quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

Vai ganhar. Mas ganha com restos, oportunismo e memória curta!

Seguro: é o candidato que ninguém quis — até precisar
Rejeitado pelo PS, vilipendiado pela esquerda e agora abraçado por oportunistas — uma vitória que nos pode sair cara.
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António José Seguro não regressou por redenção. Regressou por necessidade.
Foi rejeitado por António Costa, desvalorizado por Augusto Santos Silva, empurrado para fora pelo núcleo duro do PS e vilipendiado pela esquerda durante mais de 10 anos. Hoje, os mesmos ressuscitam-no porque precisam dele para travar a queda.
Entretanto, os ratos da direita abandonam à pressa os candidatos que apoiaram para jurar fidelidade a Seguro. Não por convicção — por medo.
Vai ganhar. Mas ganha com restos, oportunismo e memória curta.
E cada manobra destas empurra mais jovens para Ventura. Depois do tabu quebrado, não há regresso.
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[dedicado aos mais novos porque os velhos lhes vão branquear a história!]
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Para onde vais, António José Seguro?
O candidato que ninguém quis... até precisarem!
uma falsificação em curso que convém desmontar sem rodeios: a ideia de que António José Seguro representa uma continuidade natural do Partido Socialista ou uma espécie de reserva moral injustamente esquecida. Não representa. Seguro foi politicamente rejeitado, afastado e neutralizado pelo seu próprio partido, com método, nomes e intenções claras.
Não foi um acidente. Foi uma decisão.
A execução política de Seguro em 2014
Em 2014, quando António Costa desafia a liderança de Seguro, fá-lo com um argumento simples e devastador dentro do aparelho socialista: Seguro não ganhava eleições. Não tinha “pulso”, não tinha agressividade, não tinha capacidade de impor hegemonia à esquerda. Costa não disputou apenas uma liderança — disputou a legitimidade de Seguro como líder político.
O golpe foi total. Seguro não foi tratado como adversário interno respeitável, mas como um erro a corrigir. O partido alinhou rapidamente. O aparelho fechou-se. E o veredicto foi aplicado sem piedade: Seguro tornou-se politicamente dispensável.
os abraços de hoje
Entre os que contribuíram activamente para esse isolamento está Augusto Santos Silva, ideólogo maior do costa-centrismo. Nunca escondeu o seu desprezo político por Seguro, considerado insuficiente, mole, incapaz de impor respeito à direita e à esquerda. Santos Silva é hoje um dos rostos que surgem a legitimar Seguro — com a mesma convicção com que ontem o descartou.
Pedro Nuno Santos, então estrela em ascensão, representava já a ala que via Seguro como um obstáculo ao “novo PS”: mais ideológico, mais conflituante, mais disponível para entendimentos estruturais com a extrema-esquerda. Para esse sector, Seguro era um resíduo de um PS demasiado institucional.
No mesmo campo alinharam Mariana Vieira da Silva e Alexandra Leitão, figuras centrais do consulado Costa, que nunca esconderam preferência por um PS mais musculado, menos preso a equilíbrios e mais confortável com o radicalismo retórico. Seguro não encaixava. Foi politicamente asfixiado.
O resultado fala por si: António José Seguro afastou-se do Partido Socialista durante mais de dez anos. Não por escolha estratégica, não por pausa reflexiva, mas porque não lhe deixaram espaço político. Foi empurrado para fora com luvas de veludo e eficácia cirúrgica.
                                                                           O vilipendia-lo sistemático da esquerda
Durante essa década, a esquerda e a extrema-esquerda não se limitaram a ignorar Seguro. Vilipendiaram-no.
  • Para o Bloco, era um social-liberal frouxo.
  • Para o PCP, irrelevante.
  • Para o Livre, um passado ultrapassado.
Seguro foi apresentado como o exemplo do PS que não serve. Hoje, ironicamente, é o instrumento que permite à esquerda e à extrema-esquerda recuperar fôlego eleitoral, depois de uma sequência de perdas e irrelevâncias. O PS ganha oxigénio. O Bloco evita o colapso. O PCP adia a extinção simbólica. Tudo isto graças a um homem que foi desprezado por esse mesmo campo político.
Não há aqui reconciliação ideológica. Há utilização táctica.
Os ratos do centro-direita
Ao mesmo tempo, assiste-se a um espectáculo particularmente indecoroso: personalidades do centro-direita que até à véspera apoiavam Luís Marques Mendes ou João Cotrim de Figueiredo surgem agora a jurar fidelidade republicana a António José Seguro.
Não mudaram ideias. Mudaram de medo.
  • Medo do isolamento mediático.
  • Medo de não pertencer ao “lado certo”.
  • Medo de assumir escolhas fora do consenso imposto.
São ratos políticos, que abandonam o navio ao primeiro cálculo desfavorável. Mas o eleitor perceberá isso com uma clareza que os comentadores insistem em subestimar.
O efeito colateral: Ventura
Enquanto o sistema se fecha sobre si próprio, uma parte significativa do eleitorado jovem observa e conclui o óbvio: não há alternativa dentro do perímetro permitido. É nesse vazio que André Ventura cresce.
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Para uma geração que nunca viveu um PS moderado, que só conhece Sócrates e Costa, a narrativa do “regresso ao centro-esquerda responsável” soa a ficção tardia. O impulso dado a Seguro pode garantir a vitória imediata. Mas normaliza eleitoralmente o Chega no médio prazo. E depois do tabu quebrado, o voto repete-se com facilidade.

,,,mas Seguro vai ganhar!
Mas ganhará com os restos do sistema, com os que o rejeitaram ontem e com os que fogem hoje. E isso tem custos políticos que não desaparecem com discursos sobre estabilidade ou fantasmas do passado.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

a ver vamos...


Vai já ou fica à espera do resultado da 2ª Volta?

e do Observador não vai ninguém?

previsões no Correio da Manha...a um ano de distancia!

vamos lá ver se este acertou ou se apenas mandou um "bitaite" prós tótós...
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"Tudo indica que a realidade vai acelerar na corrida às presidenciais. É curioso como, quando ainda falta quase um ano para irmos a votos, as eleições para Belém despertam já tanto interesse, tantas movimentações e tantos cálculos políticos. Sinal da importância do cargo. Os portugueses gostam verdadeiramente do Presidente da República que é eleito, independentemente da margem da vitória. Cada Presidente acaba, de uma maneira ou de outra, por ser o Presidente de todos nós, e isso é sintoma do profundo laço emocional que nos une ao chefe do Estado. Por outro lado, o anterior Presidente não se pode recandidatar, e a escolha do senhor que se segue deverá ter implicações para uma década. Será, portanto, uma longa campanha, e o lote de candidatos começa a definir-se. André Ventura promete oficializar em fevereiro. Se houver más sondagens, terá dificuldade em desistir. Marques Mendes é o candidato para manter a Presidência ligada ao PSD. E à direita é tudo, com a eventual junção de um nome liberal para marcar o ponto, tal como, aliás, à esquerda, farão o PCP e o Bloco. Mais a sério, António José Seguro ou Mário Centeno, ou os dois, tentarão o pleno dos votos do PS para conseguirem chegar à segunda volta. Ao lado, ou acima dos partidos, vai correr Gouveia e Melo. Sendo Ventura divisivo, sobram os outros quatro nomes. Um deles deverá ser o próximo chefe do Estado."

palpites!

