sábado, 17 de janeiro de 2026

André Ventura contra todos os outros...

Sobre as presidenciais, depois de todos os debates, polémicas e sondagens, só parece haver duas ideias geralmente aceites. A primeira é que André Ventura é o candidato com mais probabilidade de passar à segunda volta. A segunda ideia é que André Ventura é o candidato com menos probabilidade de ser eleito. Entre estes dois lugares-comuns, está desenhado o impasse da política portuguesa.

A primeira opinião traduz o facto de André Ventura ser o único líder político em actividade que interessa aos portugueses. Os debates mais vistos foram aqueles em que ele esteve. E foi curioso ver alguns dos seus rivais adoptarem contra ele os tiques e os truques que lhe são atribuídos: interrupções, elevações da voz, risos. Julgam mesmo que o sucesso de Ventura foi apenas técnica de comunicação. Não percebem que foi uma questão de substância, isto é, que Ventura interessou, não porque tivesse jeito e graça, mas porque falou do que os portugueses estavam a falar: o choque a que o país foi sujeito quando percebeu que os governantes, sem lhe perguntarem, tinham decidido abolir qualquer controle da imigração. Toda a gente falava disso em privado, ninguém falava em público, por receio de ser posto na fogueira como racista ou desumano. Ventura foi o líder político que ousou falar do assunto, e da perspectiva que importa: a da coesão nacional, que é o primeiro pilar da democracia, da segurança e da solidariedade social.
Esqueçam o estilo. Ventura é o único político activo que está associado a uma causa, e mais: à necessidade de manter essa causa, que não é uma causa qualquer, mas existencial, no debate público. Perante Ventura, os demais políticos podiam ter reagido comprometendo-o em políticas públicas de resposta aos problemas; em vez disso, viram apenas a oportunidade de, fazendo dele um monstro a que seria preciso resistir, arranjarem uma maneira de ficarem no poder sem resolverem problema nenhum. Percebe-se que o país não se possa arriscar a não ter André Ventura na segunda volta.
A segunda opinião traduz uma convicção: a de que o país, embora alarmado com o caos migratório, o colapso dos serviços públicos ou a estagnação económica, e, por isso, a precisar de levar André Ventura à segunda volta como testemunha desse alarme, ainda não quer rupturas, e, portanto, acabará por não eleger Ventura. É com o que contam os outros candidatos. Nenhum deles está associado a uma grande causa, nenhum deles prestou um grande serviço ao país, nenhum deles beneficia sequer de grande estima, como Marcelo Rebelo de Sousa quando foi eleito. São apenas candidatos contra André Ventura, e só esperam ser eleitos, não porque o país os deseje como presidentes, mas por não serem Ventura. Cotrim de Figueiredo, que pisou as “linhas vermelhas” por distracção, tentou logo redimir-se, colando-se ao governo de Montenegro (“conte comigo”). Eis o que é o anti-venturismo: a redução da política à defesa mecânica do status quo. É isso que estes candidatos representam da maneira mais indiferenciada. 

Ganharão mesmo, esses anti-Venturas? E se ganharem desta vez, ganharão da próxima? Talvez André Ventura ainda represente, para muitos, um risco. Mas perante a perigosa experiência a que a oligarquia está a sujeitar a sociedade portuguesa, esse risco parecerá, por comparação, cada vez menor. Haverá um momento em que Ventura, por mais controverso, surgirá como o único meio de restaurar a normalidade. Com o seu anti-venturismo tão cínico como bacoco, a oligarquia anda apenas a adiar o dia em que já não conseguirá parar André Ventura.
(imagem acrescentada em 20Jan26)

 

os candidatos para o Pinheiro do Observador...

