segunda-feira, 22 de dezembro de 2025

para conferir o que "eles" bitaitam!!!

“Estamos a enfrentar mudanças muito grandes, passaremos da era da guerra para a era da pz”, disse Orbán na sua tradicional conferência de imprensa de final do ano, ao falar sobre as recentes eleições nos Estados Unidos da América.

Segundo o primeiro-ministro da Hungria, se o novo presidente dos EUA, que tomará posse em 20 de janeiro, “fizer apenas parte do que prometeu o mundo enfrentará mudanças tremendas”.
Orbán mencionou, entre outros, que a nova realidade mudará a forma de pensar a família, as políticas de género, a guerra ou a economia.

Sobre estas questões, Orbán e Trump defendem valores muito semelhantes, centrados na importância da visão tradicional da família e na crítica às políticas de género. Ambos apelam a um cessar-fogo imediato na Ucrânia.

Pitonisas Rascas!

a desinformação a que temos direito
há 5 meses as putanisas na XIC anunciavam que



Em Portugal, a pergunta já não é se a mudança vem - é quando!

Em Espanha uma mudança de ciclo está no ar e vem a toda velocidade!
Há noites eleitorais em que os comentadores pedem sais de cheiro; e há outras em que, subitamente, vêem tudo com uma nitidez comovente. Desta vez, em Espanha, a clarividência chegou cedo. A era de Pedro Sánchez não terminou por causa de algoritmos malévolos nem por um súbito ataque de “raiva popular”. Terminou porque a realidade tem o mau hábito de bater à porta quando a propaganda já só fala sozinha.
O essencial não é a dimensão da vitória do Partido Popular; é a dimensão da derrota do PSOE no seu antigo reduto. A Extremadura, durante décadas moldada à imagem do socialismo espanhol, resolveu lembrar que hegemonias não são direitos adquiridos. O mapa político virou, e virou sem pedir licença aos analistas de sofá.
Durante anos, explicou-se tudo com a cartilha habitual: país cansado, polarização tóxica, eleitores manipulados. Tudo menos admitir que governar é decidir — e decidir tem custos. A polarização, cuidadosamente encenada para enfraquecer o PP e empurrar votos para o Vox, acabou por produzir um efeito bumerangue: o colapso histórico do PSOE numa região que julgava cativa. Quando a política se reduz a demonizar o voto alheio, o eleitor aprende depressa a responder no único idioma que conta.

Há, claro, problemas à direita. O PP enfrenta o dilema clássico de quem vence mas nãodomina todo o seu flanco; e decisões como as de María Guardiola mostram como um passo em falso pode custar capital político. Ainda assim, a fotografia geral é inequívoca: a Espanha de amanhã está a formar-se apesar de quem a detesta — e apesar dos que insistem em dizer às pessoas que estão erradas.

E em Portugal? Convém não fingir distração. Também por cá se confundiu governo com moralização permanente, divergência com extremismo, voto popular com erro a corrigir. Também por cá se apostou na pedagogia do insulto e na esperança de que o tempo resolvesse o que a política evitou resolver. Espanha mostra que não resolve.
A lição não é importar receitas, mas reconhecer padrões. Quando partidos se fecham numa bolha de certeza moral, quando tratam antigos bastiões como propriedade privada, quando substituem resultados por narrativas, o ciclo muda — rápido e sem sentimentalismos. A Extremadura não “radicalizou”; respondeu. E respostas assim atravessam fronteiras.

O aviso está dado: quem preferir explicar o eleitor em vez de o ouvir, acabará explicado por ele. Em Espanha, o relógio acelerou. 
Em Portugal, a pergunta já não é se a mudança vem - é quando.

domingo, 21 de dezembro de 2025

I N V E R N O !

 

imigração ucraniana: memória curta, lição longa!