 


comentariado e jornalistado!

acham que esta sondadeira e este comentador têm condições para continuar a comentar?

pitonisas!


 

lá no paraíso deles, Álvaro Barreirinhas Cunhal, voltará a aconselhar:

"Camaradas, quando forem votar, apontem a caneta e, depois, tapem os olhos."



premonições!

 Manuel Castelo-Branco

Se tudo correr como demonstra a tendência, a 2° volta das Presidenciais será entre Marques Mendes e Seguro. A cereja em cima do bolo seria Cotrim e Ventura a ultrapassar o Almirante. Não é impossível e em certa medida é até desejável.
Neste cenário, qq que fosse a votação de Ventura, mesmo o 3° lugar com menos % que nas legislativas representa uma derrota para o lider do Chega. Em qq caso, a votação de Cotrim demonstra que o candidato tem potencial, apesar de não ser confiável, ja que de dois em dois anos, procura um novo cargo.
No campeonato dos mixurucos da extrema esquerda, tanto me faz, mas o facto de Catarina Martins estar à frente, demonstra o grande erro de Anacleto Louçã ao a ter substituido pela gémea Mortágua.
Vamos acompanhando.
17 Novembro 2025

previsão premonitória para as Eleições Presidenciais 2026

em 05Jan2025 a minha
Previsão dos Resultados das Presidenciais Portugal 25 Jan 2026 – 1 Mar 2026

1ª volta "Ka Malo"              27,84 %

              André Ventura        23,15%

              "An uk as             21,95 %

              "Ó der ico"               7, 07 %

 2ª volta "Ka Malo            58,55 %

              André Ventura        41,45%


domingo, 18 de janeiro de 2026

Jornalismo, activismo e a tentação de substituir o leitor

O artigo de Miguel Morgado que serve de base a esta reflexão acerta num ponto essencial que muitos fingem não ver: a crise do jornalismo contemporâneo não é, antes de mais, tecnológica, nem resulta de um qualquer “algoritmo maligno”. É uma crise moral, epistemológica e, sobretudo, uma crise de missão. O problema não é o excesso de redes sociais; é a demissão de uma parte significativa do jornalismo da função que justificou, historicamente, a sua autoridade.
Durante décadas — séculos, mesmo — a imprensa foi uma das colunas mestras do regime das liberdades. Não porque “defendesse a democracia”, mas porque informava. Não porque educasse moralmente o cidadão, mas porque lhe fornecia matéria-prima factual suficiente para que pudesse formar o seu próprio juízo. O texto recorda bem que a imprensa não sobreviveu à erosão das restantes sedes de autoridade por acaso: sobreviveu porque se impôs como autoridade factual, e não como consciência política substituta.
É aqui que se dá a ruptura contemporânea. Quando o jornalista deixa de se ver como mediador da realidade e passa a encarar-se como “guardião da democracia”, o seu trabalho deixa de ser regido por critérios de verdade factual e passa a ser orientado por juízos normativos. O resultado é inevitável: selecção de temas, enquadramentos enviesados, silêncios estratégicos, amplificações artificiais. Tudo isto não em nome da verdade, mas em nome de uma causa — ainda que apresentada como nobre.
O artigo desmonta com clareza essa confusão fatal. Defender a democracia é um objectivo político legítimo, mas não é um critério jornalístico universal. O que um jornalista considera “defesa da democracia” será sempre discutível, contingente e ideologicamente marcado. Ao assumir esse papel, o jornalista abdica da única coisa que o distingue do activista: a suspensão do juízo político em favor da exposição rigorosa dos factos.

A consequência não é apenas teórica; é prática e visível. A perda acelerada de credibilidade dos media tradicionais não resulta de campanhas externas, nem de populismos digitais, mas da percepção crescente de que a informação deixou de ser apresentada como realidade a conhecer e passou a ser apresentada como realidade a interpretar “correctamente”. Quando isso acontece, o leitor deixa de confiar, não porque discorda das conclusões, mas porque percebe que alguém decidiu pensar por ele.
O exemplo de instituições outrora reputadas, como a BBC, ilustra bem este fenómeno. Ao assumirem explicitamente a missão de “defender a democracia”, acabaram por comprometer a sua própria autoridade factual. Não por conspirarem, mas por confundirem funções: trocaram a exigência da verdade pela pedagogia política.
Miguel Morgado lembra algo fundamental e hoje quase subversivo: a guarda da democracia
não pertence ao jornalista, mas ao cidadão. A imprensa serve a democracia quando informa; trai-a quando tutela. Nenhuma sociedade livre precisa de jornalistas-pastores a conduzir consciências; precisa de jornalistas rigorosos que aceitem a modéstia da sua função.
Num tempo exigente, em que a tentação de “fazer o bem” pela via da manipulação informativa parece irresistível, este texto cumpre uma função saudável e rara: recentra o debate onde ele sempre deveria ter estado. Não na moral do jornalista, mas na sua missão. Não na causa que defende, mas na verdade que relata.
A democracia não se protege infantilizando o público. Protege-se tratando-o como adulto. E isso começa, inevitavelmente, por um jornalismo que volte a saber o que é - e, sobretudo, o que não é.

sábado, 17 de janeiro de 2026

André Ventura contra todos os outros...

Sobre as presidenciais, depois de todos os debates, polémicas e sondagens, só parece haver duas ideias geralmente aceites. A primeira é que André Ventura é o candidato com mais probabilidade de passar à segunda volta. A segunda ideia é que André Ventura é o candidato com menos probabilidade de ser eleito. Entre estes dois lugares-comuns, está desenhado o impasse da política portuguesa.