Luís Marques Mendes reagiu com inesperado amadorismo à polémica sobre a sua vida profissional e as suas ligações políticas. Qualquer pessoa dotada da capacidade para antecipar o óbvio deveria ter percebido há muitos meses que, depois do caso Spinumviva, um candidato com uma empresa familiar que tem como sócios a mulher e os filhos iria ser alvo do mais implacável escrutínio. Além de ter dissolvido a sociedade, Marques Mendes deveria ter tomado a iniciativa de revelar a lista completa dos clientes e de explicar detalhadamente o que fez para cada um deles. Em vez disso, ficou à espera que surgissem as perguntas e as suspeições, como se estivesse a fazer figas para que ninguém se lembrasse de falar sobre o assunto. Podia ter controlado e arrumado o tema, mas ficou a servir de saco de pancada dos adversários.
António José Seguro também teve dificuldades em ver o óbvio. Com o espaço da direita hiperlotado, evidentemente ele devia ter-se apresentado desde o início como o único candidato viável da esquerda. Há aquela frase célebre: “Se anda como um pato, se nada como um pato e se fala como um pato, então é porque é um pato”. Se Seguro foi líder da JS, se foi líder do PS e se fez toda a vida no PS, então é porque é socialista e, por definição, de esquerda. Mas, até chegar a essa conclusão incontestável e começar a apelar ao voto útil de toda a esquerda, António José Seguro embrulhou-se em conversas sobre “gavetas” e sobre a sua irreprimível vontade de agradar à direita desiludida com Marques Mendes.
Henrique Gouveia e Melo também tentou, absurdamente, agradar a toda a gente: aos que odeiam o sistema e aos que idolatram o sistema; aos que adoram Mário Soares e aos que desconfiam de Mário Soares; aos que já votaram no PS, aos que já votaram no PSD, aos que já votaram na IL e aos que já votaram no Chega. O almirante conseguiu o extraordinário feito de fazer com que os eleitores tenham hoje mais dúvidas sobre o que lhe anda na cabeça do que tinham no tempo em que ainda não tinha aberto a boca para falar sobre nada. Ninguém verdadeiramente sabe se um voto em Gouveia e Melo é útil ou pernicioso. Nas presidenciais, queria ser o novo general Ramalho Eanes, mas corre o risco de ser o novo almirante Pinheiro de Azevedo.

André Ventura comportou-se na primeira parte da campanha como a atual líder do Partido Conservador inglês. As pessoas mais próximas de Kemi Badenoch dizem que ela tem a capacidade autodestrutiva de começar uma rixa mesmo numa sala vazia. Como se sabe, o combustível político de André Ventura são os inimigos. Esses inimigos podem ser internos ou externos, mas convém, apesar de tudo, que não sejam totalmente imaginários, para que o líder do Chega não pareça um fantasista ou um charlatão. A dada altura, acalmou-se e disciplinou-se. O seu grande objetivo nesta campanha era convencer os fiéis do Chega de que o voto útil nesta eleição era nele e não no almirante — e tudo indica que conseguiu.

João Cotrim de Figueiredo apostou nos jovens, que, em tese, sentem a liberdade de votar sem se deixarem condicionar por cálculos e contas.
Catarina Martins tentou apresentar-se como a legítima herdeira de Mário Soares e de Jorge Sampaio, ignorando que não é possível passar uma vida inteira a habitar o radicalismo para depois se reclamar como a representante confiável da esquerda moderada e bem comportada.
António Filipe refugiou-se na mais empedernida ortodoxia, tentando assim persuadir os simpatizantes do PCP de que o voto em qualquer outro candidato será uma rendição ao desprezível “consenso neoliberal”.
Jorge Pinto apareceu como o último recurso de um partido que preferia a unidade da esquerda e só apresentou um candidato próprio porque tinha mesmo de ser.
[https://observador.pt/opiniao/estas-presidenciais-vao-ser-as-eleicoes-do-voto-util/]

quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

do "la barrage.fr" às "linhas vermelhas.pt"

