domingo, 13 de setembro de 2026

Resposta do Claude Anthropic à pergunta O CHEGA não está apenas a protestar?

pedi ao Claude Anthropic uma analise ao texto do Observador
Miguel Pinheiro, no Observador, escreveu aquilo que grande parte do jornalistado, do comentariado e da classe política portuguesa continua a recusar-se sequer a admitir: André Ventura pode chegar ao Governo.
Não amanhã. Talvez nem depois de amanhã. Mas a hipótese deixou há muito de pertencer ao domínio da fantasia política.
O erro das elites portuguesas consiste em analisar o CHEGA como se continuássemos em 2019. Não continuamos!

Há duas maneiras de chegar ao poder
Miguel Pinheiro estabelece uma distinção particularmente feliz: há quem chegue rapidamente ao poder entrando nos partidos existentes e há quem escolha o caminho mais demorado - substituir esses partidos.
André Ventura poderia ter permanecido no PSD.
Não ficou.
Criou um partido que começou com um deputado e que, em poucos anos, se tornou uma das principais forças políticas portuguesas.

Este pormenor é essencial porque ajuda a compreender aquilo que venho defendendo: o CHEGA não pretende simplesmente deslocar a velha direita alguns graus para a direita. Pretende ocupar o espaço político que essa direita deixou vazio.
E esse processo exige tempo.
Da revolta à adesão
Durante anos, a explicação confortável foi esta: as pessoas votam no CHEGA para protestar.
É parcialmente verdade.
Mas a palavra decisiva é “parcialmente”.

Todos os movimentos políticos que desafiam um sistema estabelecido começam por absorver descontentamento. O que interessa perceber é o momento em que os eleitores deixam de votar apenas contra os outros e começam a votar a favor deles.
Foi exactamente isso que aconteceu com o Rassemblement National francês.
Estudos sobre as legislativas francesas de 2024 concluíram que 48% dos eleitores do RN diziam votar por adesão e apenas 7% por oposição. Entre esses eleitores existia também uma forte convicção de que o partido poderia efectivamente aplicar o seu programa se chegasse ao poder.
A transformação é politicamente decisiva. O pária deixa de ser apenas o instrumento utilizado para castigar o sistema. Passa a ser considerado uma alternativa ao sistema.
E agora a Alemanha
O mesmo fenómeno está a tornar-se visível na Alemanha.
Nas eleições de 6 de Setembro de 2026 na Saxónia-Anhalt, a AfD alcançou 43,8% dos votos, mais do dobro do resultado de 2021.

Mais interessante ainda do que o número é a mudança psicológica do eleitorado.
Segundo a análise da Chatham House, 44% dos eleitores preferiam um governo liderado pela AfD e 36% consideravam-na o partido mais capaz de resolver os problemas do Estado.
A campanha também mudou de linguagem.
Do negativo “Já chega” passou-se para “Tudo é possível”.
Isto é muito mais do que publicidade eleitoral.
É a passagem da indignação à esperança política; da oposição à expectativa de governo.

Portugal não acaba no Cabo da Roca
É precisamente aqui que Miguel Pinheiro desmonta uma das grandes ilusões portuguesas.
A nossa classe político-mediática continua convencida de que Portugal constitui uma extraordinária excepção histórica.
Le Pen pode crescer em França. A AfD pode crescer na Alemanha.
Outros partidos semelhantes podem transformar os sistemas partidários europeus.

Mas em Portugal, asseguram-nos, nunca acontecerá.
Porquê? Porque não.

É este, aproximadamente, o profundíssimo argumento.
O mesmo comentariado que não previu a entrada do CHEGA no Parlamento, que não previu a sua passagem para dezenas de deputados e que sucessivamente anunciou o seu tecto eleitoral continua agora a garantir-nos que encontrou finalmente o verdadeiro tecto.
Um dia acertará.
Nem que seja aos 50%.
O cordão sanitário pode estar a fabricar aquilo que pretende impedir