A primeira opinião traduz o facto de André Ventura ser o único líder político em actividade que interessa aos portugueses. Os debates mais vistos foram aqueles em que ele esteve. E foi curioso ver alguns dos seus rivais adoptarem contra ele os tiques e os truques que lhe são atribuídos: interrupções, elevações da voz, risos. Julgam mesmo que o sucesso de Ventura foi apenas técnica de comunicação. Não percebem que foi uma questão de substância, isto é, que Ventura interessou, não porque tivesse jeito e graça, mas porque falou do que os portugueses estavam a falar: o choque a que o país foi sujeito quando percebeu que os governantes, sem lhe perguntarem, tinham decidido abolir qualquer controle da imigração. Toda a gente falava disso em privado, ninguém falava em público, por receio de ser posto na fogueira como racista ou desumano. Ventura foi o líder político que ousou falar do assunto, e da perspectiva que importa: a da coesão nacional, que é o primeiro pilar da democracia, da segurança e da solidariedade social.
Esqueçam o estilo. Ventura é o único político activo que está associado a uma causa, e mais: à necessidade de manter essa causa, que não é uma causa qualquer, mas existencial, no debate público. Perante Ventura, os demais políticos podiam ter reagido comprometendo-o em políticas públicas de resposta aos problemas; em vez disso, viram apenas a oportunidade de, fazendo dele um monstro a que seria preciso resistir, arranjarem uma maneira de ficarem no poder sem resolverem problema nenhum. Percebe-se que o país não se possa arriscar a não ter André Ventura na segunda volta.
A segunda opinião traduz uma convicção: a de que o país, embora alarmado com o caos migratório, o colapso dos serviços públicos ou a estagnação económica, e, por isso, a precisar de levar André Ventura à segunda volta como testemunha desse alarme, ainda não quer rupturas, e, portanto, acabará por não eleger Ventura. É com o que contam os outros candidatos. Nenhum deles está associado a uma grande causa, nenhum deles prestou um grande serviço ao país, nenhum deles beneficia sequer de grande estima, como Marcelo Rebelo de Sousa quando foi eleito. São apenas candidatos contra André Ventura, e só esperam ser eleitos, não porque o país os deseje como presidentes, mas por não serem Ventura. Cotrim de Figueiredo, que pisou as “linhas vermelhas” por distracção, tentou logo redimir-se, colando-se ao governo de Montenegro (“conte comigo”). Eis o que é o anti-venturismo: a redução da política à defesa mecânica do status quo. É isso que estes candidatos representam da maneira mais indiferenciada. 

Ganharão mesmo, esses anti-Venturas? E se ganharem desta vez, ganharão da próxima? Talvez André Ventura ainda represente, para muitos, um risco. Mas perante a perigosa experiência a que a oligarquia está a sujeitar a sociedade portuguesa, esse risco parecerá, por comparação, cada vez menor. Haverá um momento em que Ventura, por mais controverso, surgirá como o único meio de restaurar a normalidade. Com o seu anti-venturismo tão cínico como bacoco, a oligarquia anda apenas a adiar o dia em que já não conseguirá parar André Ventura.
(imagem acrescentada em 20Jan26)

 

os candidatos para o Pinheiro do Observador...

Luís Marques Mendes reagiu com inesperado amadorismo à polémica sobre a sua vida profissional e as suas ligações políticas. Qualquer pessoa dotada da capacidade para antecipar o óbvio deveria ter percebido há muitos meses que, depois do caso Spinumviva, um candidato com uma empresa familiar que tem como sócios a mulher e os filhos iria ser alvo do mais implacável escrutínio. Além de ter dissolvido a sociedade, Marques Mendes deveria ter tomado a iniciativa de revelar a lista completa dos clientes e de explicar detalhadamente o que fez para cada um deles. Em vez disso, ficou à espera que surgissem as perguntas e as suspeições, como se estivesse a fazer figas para que ninguém se lembrasse de falar sobre o assunto. Podia ter controlado e arrumado o tema, mas ficou a servir de saco de pancada dos adversários.
António José Seguro também teve dificuldades em ver o óbvio. Com o espaço da direita hiperlotado, evidentemente ele devia ter-se apresentado desde o início como o único candidato viável da esquerda. Há aquela frase célebre: “Se anda como um pato, se nada como um pato e se fala como um pato, então é porque é um pato”. Se Seguro foi líder da JS, se foi líder do PS e se fez toda a vida no PS, então é porque é socialista e, por definição, de esquerda. Mas, até chegar a essa conclusão incontestável e começar a apelar ao voto útil de toda a esquerda, António José Seguro embrulhou-se em conversas sobre “gavetas” e sobre a sua irreprimível vontade de agradar à direita desiludida com Marques Mendes.
Henrique Gouveia e Melo também tentou, absurdamente, agradar a toda a gente: aos que odeiam o sistema e aos que idolatram o sistema; aos que adoram Mário Soares e aos que desconfiam de Mário Soares; aos que já votaram no PS, aos que já votaram no PSD, aos que já votaram na IL e aos que já votaram no Chega. O almirante conseguiu o extraordinário feito de fazer com que os eleitores tenham hoje mais dúvidas sobre o que lhe anda na cabeça do que tinham no tempo em que ainda não tinha aberto a boca para falar sobre nada. Ninguém verdadeiramente sabe se um voto em Gouveia e Melo é útil ou pernicioso. Nas presidenciais, queria ser o novo general Ramalho Eanes, mas corre o risco de ser o novo almirante Pinheiro de Azevedo.

André Ventura comportou-se na primeira parte da campanha como a atual líder do Partido Conservador inglês. As pessoas mais próximas de Kemi Badenoch dizem que ela tem a capacidade autodestrutiva de começar uma rixa mesmo numa sala vazia. Como se sabe, o combustível político de André Ventura são os inimigos. Esses inimigos podem ser internos ou externos, mas convém, apesar de tudo, que não sejam totalmente imaginários, para que o líder do Chega não pareça um fantasista ou um charlatão. A dada altura, acalmou-se e disciplinou-se. O seu grande objetivo nesta campanha era convencer os fiéis do Chega de que o voto útil nesta eleição era nele e não no almirante — e tudo indica que conseguiu.

João Cotrim de Figueiredo apostou nos jovens, que, em tese, sentem a liberdade de votar sem se deixarem condicionar por cálculos e contas.
Catarina Martins tentou apresentar-se como a legítima herdeira de Mário Soares e de Jorge Sampaio, ignorando que não é possível passar uma vida inteira a habitar o radicalismo para depois se reclamar como a representante confiável da esquerda moderada e bem comportada.
António Filipe refugiou-se na mais empedernida ortodoxia, tentando assim persuadir os simpatizantes do PCP de que o voto em qualquer outro candidato será uma rendição ao desprezível “consenso neoliberal”.
Jorge Pinto apareceu como o último recurso de um partido que preferia a unidade da esquerda e só apresentou um candidato próprio porque tinha mesmo de ser.
[https://observador.pt/opiniao/estas-presidenciais-vao-ser-as-eleicoes-do-voto-util/]

quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

do "la barrage.fr" às "linhas vermelhas.pt"

