domingo, 20 de setembro de 2026

A Grande Divisão ou quando quem contestava passou a defender o sistema...

a Esquerda, o Centro e as Direitas do sistema, que durante décadas se apresentaram como forças de mudança, hoje aparecem como defensoras da "ordem estabelecida", enquanto novas Direitas passaram a ocupar-lhes o espaço da contestação.

Esta é uma inversão que ajuda a compreender muito do que está a acontecer na Europa e nos Estados Unidos. As forças políticas classificadas como «populistas», «radicais» ou simplesmente «extrema-direita» deixaram de ser fenómenos marginais. Impõem temas, condicionam agendas e obrigam os partidos tradicionais a responder a questões que durante anos preferiram desvalorizar: imigração, soberania, identidade nacional, segurança, efeitos sociais da globalização e abandono económico de sectores das classes médias e trabalhadoras.

Mais significativo ainda é os próprios partidos do Centro e da Esquerda começarem a corrigir discretamente o discurso. A celebração quase automática da globalização perdeu entusiasmo; a política de fronteiras tornou-se menos ingénua; a imigração passou a ser discutida também como problema de capacidade, integração e segurança; e até alguma esquerda procura recuperar o trabalhador que havia trocado por uma agenda predominantemente cultural e identitária.

Não foram necessariamente as novas direitas que criaram esta ruptura. Na realidade encontraram-na.


Jaime Nogueira Pinto em "https://observador.pt/opiniao/a-grande-divisao/?utm_source=chatgpt.com
" atribui parte essencial dessa transformação às próprias elites políticas e culturais que dominaram as últimas décadas. Enquanto se multiplicavam discursos sobre minorias, identidades e causas fracturantes, uma parte considerável da sociedade continuava preocupada com problemas bastante mais prosaicos: salário, habitação, segurança, estabilidade no emprego, impostos, serviços públicos, futuro dos filhos e capacidade de reconhecer culturalmente o país onde vive. Foi nesse espaço que cresceram as direitas nacionais e populares.

Portugal é talvez um dos exemplos mais esclarecedores.

Depois do 25 de Abril, a direita nacional-conservadora ficou durante décadas contaminada pela associação automática ao Estado Novo. Nação, patriotismo, autoridade, identidade, família ou soberania tornaram-se conceitos sobre os quais boa parte da direita democrática caminhava como quem atravessa um campo minado.

PSD e CDS foram-se aproximando progressivamente do centro. A economia de mercado sobreviveu; grande parte da restante gramática política da direita desapareceu ou foi cuidadosamente embrulhada para não provocar acusações de «saudosismo».

Criou-se assim uma singularidade: Portugal tinha partidos à direita do PS, mas uma parte significativa das ideias historicamente associadas à direita tinha pouca ou nenhuma representação política explícita.

Foi nesse espaço que apareceu o CHEGA.

André Ventura percebeu que existia eleitorado para uma direita que recusasse os complexos acumulados durante décadas e voltasse a colocar na discussão política temas que o sistema partidário tradicional remetera para a periferia. O partido foi formalmente inscrito em 2019 e o seu crescimento posterior mostrou, pelo menos, que esse espaço eleitoral existia.

Reduzir tudo a «populismo», «radicalismo» ou «protesto» tornou-se progressivamente insuficiente como explicação.

Porque o fenómeno começa a ter dimensão geracional.

A tracking poll da Pitagórica divulgada a 17 de Setembro coloca o PS nos 28,6%, o CHEGA nos 27,6% e a AD nos 24,3%. É apenas uma sondagem — 804 entrevistas agregadas ao longo de quatro semanas — e deve ser lida como fotografia daquele momento, não como resultado eleitoral antecipado.

Mas há um dado adicional que merece atenção. Segundo o recorte etário atribuído à mesma sondagem e entretanto divulgado, o CHEGA aparece como primeira preferência entre os eleitores dos 18 aos 54 anos.

Mesmo com a prudência que qualquer sondagem exige, a questão é politicamente relevante. Já não estamos apenas a falar dos inevitáveis «descontentes» que os comentadores descobrem sempre que não conseguem explicar um voto. Estamos a falar de gerações em idade activa: estudantes, jovens trabalhadores, famílias e cidadãos que suportam uma parte substancial da actividade económica do país. 

E isso altera a pergunta.  
Em vez de perguntar eternamente «porque cresce a extrema-direita?», talvez seja mais útil perguntar por que motivo uma parte crescente do eleitorado deixou de se reconhecer nos partidos que dominaram Portugal durante meio século.

A resposta não estará certamente numa única causa. Mas dificilmente poderá excluir o desgaste do rotativismo PS–PSD, a percepção de impunidade e compadrio, as dificuldades da habitação, os baixos salários, a emigração de jovens qualificados, a imigração rápida e pouco planeada, a insegurança sentida por parte da população e uma economia que continua incapaz de aproximar Portugal dos países europeus mais prósperos.

Da contestação à identidade política

É neste ponto que a reflexão de Nogueira Pinto vai além do simples crescimento eleitoral de um partido.

Para durar, uma nova Direita não poderá viver exclusivamente da indignação nem dos erros dos adversários. Terá de definir aquilo que é pela afirmativa: nacional sem nostalgia autoritária; social sem socialismo; defensora da economia de mercado sem transformar o mercado numa religião; exigente na segurança e na imigração sem abandonar o Estado de direito; patriótica sem complexos e suficientemente portuguesa para não se limitar a importar modelos estrangeiros.

A Grande Divisão já não é apenas entre esquerda e direita, mas entre um sistema político-cultural instalado durante décadas e uma parte da sociedade que deixou de se sentir representada por ele.

Durante muito tempo disseram a estes eleitores que estavam politicamente errados mas talvez tenha chegado a altura de nos perguntarmos por que razão eles são cada vez mais.