Quando a conquista do poder exige a renúncia aos princípios
A morte pode preceder a derrota
Uma família política pode continuar a conquistar mandatos depois de ter perdido a sua razão de existir. Conserva a organização, os profissionais, os comentadores de serviço e a linguagem dos grandes combates; falta-lhe apenas a fidelidade aos princípios que justificavam esses combates. É neste sentido que a expressão «morte da esquerda» merece ser discutida: como falência moral e intelectual, antes de qualquer desaparecimento eleitoral.
O artigo de Jérémy Silvares Jerónimo, publicado no Observador, coloca o dedo numa contradição que considero central: a indulgência de uma parte da esquerda perante forças religiosas e políticas que negam liberdades que essa mesma esquerda proclama defender. A crítica interessa-me sobretudo pelo que revela sobre a transformação da política em administração de clientelas. Quando uma convicção depende do eleitorado que pode ofender, deixou de ser uma convicção.[1]
Uma distinção que dá força à crítica
Uso «islamo-esquerdismo» para designar uma convergência política entre sectores da esquerda e projectos islamistas, não uma identidade entre os muçulmanos e esses projectos. A expressão é polémica e exige precisão. O cidadão muçulmano tem os mesmos direitos e deveres de qualquer outro cidadão; o islamismo político deve ser julgado pelas suas propostas de organização do poder, da sociedade e da liberdade. Confundir os dois seria oferecer aos seus dirigentes o monopólio da representação de milhões de pessoas.
Essa distinção torna a crítica mais exigente. A liberdade religiosa protege a crença, mas também a mudança de religião, a descrença e a crítica. Uma democracia que aceite intimidar quem abandona uma fé ou denuncia uma imposição religiosa está a abandonar pessoas concretas em nome de uma abstracção chamada «respeito cultural». Nenhuma comunidade pode converter-se numa zona de excepção aos direitos individuais.
Mélenchon e a tentação da clientela
Jérémy Silvares Jerónimo interpreta a evolução de Jean-Luc Mélenchon e de La France insoumise como uma mudança estratégica, acentuada depois de 2017: ganhar nos bairros populares o apoio que faltava para chegar ao poder. A referência a Éric Coquerel e aos votos em falta surge no seu artigo atribuída a uma investigação de Antoine Oberdorff. Importa conservar essa atribuição, em vez de transformar uma citação indirecta numa confissão documental que aqui não foi examinada.[1]
Procurar votos nesses bairros é perfeitamente legítimo. O problema começa quando se substitui a integração dos cidadãos numa comunidade política comum pela negociação com identidades apresentadas como blocos eleitorais. O trabalhador passa a interessar menos pela sua condição social do que pela origem, pela religião ou pelo ressentimento que alguém julga poder mobilizar. A antiga promessa de emancipação arrisca-se, assim, a dar lugar a uma nova dependência: a do eleitor perante os intermediários que falam em seu nome.
O universalismo à escolha do freguês
Há uma prova simples para qualquer discurso emancipador: aplica os mesmos critérios aos seus aliados e aos seus adversários? Se denuncia uma imposição patriarcal numa tradição e a desculpa noutra, a resposta é negativa. Se defende a irreverência perante o Cristianismo, mas trata a crítica de outra religião como uma agressão intolerável, está a estabelecer uma hierarquia de liberdades. Se a autonomia da mulher depende da conveniência diplomática ou eleitoral, deixou de ser autonomia.
O mesmo se aplica à hostilidade racial. Atribuir culpa colectiva a pessoas por serem brancas não corrige o racismo: reproduz o seu princípio, que consiste em julgar o indivíduo pela ascendência. A responsabilidade histórica exige conhecimento, contextos e agentes identificáveis. Uma culpa transmitida pelo nascimento pertence à teologia da condenação, não à justiça. E uma esquerda que aceita essa regressão está a demolir o universalismo com que durante tanto tempo legitimou a sua superioridade moral.
O teste do Hamas
A polémica em torno de Mathilde Panot, em Outubro de 2023, ilustra o problema da linguagem política. Panot condenou crimes de guerra do Hamas, mas recusou qualificá-lo directamente como organização terrorista. Registar a condenação é necessário para não falsificar a sua posição; registar a recusa é igualmente necessário para avaliar a escolha das palavras. A disputa não nasceu de uma inexistente condenação, mas dos limites que a dirigente lhe colocou.[2]
Defender os direitos dos palestinianos e exigir responsabilidades ao Governo de Israel são posições compatíveis com a condenação inequívoca do terrorismo do Hamas. A morte deliberada de civis e a tomada de reféns não se tornam emancipadoras por serem praticadas sob uma bandeira considerada anti-imperialista. Uma esquerda fiel ao universalismo deveria ser a primeira a recusar essa contabilidade moral. Quando hesita, deixa a suspeita de que o nome do agressor pesa mais do que a condição da vítima.