França e Portugal: duas presidenciais, o mesmo “sistema imunitário” (e o mesmo risco de falha)
Em França, a presidência é o coração do regime; em Portugal, é a chave de aberturas e fechos (dissolver, vetar, arbitrar). Mas há um traço comum que atravessa Paris e Lisboa: quando surge um candidato que ameaça reordenar o tabuleiro, activa-se a mesma liturgia — o “cordão sanitário” com incenso mediático, a palavra “perigo” em loop, e a velha moral do “voto responsável” a bater à porta do eleitor como Testemunha de Jeová em véspera eleitoral.
Le Pen e Ventura: semelhanças reais, diferenças decisivas
Semelhança principal: ambos são tratados como teste de stress ao regime. Marine Le Pen, no segundo turno de 2017 e 2022, foi o adversário “útil” para reunir contra si uma coligação negativa: não se vota “por” Macron; vota-se “contra” Le Pen. A literatura e a análise pós-eleitoral descrevem bem este mecanismo, onde a competição se organiza menos por adesão do que por repulsa. 
Em Portugal, Ventura encaixa no mesmo molde: chega ao patamar em que a pergunta já não é “se” tem base eleitoral, mas “se” o sistema consegue impedir que essa base se converta em maioria agregada no segundo turno. E os dados recentes apontam para uma eleição fragmentada e para uma segunda volta provável — e, ao mesmo tempo, para um nível de rejeição de Ventura suficientemente alto para tornar difícil ganhar o frente-a-frente final.
Diferença decisiva: em França, o “frente republicana” é um reflexo condicionado antigo e nacional; em Portugal, o anti-Chega é mais recente e mais dependente da engenharia mediática diária (comentariado, jornalistado, “fact-checking” selectivo, indignação por turnos). 
Resultado: o mecanismo pode ser eficaz… mas também pode cansar, e quando cansa transforma-se em combustível.
O papel das imprensas: a França do “barramento” e Portugal do “cerco permanente” 
Imprensa francesa: tende a funcionar como amplificador do “barramento” (la barrage), sobretudo na segunda volta, reforçando a ideia de que há uma fronteira moral a defender — o que facilita a convergência táctica entre campos ideologicamente incompatíveis (do centro liberal à extrema-esquerda). Essa dinâmica ficou visível nos ciclos recentes e ganhou novo relevo com a crise de governabilidade francesa e a reorganização das alianças à esquerda. 
Imprensa portuguesa: faz algo semelhante, mas com um estilo mais “micro-gestão”: não é só “na segunda volta”. É todos os dias, a todas as horas, com o candidato transformado em assunto, e o assunto transformado em alarme. O paradoxo é conhecido: quanto mais o cerco fecha, mais o sitiado consolida a tribo — e depois, para espanto geral, “cresceu nas sondagens”. (Mistério insondável: ninguém sabe porquê. Nem o painel de comentadores. Nem o painel de comentadores do painel de comentadores.)
E aqui há um detalhe moderno: Ventura não depende apenas dos canais tradicionais; usa-os como matéria-prima para circular nas redes, recortando, reenquadrando e devolvendo ao público sob a forma de “prova” de perseguição. Há investigação académica recente exactamente sobre este padrão de uso de notícias e redes por Ventura enquanto “gatekeeper”. 
A “rejeição” de Le Pen e o risco do efeito bumerangue
O “modelo francês” tem funcionado assim: Le Pen chega ao segundo turno; o sistema une-se; Le Pen perde. Só que, quando se repete demais, a fórmula envelhece. E o envelhecimento acelera quando:
a crise do custo de vida não abranda;
a imigração e a segurança permanecem no centro do quotidiano;
a esquerda radical é percebida como sócia táctica do “sistema” para bloquear a direita populista (mesmo quando diz odiar o “sistema”). 
Em França, este quadro é agravado por um factor objectivo e explosivo que a esquerda tem tentado em Portugal: a incerteza jurídica sobre a própria elegibilidade de Marine Le Pen para 2027, por via do processo e do recurso em curso. Se Le Pen ficar impedida, a sucessão interna (Bardella) pode mudar o estilo e a eficácia eleitoral do RN. 
Ou seja: o “barramento” pode voltar a funcionar… mas também pode falhar por saturação, ou por substituição de rosto e estratégia.

Pode acontecer “uma França” em Portugal?
Sim — mas com especificidade portuguesa.
O cenário “França”: Ventura passa à segunda volta; junta-se um bloco “anti” (do centrão à esquerda) para o travar; Ventura perde, mas sai reforçado politicamente porque normaliza o Chega como pólo inevitável do sistema. Isto é praticamente o equivalente funcional do que sucedeu em França (perder e crescer), adaptado ao nosso semi-presidencialismo. E o próprio retrato recente da corrida portuguesa sugere exactamente a combinação “segunda volta provável + rejeição elevada” que alimenta esse desfecho. 
O cenário “fadiga das ”linhas vermelhas": a campanha anti-Ventura atinge tal nível de histeria que se torna contraproducente; parte do eleitorado não “converte” no segundo turno e escolhe abstenção ou voto de protesto. Numa eleição com fragmentação e cansaço, isto pode apertar perigosamente o resultado.
O cenário chamemos-lhe o “acidente de regime”: uma segunda volta Ventura vs. candidato do “centrão” com baixa capacidade de mobilização emocional; a máquina mediática faz o que sabe, mas não consegue entusiasmar o eleitorado “anti” tradicionalmente abstencionista - e, quando o anti não sai de casa, a matemática torna-se cruel.

Premonições: 
Com a informação pública disponível hoje, a aposta mais prudente é:
  • Ventura tem probabilidade alta de chegar à segunda volta, porque a fragmentação empurra os votos para três ou quatro pólos e ele tem um eleitorado muito identificado. 
  • Ganhar a segunda volta é mais difícil, precisamente por causa da rejeição elevada e do reflexo de “todos contra”.
A consequência política, mesmo numa derrota, pode ser grande: o Chega passará a ser o eixo em torno do qual a direita e o centrão se reorganizam (uns por aproximação táctica, outros por exclusão ritual). E a médio prazo isto empurra Portugal para o mesmo dilema francês: ou o sistema reforma as suas falhas (custos, serviços públicos, imigração, segurança, justiça), ou continuará a fabricar candidatos que diz abominar.

A Europa terá nestas presidenciais (em França e em Portugal) um barómetro:
  • Se o “cordão” vencer sempre, Bruxelas respira — mas a pressão social acumula-se por baixo.
  • Se o “cordão” falhar uma vez, a mudança pode ser abrupta, e a UE terá de lidar com governos e maiorias mais soberanistas, mais conflituais e menos disponíveis para a moralização permanente de tudo.
Em suma: França e Portugal não são cópias — mas rimam. E, quando a história rima demasiadas vezes, há dias em que deixa de ser poesia e passa a ser contabilidade eleitoral.

André Ventura, “o anti-sistema” | Presidenciais 2026

como é visto pelo comentariado e jornalistado do sistema!  
A história começa nas eleições autárquicas de 2017: André Ventura, candidato desconhecido do PSD à Câmara Municipal de Loures, dá uma entrevista onde faz declarações polémicas sobre a comunidade cigana. Perdeu essas eleições, mas daí nasceu o Chega, que é hoje a segunda maior força política do país. Omnipresente e inescapável, é um enviado de Deus para uns e fascista para outros. Que história conta o percurso político do candidato "anti-sistema" desta corrida presidencial?