Existe ainda outra ironia.
Quanto mais o sistema transforma o CHEGA num partido proscrito, mais contribui para consolidar a identidade entre o partido e os seus eleitores.
O mecanismo francês está estudado: muitos eleitores do RN reconhecem no desprezo dirigido aos dirigentes do partido o mesmo desprezo social, cultural ou intelectual que sentem ser-lhes dirigido a eles próprios.
É por isso que o permanente ritual de excomunhão pode produzir o resultado contrário ao pretendido.
Cada insulto. Cada “cordão sanitário”. Cada tentativa de excluir. Cada campanha explicando aos eleitores que são ignorantes, ressentidos, racistas, fascistas ou simplesmente pessoas que ainda não compreenderam o que deveriam pensar.
Tudo isso reforça uma comunidade política.
O eleitor deixa de sentir que estão a atacar apenas Ventura. Sente que o estão a atacar a ele.
Mas há uma diferença portuguesa
É aqui que acrescentaria algo à excelente análise de Miguel Pinheiro.
O CHEGA dificilmente chegará ao poder apenas através da indignação.
Para completar a transformação necessita de fazer precisamente aquilo que as Novas Direitas europeias começam a perceber: transformar revolta em doutrina, protesto em projecto e eleitorado em bloco social duradouro.
É por isso que a Questão Social é tão importante.
Pensões. Idade da reforma. Salários. Habitação. Fiscalidade. Segurança. Imigração. Serviços públicos. Soberania.
São estas matérias, e não apenas os temas identitários, que permitirão saber se o CHEGA será simplesmente um grande partido de protesto ou um futuro partido de Governo.
É também aqui que se manifesta a ruptura com a velha direita liberal.
Durante demasiado tempo, PSD e CDS aceitaram a hegemonia cultural da esquerda e limitaram-se, demasiadas vezes, a discutir taxas, défices e velocidade das privatizações.
A Nova Direita terá de disputar também cultura, comunidade, identidade nacional e protecção socia.
Não basta conquistar votos. É necessário conquistar legitimidade para governar.
O adversário também conta

Miguel Pinheiro chama ainda a atenção para outro factor frequentemente esquecido.
Uma eleição nunca depende apenas de um candidato.
Depende do adversário.
Nas presidenciais, André Ventura enfrentou António José Seguro, um candidato especialmente adequado à agregação de voto contra o líder do CHEGA.
Noutra circunstância, com outro adversário, o comportamento eleitoral poderá ser muito diferente.
Basta que um dia a esquerda portuguesa, convencida da sua superioridade moral e embriagada pela própria propaganda, decida responder à chamada “radicalização da direita” escolhendo a sua própria versão radical.
Nesse momento a eleição deixará de ser:
“Ventura ou um moderado?”
E poderá passar a ser:
“Ventura ou isto?”
É nesses momentos que sistemas políticos aparentemente imóveis mudam muito depressa.
A velha direita ainda não percebeu o que está em causa
O PSD deveria talvez preocupar-se menos em saber se consegue domesticar o CHEGA e preocupar-se mais em saber se o CHEGA o está a substituir.
Porque essa é a verdadeira questão.
A emergência de uma Nova Direita não significa necessariamente a radicalização da velha direita. Pode significar a sua substituição.
Foi isso que durante anos as elites francesas se recusaram a compreender relativamente ao RN.
É isso que os democratas-cristãos alemães terão agora de compreender perante a AfD.
E é isso que a direita liberal portuguesa continua aparentemente convencida de que nunca acontecerá consigo.

O tempo trabalha
Nada disto significa que a chegada do CHEGA ao Governo seja inevitável.
Política não é profecia.
O partido pode cometer erros, fragmentar-se, perder credibilidade ou revelar-se incapaz de transformar protesto em competência governativa.
Mas afirmar que não pode chegar ao poder é hoje intelectualmente muito mais difícil do que explicar como poderá chegar lá.
Miguel Pinheiro percebeu essa diferença.
André Ventura escolheu um caminho mais comprido.
Primeiro entrou no sistema.
Depois rompeu com a direita do sistema.
A seguir conquistou o eleitorado de protesto.
Agora terá de transformar uma parte crescente desse eleitorado em eleitorado de adesão.
E finalmente terá de convencer portugueses suficientes de que não serve apenas para denunciar quem governa.
Serve para governar.
O jornalistado e o comentariado podem continuar a dormir tranquilamente, embalados pela certeza de que isso nunca acontecerá.
Também em França e na Alemanha dormiram muito bem durante anos.
O problema é que os eleitores, entretanto, acordaram.
O CHEGA não está apenas a protestar. Está a preparar-se para governar