França e Portugal: duas presidenciais, o mesmo “sistema imunitário” (e o mesmo risco de falha)
Em França, a presidência é o coração do regime; em Portugal, é a chave de aberturas e fechos (dissolver, vetar, arbitrar). Mas há um traço comum que atravessa Paris e Lisboa: quando surge um candidato que ameaça reordenar o tabuleiro, activa-se a mesma liturgia — o “cordão sanitário” com incenso mediático, a palavra “perigo” em loop, e a velha moral do “voto responsável” a bater à porta do eleitor como Testemunha de Jeová em véspera eleitoral.
Le Pen e Ventura: semelhanças reais, diferenças decisivas
Semelhança principal: ambos são tratados como teste de stress ao regime. Marine Le Pen, no segundo turno de 2017 e 2022, foi o adversário “útil” para reunir contra si uma coligação negativa: não se vota “por” Macron; vota-se “contra” Le Pen. A literatura e a análise pós-eleitoral descrevem bem este mecanismo, onde a competição se organiza menos por adesão do que por repulsa. 
Em Portugal, Ventura encaixa no mesmo molde: chega ao patamar em que a pergunta já não é “se” tem base eleitoral, mas “se” o sistema consegue impedir que essa base se converta em maioria agregada no segundo turno. E os dados recentes apontam para uma eleição fragmentada e para uma segunda volta provável — e, ao mesmo tempo, para um nível de rejeição de Ventura suficientemente alto para tornar difícil ganhar o frente-a-frente final.
Diferença decisiva: em França, o “frente republicana” é um reflexo condicionado antigo e nacional; em Portugal, o anti-Chega é mais recente e mais dependente da engenharia mediática diária (comentariado, jornalistado, “fact-checking” selectivo, indignação por turnos). 
Resultado: o mecanismo pode ser eficaz… mas também pode cansar, e quando cansa transforma-se em combustível.
O papel das imprensas: a França do “barramento” e Portugal do “cerco permanente” 
Imprensa francesa: tende a funcionar como amplificador do “barramento” (la barrage), sobretudo na segunda volta, reforçando a ideia de que há uma fronteira moral a defender — o que facilita a convergência táctica entre campos ideologicamente incompatíveis (do centro liberal à extrema-esquerda). Essa dinâmica ficou visível nos ciclos recentes e ganhou novo relevo com a crise de governabilidade francesa e a reorganização das alianças à esquerda. 
Imprensa portuguesa: faz algo semelhante, mas com um estilo mais “micro-gestão”: não é só “na segunda volta”. É todos os dias, a todas as horas, com o candidato transformado em assunto, e o assunto transformado em alarme. O paradoxo é conhecido: quanto mais o cerco fecha, mais o sitiado consolida a tribo — e depois, para espanto geral, “cresceu nas sondagens”. (Mistério insondável: ninguém sabe porquê. Nem o painel de comentadores. Nem o painel de comentadores do painel de comentadores.)
E aqui há um detalhe moderno: Ventura não depende apenas dos canais tradicionais; usa-os como matéria-prima para circular nas redes, recortando, reenquadrando e devolvendo ao público sob a forma de “prova” de perseguição. Há investigação académica recente exactamente sobre este padrão de uso de notícias e redes por Ventura enquanto “gatekeeper”. 
A “rejeição” de Le Pen e o risco do efeito bumerangue
O “modelo francês” tem funcionado assim: Le Pen chega ao segundo turno; o sistema une-se; Le Pen perde. Só que, quando se repete demais, a fórmula envelhece. E o envelhecimento acelera quando:
a crise do custo de vida não abranda;
a imigração e a segurança permanecem no centro do quotidiano;
a esquerda radical é percebida como sócia táctica do “sistema” para bloquear a direita populista (mesmo quando diz odiar o “sistema”). 
Em França, este quadro é agravado por um factor objectivo e explosivo que a esquerda tem tentado em Portugal: a incerteza jurídica sobre a própria elegibilidade de Marine Le Pen para 2027, por via do processo e do recurso em curso. Se Le Pen ficar impedida, a sucessão interna (Bardella) pode mudar o estilo e a eficácia eleitoral do RN. 
Ou seja: o “barramento” pode voltar a funcionar… mas também pode falhar por saturação, ou por substituição de rosto e estratégia.

Pode acontecer “uma França” em Portugal?
Sim — mas com especificidade portuguesa.
O cenário “França”: Ventura passa à segunda volta; junta-se um bloco “anti” (do centrão à esquerda) para o travar; Ventura perde, mas sai reforçado politicamente porque normaliza o Chega como pólo inevitável do sistema. Isto é praticamente o equivalente funcional do que sucedeu em França (perder e crescer), adaptado ao nosso semi-presidencialismo. E o próprio retrato recente da corrida portuguesa sugere exactamente a combinação “segunda volta provável + rejeição elevada” que alimenta esse desfecho. 
O cenário “fadiga das ”linhas vermelhas": a campanha anti-Ventura atinge tal nível de histeria que se torna contraproducente; parte do eleitorado não “converte” no segundo turno e escolhe abstenção ou voto de protesto. Numa eleição com fragmentação e cansaço, isto pode apertar perigosamente o resultado.
O cenário chamemos-lhe o “acidente de regime”: uma segunda volta Ventura vs. candidato do “centrão” com baixa capacidade de mobilização emocional; a máquina mediática faz o que sabe, mas não consegue entusiasmar o eleitorado “anti” tradicionalmente abstencionista - e, quando o anti não sai de casa, a matemática torna-se cruel.

Premonições: 
Com a informação pública disponível hoje, a aposta mais prudente é:
  • Ventura tem probabilidade alta de chegar à segunda volta, porque a fragmentação empurra os votos para três ou quatro pólos e ele tem um eleitorado muito identificado. 
  • Ganhar a segunda volta é mais difícil, precisamente por causa da rejeição elevada e do reflexo de “todos contra”.
A consequência política, mesmo numa derrota, pode ser grande: o Chega passará a ser o eixo em torno do qual a direita e o centrão se reorganizam (uns por aproximação táctica, outros por exclusão ritual). E a médio prazo isto empurra Portugal para o mesmo dilema francês: ou o sistema reforma as suas falhas (custos, serviços públicos, imigração, segurança, justiça), ou continuará a fabricar candidatos que diz abominar.