Houellebecq: a disponibilidade para ceder
André Azevedo Alves destacou, numa recomendação de leitura de 2015, o retrato da decadência intelectual que a sociedade ocidental inflige a si própria. Rui Ramos acentuou, por seu lado, a capacidade de sobrevivência da oligarquia no cenário do romance. São pistas complementares: a fraqueza das convicções e a força dos interesses podem trabalhar juntas. Uma elite pode declarar ultrapassado tudo aquilo que deveria transmitir, desde que não sejam ultrapassados os seus lugares.[3][4]
Aniquilação permite prolongar a reflexão por outra via. O universo de Paul Raison, próximo do poder ministerial e envolvido numa conjuntura eleitoral perturbada, põe em contacto a maquinaria do Estado com a vulnerabilidade humana. Leio essa aproximação como um aviso sobre os limites da administração: uma sociedade pode possuir especialistas, procedimentos e estratégias de comunicação, e continuar sem saber o que deseja preservar. É uma interpretação literária, não uma demonstração sociológica.[5]
A demografia não dispensa a política
A interrogação sobre imigração, natalidade e maiorias futuras merece discussão séria. Não autoriza, porém, a tratar a origem ou a religião como um boletim de voto hereditário. Entre uma alteração populacional e um resultado eleitoral existem nacionalidade, idade, participação, integração, mobilidade social e escolhas individuais. Anunciar quem governará dentro de vinte anos sem examinar essas variáveis seria substituir a análise por uma fatalidade.
A questão política permanece inteira: que instituições integram, que escola transmite a língua e a história, que Estado aplica a lei e que partidos favorecem a cidadania comum em vez da dependência comunitária? Uma sociedade que abandona estas tarefas cria terreno para empresários de identidades. A resposta conservadora deve exigir fronteiras governáveis, integração efectiva e igualdade perante a lei, sem abdicar da dignidade de cada pessoa.
O aviso para Portugal
Portugal deve discutir estas escolhas sem importar mecanicamente o cenário francês. Aos partidos, às universidades e aos órgãos de comunicação social cabe responder a perguntas concretas: há princípios que se tornam indizíveis perante determinados interlocutores? A defesa das mulheres, dos dissidentes religiosos e da liberdade de expressão mantém-se quando contraria uma causa politicamente estimada? O jornalista que exige coerência a uns exige-a também aos outros?
Às Novas Direitas cabe associar a defesa da continuidade nacional à questão social: trabalho, habitação, segurança e serviços públicos. Uma comunidade política enfraquece quando deixa de oferecer pertença e protecção, mas também quando os seus dirigentes se envergonham da herança que receberam. Defender essa herança exige conhecê-la, transmiti-la e torná-la habitável para quem aceita participar na vida comum.
A esquerda de que aqui falo pode sobreviver eleitoralmente à sua própria incoerência. O que não pode é abandonar a liberdade em nome dos aliados e continuar a reclamar o exclusivo da emancipação. Talvez esta seja a sua morte mais profunda: conservar o vocabulário da libertação depois de ter aprendido a negociar os termos da submissão.
Notas e referências
[1] Jérémy Silvares Jerónimo, «O islamo-esquerdismo, ou a morte da esquerda», Observador, 5 de Novembro de 2026. As referências a Coquerel e Oberdorff são aqui atribuídas a este artigo; não constituem confirmação independente da fonte francesa.
[2] La Dépêche, 10 de Outubro de 2023, sobre a condenação de crimes de guerra e a recusa da qualificação de organização terrorista.
[3] Michel Houellebecq, Submissão (2015); Rui Ramos, «As vantagens da submissão», Observador, 6 de Abril de 2015. O cenário do romance é ficcional.
[4] André Azevedo Alves, «Pare de acreditar no Governo (e outras recomendações de final de ano)», Observador, 19 de Dezembro de 2015.
[5] Michel Houellebecq, Aniquilação (Anéantir, 2022). Referência bibliográfica e sinopse. A leitura política apresentada é da responsabilidade do autor deste artigo.