Presidenciais: Chegou a altura de conferir o comentário do "comentador"

Após leitura atenta, hesitei entre a pitonisa de Delfos e o Tullius Détritus enviado especial de César…
Estávamos em 31 de Maio de 2025 quando o Miguel Pinheiro 
escrevia no Observador :
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Numa frase: mesmo que não queira, e mesmo recebendo uma maioria de votos do PSD e do PS, Gouveia e Melo mobilizará também uma gigantesca fatia dos eleitores do Chega. E será visto pelos próprios como o Presidente deles.”

André Ventura está indeciso sobre o que fazer nas presidenciais. Pode avançar como candidato para tentar segurar o eleitorado do Chega, mas há a hipótese de ser humilhado no dia do voto. Pode enviar um soldado raso para a campanha, mas fica com a certeza de que o resultado será uma pequena vergonha. Pode declarar o apoio a Gouveia e Melo, mas arrisca-se a ser ignorado ou, pior, rejeitado. A primeira hipótese é má, a segunda é péssima, a terceira é potencialmente catastrófica.”
Gouveia e Melo mobilizará também uma gigantesca fatia dos eleitores do Chega. E será visto pelos próprios como o Presidente deles. “
A partir de Março do próximo ano, esses 1,5 milhões de eleitores passarão a ter dois líderes, um formal e outro informal: no Palácio de São Bento, André Ventura; no Palácio de Belém, Gouveia e Melo.”

domingo, 11 de janeiro de 2026

Entre o pântano e a pedrada no charco

(Um comentário ao artigo de Jaime Nogueira Pinto Entre o centrão e o voto útil )

Há textos que não pretendem convencer: pretendem desencantar. O artigo de Jaime Nogueira Pinto inscreve-se nessa linhagem rara — a dos textos que recusam discutir apenas quem aparece nas urnas e insistem em perguntar porquê. Porque razão surgem figuras como Trump, Ventura ou Le Pen? Porque razão a política, em largas camadas do eleitorado, deixou de ser escolha e passou a ser fastio?

resposta é incómoda para o comentário bem-pensante: não foram estas figuras que deformaram o sistema; foi o sistema que, ao estagnar, as tornou inevitáveis.
chamado centrão — essa zona morna onde tudo se mistura sem nunca verdadeiramente decidir — transformou a política num pântano. Um espaço onde abundam candidaturas “úteis” apenas no sentido táctico, desprovidas de densidade histórica, cultural ou civilizacional. Um espaço onde se vota não por esperança, mas por medo; não por convicção, mas por cálculo.
É neste contexto que a análise de Jaime Nogueira Pinto se torna particularmente certeira: à Direita conservadora e -a popular resta uma única opção real — André Ventura. Não por fetichismo pessoal, mas por coerência estrutural. Porque, ao contrário do centrão fragmentado em quatro candidaturas intercambiáveis, este espaço político reconhece que sem ruptura não há alternativa.
A reacção histérica do sistema confirma o diagnóstico. Tal como em França, onde Marine Le Pen venceu primeiras voltas para depois ser travada por frentes artificiais “antifascistas”, também entre nós se prepara o mesmo reflexo condicionado: unir tudo e todos contra quem ousa mexer na água parada. Não é uma defesa da democracia; é a sua mumificação. Mais grave ainda é a ilusão persistente da Esquerda mediática. Partidos que hoje mal somam dois dígitos comportam-se como se representassem metade do país. Falam alto porque sempre falaram alto; ocupam espaço porque nunca aprenderam a desocupá-lo. A História recente — de 1974 a 1975 — não é uma nota de rodapé: é uma herança mal digerida, agora lentamente percebida por um eleitorado que começa a ligar os pontos. 

A chamada “pedra no charco” não é um capricho populista. É o último recurso de um sistema fechado sobre si próprio. Ventura - com todas as imperfeições que um político real inevitavelmente tem — percebeu algo que a direita envergonhada recusou durante décadas: valores não são propriedade de regimes mortos, nem conceitos como Nação, Família ou soberania são monopólio do passado. Podem - e devem - ser defendidos em democracia. 
Por isso, o espanto fingido perante figuras como Trump ou Ventura é, no fundo, um acto de má-fé. Continuam a perguntar como foram possíveis, porque não querem perguntar que mundo os tornou necessários. Um mundo onde a ordem liberal morreu, mas os seus administradores insistem em governar como se ainda respirasse.

Quando o pântano se instala, a pedra no charco deixa de ser excentricidade. Passa a ser sinal de vida.

sábado, 10 de janeiro de 2026

Jornalistas actuais a matar o futuro dos jornalistas futuros

Há um vício antigo no jornalismo português que, nos últimos anos, degenerou em patologia profissional: a convicção de que a política falha porque não produz personagens à altura da memória sentimental das redacções. Surgiu mais um artigo de Miguel Pinheiro é um case study dessa doença.

Pinheiro não analisa a realidade. Mede o presente com régua do passado e, como era previsível, conclui que tudo é pequeno. O problema não é a conclusão; é o pressuposto. Líderes não aparecem porque comentadores os invocam, nem porque jornalistas sentem a sua falta. Os líderes surgem quando o sistema entra em ruptura e precisa deles. Antes disso, são apenas impossibilidades históricas.
Os nomes citados — Sá Carneiro, Cavaco Silva, Passos Coelho — não são prova de decadência. São prova exactamente do contrário: cada um apareceu quando foi funcional ao sistema. Sá Carneiro serviu a fundação; Cavaco a estabilização; Passos a emergência. Nenhum deles foi produto de saudade, comparação ou desejo mediático. Foram respostas duras a tempos duros.
O erro de Pinheiro é o mesmo erro estrutural do centrão que tantas vezes desmontaste no ReVisões: imaginar que a política é um exercício de continuidade civilizada, quando o país vive há anos num pântano de estagnação, bloqueio institucional e medo de ruptura. Um centrão que governa, comenta e julga — e que depois se espanta quando surgem figuras que não pedem licença.

É aqui que entra o ponto que Jaime Nogueira Pinto percebe e Pinheiro não: 
Ventura não é um acidente; é um sintoma. Um sintoma de um sistema que já não responde, de uma ordem liberal esgotada, de uma política reduzida à gestão moral e à chantagem simbólica. Quando tudo é consensual, só o excesso rompe o silêncio.
Ao escrever como escreve, Pinheiro não critica a ausência de líderes — legitima o vazio. Porque substitui análise por nostalgia, conflito por comparação histórica, realidade por mitologia política. É o mesmo jornalismo que normalizou a judicialização da política, que aplaude tribunais quando corrigem votos, que prefere decisões técnicas a escolhas populares — e que depois se indigna quando o povo escolhe mal.
Este jornalismo não forma leitores. Forma órfãos. E, pior ainda, forma jornalistas futuros convencidos de que pensar é comparar, analisar é desvalorizar e compreender é recordar. Assim não se interpreta a História. Assim arquiva-se o presente — ainda vivo.