A Europa terá nestas presidenciais (em França e em Portugal) um barómetro:
  • Se o “cordão” vencer sempre, Bruxelas respira — mas a pressão social acumula-se por baixo.
  • Se o “cordão” falhar uma vez, a mudança pode ser abrupta, e a UE terá de lidar com governos e maiorias mais soberanistas, mais conflituais e menos disponíveis para a moralização permanente de tudo.
Em suma: França e Portugal não são cópias — mas rimam. E, quando a história rima demasiadas vezes, há dias em que deixa de ser poesia e passa a ser contabilidade eleitoral.

André Ventura, “o anti-sistema” | Presidenciais 2026

como é visto pelo comentariado e jornalistado do sistema!  
A história começa nas eleições autárquicas de 2017: André Ventura, candidato desconhecido do PSD à Câmara Municipal de Loures, dá uma entrevista onde faz declarações polémicas sobre a comunidade cigana. Perdeu essas eleições, mas daí nasceu o Chega, que é hoje a segunda maior força política do país. Omnipresente e inescapável, é um enviado de Deus para uns e fascista para outros. Que história conta o percurso político do candidato "anti-sistema" desta corrida presidencial?

Presidenciais: Chegou a altura de conferir o comentário do "comentador"

Após leitura atenta, hesitei entre a pitonisa de Delfos e o Tullius Détritus enviado especial de César…
Estávamos em 31 de Maio de 2025 quando o Miguel Pinheiro 
escrevia no Observador :
.
Numa frase: mesmo que não queira, e mesmo recebendo uma maioria de votos do PSD e do PS, Gouveia e Melo mobilizará também uma gigantesca fatia dos eleitores do Chega. E será visto pelos próprios como o Presidente deles.”

André Ventura está indeciso sobre o que fazer nas presidenciais. Pode avançar como candidato para tentar segurar o eleitorado do Chega, mas há a hipótese de ser humilhado no dia do voto. Pode enviar um soldado raso para a campanha, mas fica com a certeza de que o resultado será uma pequena vergonha. Pode declarar o apoio a Gouveia e Melo, mas arrisca-se a ser ignorado ou, pior, rejeitado. A primeira hipótese é má, a segunda é péssima, a terceira é potencialmente catastrófica.”
Gouveia e Melo mobilizará também uma gigantesca fatia dos eleitores do Chega. E será visto pelos próprios como o Presidente deles. “
A partir de Março do próximo ano, esses 1,5 milhões de eleitores passarão a ter dois líderes, um formal e outro informal: no Palácio de São Bento, André Ventura; no Palácio de Belém, Gouveia e Melo.”

domingo, 11 de janeiro de 2026

Entre o pântano e a pedrada no charco

(Um comentário ao artigo de Jaime Nogueira Pinto Entre o centrão e o voto útil )

Há textos que não pretendem convencer: pretendem desencantar. O artigo de Jaime Nogueira Pinto inscreve-se nessa linhagem rara — a dos textos que recusam discutir apenas quem aparece nas urnas e insistem em perguntar porquê. Porque razão surgem figuras como Trump, Ventura ou Le Pen? Porque razão a política, em largas camadas do eleitorado, deixou de ser escolha e passou a ser fastio?

resposta é incómoda para o comentário bem-pensante: não foram estas figuras que deformaram o sistema; foi o sistema que, ao estagnar, as tornou inevitáveis.
chamado centrão — essa zona morna onde tudo se mistura sem nunca verdadeiramente decidir — transformou a política num pântano. Um espaço onde abundam candidaturas “úteis” apenas no sentido táctico, desprovidas de densidade histórica, cultural ou civilizacional. Um espaço onde se vota não por esperança, mas por medo; não por convicção, mas por cálculo.
É neste contexto que a análise de Jaime Nogueira Pinto se torna particularmente certeira: à Direita conservadora e -a popular resta uma única opção real — André Ventura. Não por fetichismo pessoal, mas por coerência estrutural. Porque, ao contrário do centrão fragmentado em quatro candidaturas intercambiáveis, este espaço político reconhece que sem ruptura não há alternativa.
A reacção histérica do sistema confirma o diagnóstico. Tal como em França, onde Marine Le Pen venceu primeiras voltas para depois ser travada por frentes artificiais “antifascistas”, também entre nós se prepara o mesmo reflexo condicionado: unir tudo e todos contra quem ousa mexer na água parada. Não é uma defesa da democracia; é a sua mumificação. Mais grave ainda é a ilusão persistente da Esquerda mediática. Partidos que hoje mal somam dois dígitos comportam-se como se representassem metade do país. Falam alto porque sempre falaram alto; ocupam espaço porque nunca aprenderam a desocupá-lo. A História recente — de 1974 a 1975 — não é uma nota de rodapé: é uma herança mal digerida, agora lentamente percebida por um eleitorado que começa a ligar os pontos. 