As recentes declarações de Volodymyr Zelensky, apelando à participação de Portugal na reconstrução da Ucrânia, são um bom pretexto para recordar um capítulo que o País parece ter esquecido depressa: a imigração ucraniana dos anos 90 que deixou saudades e uma  terceira geração já portuguesa

Entre 1995 e 1999, começaram a chegar a Portugal milhares de ucranianos, integrando a
vaga pós-soviética do Leste europeu. Vieram para trabalhar — e trabalharam onde era preciso: construção civil, obras públicas e limpezas. Vieram também para aguentar o que muitos portugueses já não aceitavam: salários baixos, subempreitadas abusivas, precariedade e atrasos na regularização.
Portugal precisava de mão-de-obra e tinha então uma legislação mais permissiva do que outros países europeus. A combinação foi explosiva: os homens nos estaleiros, as mulheres nas limpezas, muitos em regime informal, quase todos invisíveis ao discurso público. Não houve indignações televisivas nem histerias identitárias. Houve, isso sim, trabalho duro e silêncio.
Convém lembrar um dado frequentemente omitido: o perfil educacional da comunidade ucraniana era elevado. Engenheiros, técnicos, médicos e professores aceitaram tarefas manuais como porta de entrada num país que lhes oferecia segurança e rendimento, ainda que à custa da desqualificação profissional. 
Apesar disso, começaram cedo a organizar-se: associações culturais, redes de apoio, ligação à Embaixada, frequência do ensino português e integração sem alarido.

Os números mais expressivos viriam já nos anos 2000 — em 2002, os ucranianos chegaram a ser a maior comunidade estrangeira em Portugal —, mas foi no final dos anos 90 que tudo começou. Foi aí que se testou, na prática, a capacidade de integração, a disciplina laboral e o contributo real de uma imigração que não pediu privilégios, apenas espaço para trabalhar.

Vale a pena recordar isto hoje, quando se fala de imigração de forma abstracta e moralista. A experiência ucraniana mostra que integração não se decreta, constrói-se: com trabalho, regras claras e exigência mútua. E lembra também que Portugal já beneficiou — e muito — de fluxos migratórios bem-sucedidos, sem propaganda nem romantizações.
Talvez, antes de grandes discursos sobre “Europa unida” e reconstruções futuras, fosse prudente reaprender as lições do passado recente. Porque a memória curta costuma ser péssima conselheira — sobretudo em política.

sábado, 20 de dezembro de 2025

Um Tribunal distante de um povo cansado

A decisão do Tribunal Constitucional de rejeitar a nova Lei da Nacionalidade volta a expor uma fratura profunda entre o Estado e uma parte significativa do povo português. Não se trata apenas de um acórdão técnico ou jurídico: trata-se de mais um episódio em que os cidadãos sentem que a sua vontade, as suas preocupações e a sua identidade são tratadas como secundárias face a interpretações rígidas e abstratas da Constituição. A Constituição da República Portuguesa deveria ser um instrumento vivo, ao serviço do povo e da realidade do país, e não um escudo usado para bloquear qualquer tentativa de adaptação às transformações sociais, demográficas e culturais que Portugal enfrenta. Quando o Tribunal Constitucional se coloca sistematicamente como um travão à vontade democrática expressa através do Parlamento, a pergunta impõe-se: a quem serve, afinal, a Constituição? Muitos portugueses sentem que a nacionalidade deixou de ser encarada como um vínculo profundo de pertença, responsabilidade e compromisso com o país, passando a ser tratada como um mero procedimento administrativo. A tentativa de rever a lei não nasceu do ódio nem da exclusão, mas da necessidade legítima de proteger a coesão nacional, o valor da cidadania e o respeito por quem sempre cumpriu regras, deveres e sacrifícios. 

Ao rejeitar essa revisão, o Tribunal Constitucional ignora o sentimento crescente de injustiça e desconsideração vivido por milhares de cidadãos. Ignora o facto de que a soberania reside no povo e que a democracia não pode ser reduzida a um exercício jurídico distante da realidade concreta das pessoas. Uma Constituição que não escuta o povo arrisca-se a perder legitimidade moral, mesmo que conserve legitimidade formal. O povo português não é intolerante — é exigente. Exige respeito, exige equilíbrio e exige que as instituições deixem de falar apenas para si próprias. Defender fronteiras jurídicas claras e critérios justos de nacionalidade não é atacar a democracia; é, pelo contrário, tentar preservá-la. Se a Constituição serve para silenciar o descontentamento popular em vez de o canalizar, então é legítimo questionar se não chegou o momento de a repensar, de a rever e de a devolver àqueles a quem verdadeiramente pertence: os portugueses. A democracia não vive apenas nos tribunais. Vive, acima de tudo, no povo que sente, trabalha, contribui e ama este país — mesmo quando sente que o país já não o escuta. (Bernardino Oliveira in O Luso)

De um lado, o candidato do Príncipe Real. Do outro, o candidato do País Real.