E um jornalismo que arquiva o presente acaba inevitavelmente ultrapassado por ele.

quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

Mayor muçulmano em Nova Iorque. Uma visão hungara!

O que aconteceu em Nova Iorque é um sinal sério de civilização. Zohran Mamdani, um político abertamente marxista e de extrema-esquerda, fez seu juramento como prefeito do Alcorão, e assim quebrou não apenas o senso religioso, mas ideológico, a ordem centenária do mundo ocidental.
Zohran Mamdani é um ativista de extrema-esquerda em ascensão que previamente defendeu o enfraquecimento do papel da polícia, a "redistribuição" de bens e o impulso da política de identidade de extrema-esquerda. Ele regularmente relativiza o crime e defende os autores por razões sociais. Sua agenda não está centrada na ordem, valorização do trabalho ou segurança da classe média, mas em experiências radicais que já levaram ao caos na segurança pública, guetoismo e imigração de pessoas trabalhadores em muitas cidades da Europa e América.

A Hungria deixa claro: é completamente natural e correto um líder jurar sobre a Bíblia numa civilização com raízes cristãs. A Bíblia é a base da moralidade ocidental, do senso de estado e da ordem da lei - portanto, o juramento feito a ela está de acordo com a identidade religiosa e cultural do Ocidente. Jurar sobre o Alcorão é uma questão completamente diferente. A rejeição disto não é, obviamente, a rejeição da fé pessoal dos muçulmanos, mas sim o facto de o sistema de direito religioso islâmico estar em forte contradição com a maioria dos valores morais e políticos ocidentais. Não é coincidência que nos países muçulmanos seria impossível jurar sobre a Bíblia a um líder de estado. Culturas não precisam ser trocadas. O que é natural não é isso aqui - e vice-versa.
De acordo com Our Country, um dos sintomas mais espetaculares da crise no mundo ocidental é o facto de ela nega suas próprias fundações: coloca marxistas no poder, relativiza o cristianismo, enquanto se retira para outras religiões e ideologias. Nós defendemos a proteção da civilização cristã, o direito à auto-identidade nacional, ordem e auto-defesa cultural. Respeitamos as crenças dos outros povos, mas não vamos desistir das nossas e não vamos permitir que a Europa ou o mundo ocidental se tornem numa área sem identidade e sem raízes. O nosso país não é negociável nesta questão: queremos uma civilização cristã, não um caos marxista e uma auto-submissão religiosa e cultural!

segunda-feira, 5 de janeiro de 2026

Quando a hipocrisia fala mais alto do que a liberdade...

A queda de um ditador deveria ser, numa democracia liberal, um momento de clareza moral. Um instante raro em que as diferenças ideológicas se suspendem perante um facto simples: um regime opressivo termina, um povo livra-se de um poder ilegítimo, e o mundo torna-se, ainda que imperfeitamente, um lugar menos injusto. No caso da Venezuela, nada disso aconteceu. Pelo menos não em Portugal.
Perante o colapso do regime de Nicolás Maduro, assistiu-se antes a um espectáculo de hesitação, desconforto e racionalização. Ninguém ousou defender abertamente o ditador, é certo. Mas muitos apressaram-se a explicar por que razão a sua queda era, afinal, problemática. O argumento-chave foi o de sempre: o sacrossanto “direito internacional”, invocado selectivamente, como arma retórica, não como princípio coerente.
Esta reacção revela uma profunda hipocrisia. Os mesmos que hoje erguem o direito internacional como um dogma absoluto nunca o mobilizaram com igual zelo para condenar a ditadura venezuelana, as eleições fraudulentas, a repressão política, a miséria imposta a milhões ou o êxodo massivo da população. O direito internacional só se torna súbita e miraculosamente relevante quando serve para travar uma acção americana — sobretudo se essa acção estiver associada a Donald Trump.

É aqui que entra o conhecido Trump Derangement Syndrome (TDS): a incapacidade de avaliar qualquer acontecimento internacional fora do reflexo pavloviano do anti-trumpismo. Tudo o que Trump faz está mal por definição; tudo o que os Estados Unidos fazem é suspeito à partida. A análise deixa de ser política ou estratégica e passa a ser emocional, moralista e previsível.
Daí surgirem comparações absurdas, como a equiparação entre a intervenção americana na Venezuela e a invasão russa da Ucrânia. A comparação não resiste a uma análise minimamente séria. Na Ucrânia, uma democracia foi atacada por uma ditadura, resultando numa guerra prolongada, centenas de milhares de mortos e milhões de refugiados. Na Venezuela, uma ditadura foi derrubada, sem vítimas civis, por uma acção cirúrgica que pôs termo a um regime ilegítimo. Confundir estes dois cenários é mais do que erro: é cegueira ideológica.
Também se ignoram factos politicamente incómodos. Maduro sempre apoiou a Rússia na agressão à Ucrânia. Nunca manifestou solidariedade com os ucranianos. Ainda assim, muitos dos que hoje choram o “direito internacional” parecem mais indignados com Washington do que alguma vez estiveram com Moscovo ou Caracas.
A insensibilidade em relação aos portugueses da Venezuela é outro aspecto revelador. Durante anos, milhares viveram sob um regime que destruiu a economia, corroeu a segurança e forçou a emigração em massa. Ainda assim, figuras da política portuguesa preferiram condenar a intervenção americana a celebrar o fim de um poder que directamente afectou compatriotas seus. Para alguns, Maduro era um mal menor face ao pecado original de uma acção liderada pelos EUA.
Há, ainda, a leitura geopolítica simplista que anuncia o fim da ordem internacional e a legitimação das “esferas de influência” da Rússia e da China. Mas essa leitura ignora que a intervenção na Venezuela pode precisamente reforçar a posição americana, enfraquecer a China enquanto potencial aliada energética de Caracas, pressionar a Rússia através do mercado petrolífero e expor, mais uma vez, a irrelevância estratégica da Europa, dividida entre a submissão envergonhada e a indignação retórica.
O mundo mudou. As organizações internacionais estão fragilizadas, a Europa fala muito e pesa pouco, e o idealismo jurídico já não substitui o poder real. Lamentar isso não o faz desaparecer. Recusar-se a pensar o mundo como ele é, preferindo fantasias morais selectivas, apenas garante mais irrelevância.
A queda de um ditador é sempre motivo de alegria. Tudo o resto — as reticências, as comparações delirantes, as invocações selectivas do direito internacional — diz mais sobre quem comenta do que sobre o acontecimento em si. Talvez seja tempo de abandonar preconceitos automáticos, olhar os factos de frente e reconhecer uma verdade simples: nem tudo o que desagrada às esquerdas é um erro histórico, e nem toda a acção americana é, por definição, um crime moral.

