégia discursiva daqueles que dizem combatê-lo e acabam, sistematicamente, por o reforçar.
Essa estratégia é hoje demasiado familiar. Consiste em transformar Ventura no espantalho moral do regime, colando-lhe rótulos máximos — “fascista”, “antidemocrata”, “ameaça existencial à democracia” — numa inflação verbal que dispensa análise e substitui o argumento pelo anátema. O efeito é perverso: quem acusa perde credibilidade, quem é acusado ganha centralidade, e o debate público degrada-se num teatro de exorcismos.
Convém dizê-lo sem rodeios. Chamar fascista a André Ventura não é apenas intelectualmente preguiçoso; é politicamente contraproducente. Pode — e deve — discutir-se o seu populismo, a demagogia das suas promessas, a elasticidade ideológica do seu discurso, a pressão retórica que exerce sobre instituições e comunicação social. Tudo isso pertence ao campo normal da crítica democrática. Mas reduzir o fenómeno Ventura a um regresso do fascismo histórico é um erro de diagnóstico que apenas revela a incapacidade de compreender o país real.
E é aqui que o texto de Amaral toca num ponto essencial, que no ReVisões tem sido reiteradamente sublinhado: Ventura não cresce no vazio. Cresce num país com salários estruturalmente baixos, acesso cada vez mais difícil à saúde, uma crise de habitação que atinge já várias gerações e reformas que prometem pouco mais do que sobrevivência. Cresce depois de três décadas de “consensos responsáveis” que, vistos à distância, produziram imobilismo, captura partidária do Estado e uma democracia cada vez mais formal e cada vez menos substantiva.
O erro da esquerda — acompanhada por uma parte significativa do centro-direita mediático — é duplo. Primeiro, tratar o descontentamento social como um problema moral, não político. Segundo, acusar os eleitores de desvio democrático sempre que recusam alinhar num candidato apresentado como “o único aceitável”. Quando se encosta uma parte do país à parede, não se está a defender a democracia; está-se a corroê-la.

Há um erro estratégico mais fundo: alinhar na lógica de divisão que se diz combater. Dividir o país entre “democratas” e “antidemocratas” não é substancialmente diferente de o dividir entre “bons” e “maus” portugueses. É aceitar o terreno do adversário e jogar com as suas regras. É, no fundo, dar-lhe vantagem à partida
A experiência recente em França deveria servir de aviso. A demonização sistemática da direita populista pelo centro-direita e pelos socialistas não resolveu problema algum. Agravou-os. Consolidou clivagens, cristalizou ressentimentos e deixou o sistema político refém de alianças negativas, feitas mais por medo do que por projecto. A convicção portuguesa de que somos moralmente imunes a esse percurso é uma ilusão recorrente — até ao dia em que se bate na parede. E, como a história ensina, com estrondo.
Há ainda um factor geracional que o jornalistado insiste em ignorar. A democracia portuguesa tem mais de cinquenta anos. Para uma parte significativa do eleitorado, o “fantasma do fascismo” não é memória vivida, mas narrativa herdada — frequentemente instrumentalizada. Usá-la como arma absoluta num combate político quotidiano é esvaziá-la de sentido. Quando tudo é fascismo, nada o é.
Nada disto implica absolver André Ventura de críticas sérias, nem subscrever o seu discurso identitário ou as suas soluções fáceis. Implica apenas recusar a histeria moral como método político e denunciar o activismo disfarçado de jornalismo. Um jornalismo que não explica, não contextualiza e não escuta; que se limita a distribuir certificados de virtude democrática, abdica da sua função essencial. Torna-se actor político, ainda que continue a fingir neutralidade.
Talvez esteja aqui a ironia maior: ao transformar Ventura no eixo moral do regime, o jornalistado e o comentariado não o combatem — legitimam-no. Fazem dele o espelho deformado de um sistema que prefere insultar os seus críticos a reformar-se. E enquanto assim for, continuará a falhar onde mais importa: na compreensão do país que diz representar.
Agulhadas finais
Quem chama fascista a tudo o que incomoda acaba, invariavelmente, a fazer campanha pelo incómodo.
— O activismo mediático não substitui política pública nem resolve descontentamentos reais.
— Um sistema que só se sabe defender por exorcismos morais já desistiu de se reformar.

o cerco ao Palácio de Cristal

 

sábado, 24 de janeiro de 2026

jornalistado e comentariado!

"Chamar a isto jornalismo é um insulto aos verdadeiros jornalistas. Se eu fosse o Dr Ventura daria entrada com um processo contra o activista da RTP. Pode não dar em nada, mas quem não se sente!

( Regina Cunha )