Jorge Fernandes expõe uma doença política que também conhecemos em Portugal: a substituição da governação pela propaganda e da responsabilidade pelo espantalho da direita. Nenhum país se conserva com superioridade moral proclamada, causas internacionais e acordos destinados apenas a prolongar o poder. A segurança, os serviços públicos e a coesão nacional exigem competência e prestação de contas. À direita caberá demonstrar maturidade para construir uma alternativa. O medo do adversário pode prolongar um Governo, mas não chega para governar um país.
Os acidentes ferroviários representam o desmoronar da imagem de modernização que Pedro Sánchez procurava projectar. A alta velocidade, símbolo da transformação de Espanha numa potência europeia, tornou-se o retrato das fragilidades de um Governo mais empenhado na sua propaganda progressista do que na administração do país.
Sánchez passou os últimos três anos completamente desinteressado do país, mais preocupado em acções performativas – como ser o campeão da imigração descontrolada ou fazer da causa Palestiniana o centro do mundo — para tentar tornar-se uma espécie de bússola moral da Esquerda na Europa. Quanto ao país, não aprovou um único Orçamento do Estado, a primeira vez que um executivo da democracia acaba a legislatura nestas condições. Aprovou, segundo dados oficiais, apenas 37 leis em mais de três anos, fazendo desta a legislatura menos produtiva desde a democratização em 1978, muito longe de qualquer legislatura normal, de qualquer governo, de qualquer partido.
A conta acabaria por chegar.
Durante três anos, Sánchez privilegiou causas internacionais e gestos de afirmação ideológica, procurando apresentar-se como referência moral da esquerda europeia. Internamente, deixou uma legislatura sem novos Orçamentos do Estado e com uma produção legislativa excepcionalmente reduzida. A distância entre a imagem cultivada e os resultados concretos acabou por cobrar o seu preço.
Governar exige decidir o que se constrói, conserva e renova. Segundo o autor, a degradação ferroviária reflecte a ausência de investimento planeado e fiscalizado, consequência de uma maioria parlamentar contraditória, absorvida pela negociação permanente com independentistas e parceiros à esquerda. A sobrevivência política de Sánchez sobrepôs-se às necessidades do país, enquanto o primeiro-ministro exigia explicações pelos problemas como se não fosse responsável pela governação.
Contudo, uma vitória de Feijóo poderá não resolver o bloqueio. Dependente do Vox, o líder do PP enfrentará exigências sobre imigração, prioridade nacional e desregulação económica, além da resistência de Bruxelas, dos eleitores moderados e de sectores do próprio partido. Os acordos regionais não garantem uma solução nacional simples.
A ironia é que Sánchez, tendo transformado o medo do Vox num instrumento central da sua política, contribuiu para fortalecer o partido de Abascal, que poderá condicionar também o próximo Governo.
Se as negociações da direita encalharem, Espanha arrisca-se a prolongar a instabilidade: maiorias frágeis, orçamentos bloqueados e alternância de protagonistas sem mudança de método. A grande rede ferroviária ficará como símbolo de um país que soube construir a modernização, mas falhou na responsabilidade de a preservar.
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