sexta-feira, 2 de janeiro de 2026

o relatório "O Mundo à Frente" do The Economist

"2026 será um ano de incertezas, à medida que a reformulação das normas geopolíticas, diplomáticas e comerciais por Donald Trump continua a causar repercussões globais — e mantém o presidente sob os holofotes do mundo. Mas também promete ser um ano que nos mostrará para onde o mundo está caminhando. A guerra comercial causará uma desaceleração econômica? A inteligência artificial gerará um boom, uma crise ou uma reação negativa? A abordagem não convencional de Trump à diplomacia trará mudanças duradouras para o Oriente Médio? Os mercados de títulos imporão restrições aos países ricos que vivem além de suas possibilidades? As respostas a essas perguntas determinarão como os assuntos globais se desenrolarão nos próximos anos. O relatório 'O Mundo à Frente 2026' apresenta nossa análise dessas e de outras tendências, bem como os desafios e oportunidades que elas representam para países, empresas e cidadãos no próximo ano."
Na sua 40ª edição, o relatório "O Mundo à Frente" aborda uma ampla gama de tópicos, mas seus dez principais temas para 2026 são os seguintes:
1. 250º aniversário da América. Prepare-se para ouvir relatos extremamente divergentes sobre o passado, o presente e o futuro dos Estados Unidos, à medida que republicanos e democratas descrevem o mesmo país em termos irreconciliáveis ​​para marcar o 250º aniversário de sua fundação.
2. Deriva geopolítica. Os analistas de política externa estão divididos: o mundo está em uma nova guerra fria, entre blocos liderados pelos Estados Unidos e pela China, ou um acordo trumpiano dividirá o planeta em “esferas de influência” americana, russa e chinesa, nas quais cada uma poderá fazer o que bem entender? Não conte com nenhuma das duas opções.
3. Guerra ou paz? Sim. Com sorte, a frágil paz em Gaza se manterá. Mas os conflitos persistirão na Ucrânia, no Sudão e em Mianmar. A Rússia e a China testarão o compromisso dos Estados Unidos com seus aliados com provocações na "zona cinzenta" no norte da Europa e no Mar da China Meridional. À medida que a linha entre guerra e paz se torna cada vez mais tênue, as tensões aumentarão no Ártico, em órbita, no fundo do mar e no ciberespaço.
4. Problemas para a Europa. Tudo isso representa um desafio particular para a Europa. Ela precisa aumentar os gastos com defesa, manter o apoio dos Estados Unidos, impulsionar o crescimento econômico e lidar com déficits enormes, mesmo que a austeridade corra o risco de fortalecer o apoio a partidos de extrema-direita. Além disso, deseja continuar sendo uma das principais defensoras do livre comércio e do meio ambiente. Não pode fazer tudo isso ao mesmo tempo.
5. A oportunidade da China. A China tem seus próprios problemas, como deflação, crescimento lento e excesso de produção industrial, mas a política "América Primeiro" do Sr. Trump abre novas oportunidades para a China aumentar sua influência global.
6. Preocupações econômicas. Até agora, a economia americana está se mostrando mais resiliente do que muitos esperavam em relação às tarifas do Sr. Trump, mas elas irão prejudicar o crescimento global. E, com os países ricos vivendo acima de suas possibilidades, o risco de uma crise no mercado de títulos está aumentando.
7. Preocupações com a IA. Os gastos desenfreados em infraestrutura para inteligência artificial podem estar mascarando a fragilidade econômica nos Estados Unidos. Será que a bolha vai estourar?
8. Um cenário climático misto. Limitar o aquecimento a 1,5°C está fora de questão, e o Sr. Trump detesta energias renováveis. Mas as emissões globais provavelmente já atingiram o pico, a tecnologia limpa está em plena expansão no hemisfério sul e as empresas cumprirão ou superarão suas metas climáticas — mas manterão silêncio sobre isso para evitar a ira do Sr. Trump. A energia geotérmica merece atenção.
9. Valores esportivos. O esporte geralmente oferece uma pausa da política — mas talvez não em 2026. A Copa do Mundo de futebol será sediada em conjunto por Estados Unidos, Canadá e México, cujas relações estão tensas. Os torcedores podem se manter afastados. Os Jogos Aprimorados, em Las Vegas, podem ser ainda mais controversos: os atletas podem usar substâncias para melhorar o desempenho. É tramóia — ou apenas diferente?
10. Ozempic, só que melhor. Medicamentos para emagrecer à base de GLP-1 melhores e mais baratos estão chegando, inclusive em comprimidos. Isso ampliará o acesso. Mas será que tomá-los também é tramóia?

A edição deste ano inclui uma seção especial, “Mapeando 2026”, que considera a intrigante importância da geografia em uma série de temas globais, explicando cada um deles por meio de um mapa. 

quinta-feira, 1 de janeiro de 2026

A Pirâmide de Kelsen invertida: quando 1976 julga 2026

Há uma imagem simples — quase escolar — que explica uma parte grande do nosso mal-estar político contemporâneo: a Pirâmide de Kelsen. No topo, a Constituição; no meio, as leis; na base, os costumes, a moral social, a vida real que muda todos os dias e que, por definição, não pede licença a nenhum jurista para evoluir.
A ideia é clara: a Constituição é a norma superior que dá coerência ao sistema. Só que, cinquenta anos depois, Portugal tem vindo a descobrir uma ironia amarga: a pirâmide continua de pé, mas o sentido prático do edifício foi, discretamente, invertido.
Em vez de a Constituição ser o topo que organiza o resto, tornou-se — em demasiados momentos — um tecto baixo que impede o País de crescer. E o Tribunal Constitucional, em vez de guardião prudente da coerência, começa a funcionar como um cofre onde a vontade de 1976 é “sagrada”, e a vontade de 2026 é “suspeita”.

A pirâmide, como deveria ser — e como passou a ser
Kelsen não desenhou uma caricatura política; desenhou uma hierarquia lógica. A Constituição está no topo, porque é a moldura; as leis estão no meio, porque concretizam; e a base (costumes, julgamentos, normas secundárias) é o campo vivo onde uma comunidade se reconhece e se regula no quotidiano.
Mas o que sucede quando a base social muda radicalmente e o topo permanece preso ao vocabulário moral, ideológico e antropológico de um outro século?
Sucede o que temos: conflitos constantes entre uma maioria parlamentar do presente e uma maioria constituinte do passado, com um árbitro que, por missão, protege o texto antigo — e, por tentação, começa a proteger também o “espírito” antigo, como se fosse uma relíquia.
E aqui está o ponto decisivo: não é preciso negar o valor de uma Constituição para reconhecer o absurdo de a tratar como uma urna funerária. Uma comunidade política não é um museu; é uma continuidade viva. E um texto fundador não pode ser, ao fim de meio século, o instrumento pelo qual se impede a comunidade de se actualizar.