Há debates que, mesmo quando fingem discutir ideias, acabam por revelar algo muito mais cru: quem fala para quem. Não por aquilo que dizem, mas por aquilo que pressupõem. Não pelo tom, mas pelo destinatário implícito. O debate entre João Cotrim Figueiredo e André Ventura foi um desses momentos raros de clarificação social — quase sociológica — da política portuguesa contemporânea.
De um lado, o candidato do Príncipe Real. Do outro, o candidato do País Real.

Cotrim Figueiredo falou, como sempre, para uma fracção muito específica do País: aquela que vive confortavelmente instalada na convicção de que o Estado é um estorvo, os impostos um roubo e a “sensibilidade social” uma excentricidade cara. Um discurso afinado para os 5% que confundem privilégio herdado com virtude adquirida e baptizam de meritocracia aquilo que, na prática, é a transmissão silenciosa da vantagem por redes familiares, contactos certos e portas que nunca estiveram verdadeiramente fechadas.
É um liberalismo de salão, bem-educado, urbano, perfumado de cosmopolitismo e convicto de que o mundo começa nas Avenidas Novas, passa pela Foz e termina num brunch tardio ao domingo. Tudo o resto é folclore, custo social ou “externalidade”.

André Ventura, pelo contrário, falou para quem não tem tempo para essas subtilezas. Falou para quem depende do Estado não por ideologia, mas por necessidade. Para quem sabe que igualdade de direitos não é um slogan constitucional decorativo, mas uma linha de defesa mínima contra a arbitrariedade económica e social. Falou para o País que trabalha, paga, espera, e quase nunca é ouvido.
Não se trata aqui de santificar Ventura ou de absolver excessos retóricos. Trata-se de reconhecer um facto simples e incómodo: um falou para o povo; o outro falou para a elite. Um representou, conscientemente ou não, o partido popular; o outro defendeu, com elegância e bons modos, a elite de facto — essa mesma que se julga “naturalmente” superior, embora raramente o seja por mérito próprio.
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O mais curioso — e talvez o mais trágico — é assistir ao entusiasmo juvenil por este liberalismo importado, sobretudo entre uma geração que ainda não trabalhou, não pagou impostos, não enfrentou a precariedade e sonha enriquecer sem perceber de onde vem, historicamente, a riqueza em Portugal. Votam contra os seus próprios interesses com o fervor típico da alienação bem-embalada.
O debate não foi entre direita e direita, nem entre modelos económicos. Foi entre dois Países. Um pequeno, seguro de si, convencido de que governa por direito natural. Outro vasto, real, imperfeito, mas vivo. E quando esses dois Países se olham de frente, percebe-se porque tantos se sentem incomodados.
Não é populismo. É aritmética social.
Cinco por cento não são o País.
E nunca o foram.

quinta-feira, 18 de dezembro de 2025

no Observador a "luta continúa"

Seis meses depois
um bitaite para conferir 
Um dos seis detidos é chefe da PSP e nos grupos de Telegram em que se organizam abunda desinformação e mensagens antissemitas. PJ apreendeu pela primeira vez armas feitas com impressoras 3D.

Mil subscritores, antissemitismo e muitas ameaças. Dentro do canal de Telegram
O movimento descrevia-se como “um grupo de Lusitanos que enaltece Portugal e os Portugueses patriotas”, com membros referenciados em várias ocasiões por participarem em manifestações racistas. Nos últimos tempos, a atividade deslocou-se dos blogs para o Telegram, rede social e de troca de mensagens em que, através de dois canais diferentes, contam com mais de mil subscritores — que aumentaram consideravelmente durante a pandemia.

terça-feira, 16 de dezembro de 2025

Um Partido de perder!