1976 não foi “ontem”: foi outro País 
Quem insiste em julgar 2026 com o olhar de 1976 faz, de facto, um exercício de arqueologia jurídica. Em 1976, a democracia portuguesa estava mobilizada, ideologizada, e ainda com o cheiro do PREC nos corredores. A linguagem constitucional carregava o peso de um tempo: a desconfiança perante a propriedade, a mitologia do “social” como destino obrigatório, a tentação planificadora, a sombra “cripto-soviética” — que as revisões de 1982, por mais importantes, não removeram por completo na sua filosofia de fundo.
Hoje, meio século depois, a realidade portuguesa é outra em quatro dimensões óbvias (e bastariam estas quatro para exigir humildade interpretativa):
  • Família: deixou de ser uma instituição rígida e tornou-se um projecto flexível, pressionado por economia, cultura e escolhas individuais. A Constituição de 1976 fala muitas vezes como se a sociedade estivesse parada num postal antigo.
  • Política: passámos de uma democracia de militância para uma democracia mediada por tecnologia, fatigada, com eleitorados voláteis e com novas fracturas. A “representação” já não se vive como em 1976, nem a legitimidade social se deposita da mesma forma.
  • Linguagem: a língua tornou-se mais rápida, mais permeável, mais plural — e a política acompanha isso. O País discute-se hoje em redes, em clips, em frases curtas; e a Constituição continua muitas vezes a discursar num tom de catecismo de outra era.
  • Tecnologia: Portugal é hoje um país altamente digitalizado. O trabalho, o consumo, a relação com o Estado, a própria intimidade e o espaço público foram reconfigurados. Um texto fundador que não compreenda o digital está condenado a ser interpretado por analogia… e a analogia, quando é permanente, vira arbitrariedade.
Ora, se o País mudou assim, o que significa ter um Tribunal Constitucional onde 13 juízes julgam — frequentemente — como se estas transformações fossem detalhes laterais?
Significa que o topo da pirâmide passou a ignorar a base. E quando o topo ignora a base durante demasiado tempo, deixa de ser topo: passa a ser obstáculo.

A “tirania dos mortos” e o oráculo do Palácio Ratton
Há um argumento desconfortável — mas intelectualmente honesto — que tem vindo a reaparecer: quando uma lei aprovada por uma maioria parlamentar actual é chumbada por inconstitucionalidade, o que ocorre é um confronto entre a maioria do presente e a maioria do passado. E a do passado tem uma vantagem colossal: não muda, não responde perante ninguém, não se submete ao desgaste do real.
É aqui que o Tribunal Constitucional começa a ganhar “ares de oráculo”. Não porque os juízes sejam maus por natureza, mas porque o sistema os coloca na posição impossível de serem, simultaneamente, intérpretes e guardiães de uma vontade que já não pode ser consultada. E quanto mais envelhece a Constituição, mais esta posição se aproxima do absurdo político: deputados eleitos vão pedir autorização para legislar a 13 pessoas que, por definição, não representam a vontade popular do presente — representam a coerência do texto do passado.
Isto não é uma acusação moral; é um diagnóstico estrutural.
E quando a estrutura produz sistematicamente frustração democrática, o problema deixa de ser “a lei concreta” e passa a ser o modelo: o próprio constitucionalismo, na sua versão sacralizada, transforma-se numa máquina de congelar o tempo.

O problema não é haver Constituição. É haver intocabilidade.
Convém não cair na facilidade de gritar “abaixo a Constituição!”, como se a alternativa fosse o improviso. Não é. Uma Constituição é necessária. O Tribunal Constitucional é necessário. E a fiscalização de constitucionalidade é necessária.
O problema é outro: é a pretensão de que um texto, por ser fundador, tem direito a governar para sempre. E que a interpretação desse texto pode permanecer impermeável às alterações demográficas, sociais, culturais e eleitorais.
Ora, o século XXI trouxe-nos duas realidades que o século XX não conhecia nesta escala:
Mudança demográfica acelerada (com impactos na identidade cívica, na coesão cultural, na pressão sobre o Estado social e na própria noção de pertença).
Mudança tecnológica total (que transforma direitos, deveres, soberania, privacidade, propaganda, manipulação e decisão política).
Uma Constituição que não tenha mecanismos claros de actualização — e um tribunal que não assuma uma hermenêutica capaz de integrar o presente — arrisca-se a produzir um efeito perverso: deslegitimar a própria ideia constitucional, porque o cidadão comum começa a sentir que “a lei suprema” não protege o País — protege um passado.

O que fazer: actualizar sem destruir
Há várias vias, e nem todas exigem revoluções.
  • Revisões constitucionais mais regulares e menos tabu
  • Não para “mudar tudo”, mas para retirar da Constituição aquilo que é programa ideológico datado e que deveria estar no debate político normal.
  • Critérios de interpretação mais assumidamente evolutivos
  • A Constituição não é um fóssil; é um quadro de princípios. Um Tribunal Constitucional pode (e deve) interpretar princípios à luz do contexto contemporâneo, sem trair a letra. A alternativa é a Constituição virar pretexto para veto permanente.
  • Maior transparência e responsabilidade na escolha dos juízes
  • Sem cair na politização grosseira, é legítimo exigir que um órgão com tamanho poder tenha processos de nomeação que reduzam a sensação de “casta” e aumentem a confiança pública.
  • Clarificação do que é constitucional e do que é política
  • Quanto mais a Constituição se enche de política do dia-a-dia, mais o Tribunal se torna legislador negativo. E quanto mais se torna legislador, mais se aproxima do conflito com o voto.
A conclusão que ninguém quer dizer em voz alta
A democracia não é apenas votar. Mas também não é pedir licença aos mortos.
Se a Constituição de 1976, com a sua filosofia de século XX, continuar a funcionar como um travão permanente à deliberação do século XXI, o resultado não será “mais constitucionalismo”: será mais descrença. E quando a descrença cresce, o cidadão não lê Kelsen, não cita doutrinas, não quer saber de tecnicalidades: conclui, simplesmente, que o sistema não o deixa governar-se.
A Pirâmide de Kelsen foi pensada para dar ordem. Entre nós, corre o risco de se transformar numa hierarquia de bloqueio, onde a vida real — a base — é obrigada a caber num texto que já não a descreve.
E, a certa altura, a pergunta deixa de ser “isto é constitucional?” e passa a ser: faz sentido que continue a ser constitucional assim?
Porque uma Constituição que não consegue acompanhar o País não é apenas antiga. É perigosa. Não por ser má, mas por se tornar irrelevante — e nada é mais perigoso numa democracia do que a irrelevância das suas fundações.