Durante décadas, o Partido Socialista foi, em Portugal, um partido dividido — mas não fragmentado. As suas grandes disputas foram quase sempre pessoais, geracionais ou circunstanciais, nunca verdadeiramente ideológicas. Mário Soares contra Salgado Zenha, Soares contra Manuel Alegre: combates duros, sim; mas travados dentro de uma mesma casa, com uma ideia comum de partido e de regime.
Hoje, isso acabou.
As eleições presidenciais tornaram-se o espelho cruel dessa mutação. O exercício de imaginar o voto dos antigos líderes do PS é mais do que uma curiosidade política: é um diagnóstico. Um partido em que os seus antigos secretários-gerais votam em quatro candidatos distintos não está “plural”; está desagregado.
O PS deixou de ser um partido com correntes. Tornou-se um arquipélago.

A origem do estilhaçamento: Sócrates, a bancarrota e a mentira fundadora
A fragmentação começa com José Sócrates — não apenas com a sua governação, mas sobretudo com a forma como ela terminou. A bancarrota de 2011 não foi apenas financeira; foi moral, estratégica e identitária.
Até aí, o PS conseguia oscilar entre o discurso social e a prática orçamental com relativa impunidade. A intervenção externa acabou com essa ambiguidade. Pela primeira vez, o partido foi obrigado a escolher entre a ilusão ideológica e a realidade contabilística.
António José Seguro fez essa escolha. Pagou por ela.
Ao aceitar o quadro imposto pela União Europeia e pelo FMI, Seguro assumiu a heresia máxima dentro de um PS ainda intoxicado por retórica soberanista e voluntarista. Foi atacado, sabotado e, por fim, derrubado. Pedro Nuno Santos — então jovem promessa — chegou ao ponto de defender que a dívida não devia ser paga. Não era apenas uma divergência táctica: era uma ruptura com a própria ideia de Estado responsável.
A partir daí, o PS nunca mais recompôs a sua coluna vertebral.
A geringonça: o poder como anestesia ideológica
Se Sócrates abriu a fenda, a geringonça alargou-a até à ruptura.
Em 2015, o PS fez algo que nunca tinha feito: aliou-se formalmente às extremas-esquerdas para governar. Muitos socialistas detestaram a solução. Mas calaram-se. O poder tem esse efeito: suspende a consciência crítica.
O problema é que a geringonça não foi apenas uma solução parlamentar. Foi uma mutação identitária. Ao aceitar governar dependente do Bloco, do PCP e - mais tarde, indirectamente -  do Livre, o PS deixou de ser o eixo do sistema para passar a ser apenas mais uma peça de uma frente ideológica.
A partir desse momento, o partido passou a viver dividido entre dois projectos incompatíveis:
  • · um PS centrista, europeu, social-democrata no sentido clássico; e
  • · um PS de frente popular, refém da agenda da esquerda radical.
Esses dois PS coexistem hoje — mas já não se reconhecem.
As presidenciais como sintoma, não como causa
É neste contexto que surge a candidatura de António José Seguro. E é por isso que ela está condenada — não por falha do candidato, mas pela doença do partido.
O PS que apoia Seguro não é o PS que governa câmaras com o Bloco. Não é o PS que flerta com greves políticas, nem o PS que tolera a captura do discurso social por sindicatos ideologizados. A recente “greve geral” apenas agravou o problema: empurrou votos socialistas para candidatos do Bloco e do PCP, fragmentando ainda mais o eleitorado que, teoricamente, deveria convergir.
O resultado pode ser histórico — e não no bom sentido: o pior desempenho de sempre de um candidato presidencial apoiado pelo PS.
Não é Seguro que falha. É o PS que já não existe como unidade política coerente.
O espelho europeu: quando os partidos socialistas se desfazem
O que se passa em Portugal não é excepção. É atraso.
Em França, o Partido Socialista colapsou após a presidência de Hollande, esmagado entre o macronismo centrista e a esquerda radical de Mélenchon. Restou um esqueleto eleitoral que acabou diluído em alianças artificiais.
Em Itália, o velho campo socialista dissolveu-se em fusões sucessivas, dando origem a partidos híbridos, sem identidade clara, permanentemente dependentes de coligações instáveis.
Em Espanha, o PSOE sobrevive — por agora — à custa de alianças com forças que minam a própria ideia de Estado nacional, pagando o preço de uma crescente perda de credibilidade institucional.
Na Alemanha, o SPD mantém-se apenas como gestor cansado de consensos, sem narrativa mobilizadora, eclipsado ora pelos Verdes, ora pela nova direita.
Em todos os casos, o padrão repete-se:
  • · perda de identidade ideológica;
  • · alianças tácticas transformadas em dependências estruturais;
  • · eleitorado tradicional desmobilizado; e
  • · emergência de partidos “homónimos” - uns mais radicais, outros mais tecnocráticos - que acabam por dividir, fundir ou substituir o original.
o PS português chegou tarde ao seu próprio declínio?
O PS português vive hoje aquilo que os seus congéneres europeus viveram há dez ou quinze anos. A diferença é que chega mais tarde — e, talvez por isso, com menos margem de manobra.
Já não se trata de escolher líderes. Trata-se de escolher o que o partido é — ou se ainda é alguma coisa.
Enquanto essa escolha não for feita, o PS continuará a fragmentar-se em eleições presidenciais, autárquicas e legislativas. Continuará a perder votos para a esquerda radical e credibilidade para o centro. Continuará, sobretudo, a ser um partido que fala a várias vozes — e já não convence ninguém.
O problema não é o candidato.
O problema é o partido.

domingo, 14 de dezembro de 2025

um Pais dual...

“Despe o colete ‘jaune ou rouge’ e lê, com olhos de ler e cabeça de ver!”

Portugal é um país curioso. Não tanto pela sua história — que é rica — mas pela sua capacidade quase artística de fingir que não vê o que está mesmo à frente dos olhos. E um dos exemplos mais acabados dessa cegueira voluntária é o chamado “país dual” em que vivemos.
A cada greve, o ritual repete-se com a precisão de um relógio suíço: o sector público faz greve contra legislação que… não se lhe aplica. O sector privado, esse, continua a trabalhar, a adaptar-se, a contornar a paralisação e, quando pode, a pagar a factura. Complicado? Não. Hipócrita? Bastante.
A narrativa oficial chama-lhe “defesa dos trabalhadores”. Na realidade, trata-se sobretudo da defesa dos trabalhadores certos — os que já estão dentro. Os outros, os que ainda não entraram, que esperem. Ou que emigrem. Ou que se calem.
O exemplo da saúde é particularmente elucidativo, quase pedagógico. O sector privado da saúde sobrevive, em boa medida, graças a trabalhadores do sector público que beneficiam do melhor seguro de saúde existente em Portugal: a ADSE. Um privilégio silencioso, raramente mencionado nos protestos, mas muito usado na prática.
Curiosamente, sempre que algum governo ousa pensar em parcerias público-privadas que permitam aos trabalhadores do sector privado aceder a hospitais privados em condições semelhantes, ergue-se imediatamente o coro da indignação. Fala-se do “nosso SNS”, da “ameaça dos privados”, do “desmantelamento do Estado social”.
O “nosso”, note-se, nunca é exactamente o deles.
Este padrão repete-se noutros domínios: trabalho, habitação, pensões. Aquilo que em Portugal se apresenta como defesa dos direitos é, demasiadas vezes, a defesa de leis, regulamentos e procedimentos que blindam quem já chegou e penalizam quem ainda vem a caminho. Uma espécie de sindicalismo de condomínio fechado, com porteiro ideológico incluído.
O resultado é um país onde a injustiça não é acidental, mas estrutural. Onde o discurso da solidariedade serve para manter privilégios adquiridos. Onde o colete — seja ele amarelo ou vermelho — substitui o pensamento. E onde ler com atenção se tornou um acto quase revolucionário.
Por isso, o convite é simples: despe o colete. Lê. Observa. Compara. E talvez descubras que o verdadeiro fosso social não está entre esquerda e direita, mas entre quem já está protegido e quem nunca chega a estar.
E isso, por muito que incomode, explica mais sobre Portugal do que mil greves televisionadas.