A chamada “pedra no charco” não é um capricho populista. É o último recurso de um sistema fechado sobre si próprio. Ventura - com todas as imperfeições que um político real inevitavelmente tem — percebeu algo que a direita envergonhada recusou durante décadas: valores não são propriedade de regimes mortos, nem conceitos como Nação, Família ou soberania são monopólio do passado. Podem - e devem - ser defendidos em democracia. 
Por isso, o espanto fingido perante figuras como Trump ou Ventura é, no fundo, um acto de má-fé. Continuam a perguntar como foram possíveis, porque não querem perguntar que mundo os tornou necessários. Um mundo onde a ordem liberal morreu, mas os seus administradores insistem em governar como se ainda respirasse.

Quando o pântano se instala, a pedra no charco deixa de ser excentricidade. Passa a ser sinal de vida.

sábado, 10 de janeiro de 2026

Jornalistas actuais a matar o futuro dos jornalistas futuros

Há um vício antigo no jornalismo português que, nos últimos anos, degenerou em patologia profissional: a convicção de que a política falha porque não produz personagens à altura da memória sentimental das redacções. Surgiu mais um artigo de Miguel Pinheiro é um case study dessa doença.

Pinheiro não analisa a realidade. Mede o presente com régua do passado e, como era previsível, conclui que tudo é pequeno. O problema não é a conclusão; é o pressuposto. Líderes não aparecem porque comentadores os invocam, nem porque jornalistas sentem a sua falta. Os líderes surgem quando o sistema entra em ruptura e precisa deles. Antes disso, são apenas impossibilidades históricas.
Os nomes citados — Sá Carneiro, Cavaco Silva, Passos Coelho — não são prova de decadência. São prova exactamente do contrário: cada um apareceu quando foi funcional ao sistema. Sá Carneiro serviu a fundação; Cavaco a estabilização; Passos a emergência. Nenhum deles foi produto de saudade, comparação ou desejo mediático. Foram respostas duras a tempos duros.
O erro de Pinheiro é o mesmo erro estrutural do centrão que tantas vezes desmontaste no ReVisões: imaginar que a política é um exercício de continuidade civilizada, quando o país vive há anos num pântano de estagnação, bloqueio institucional e medo de ruptura. Um centrão que governa, comenta e julga — e que depois se espanta quando surgem figuras que não pedem licença.

É aqui que entra o ponto que Jaime Nogueira Pinto percebe e Pinheiro não: 
Ventura não é um acidente; é um sintoma. Um sintoma de um sistema que já não responde, de uma ordem liberal esgotada, de uma política reduzida à gestão moral e à chantagem simbólica. Quando tudo é consensual, só o excesso rompe o silêncio.
Ao escrever como escreve, Pinheiro não critica a ausência de líderes — legitima o vazio. Porque substitui análise por nostalgia, conflito por comparação histórica, realidade por mitologia política. É o mesmo jornalismo que normalizou a judicialização da política, que aplaude tribunais quando corrigem votos, que prefere decisões técnicas a escolhas populares — e que depois se indigna quando o povo escolhe mal.
Este jornalismo não forma leitores. Forma órfãos. E, pior ainda, forma jornalistas futuros convencidos de que pensar é comparar, analisar é desvalorizar e compreender é recordar. Assim não se interpreta a História. Assim arquiva-se o presente — ainda vivo.

E um jornalismo que arquiva o presente acaba inevitavelmente ultrapassado por ele.

quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

Mayor muçulmano em Nova Iorque. Uma visão hungara!

O que aconteceu em Nova Iorque é um sinal sério de civilização. Zohran Mamdani, um político abertamente marxista e de extrema-esquerda, fez seu juramento como prefeito do Alcorão, e assim quebrou não apenas o senso religioso, mas ideológico, a ordem centenária do mundo ocidental.
Zohran Mamdani é um ativista de extrema-esquerda em ascensão que previamente defendeu o enfraquecimento do papel da polícia, a "redistribuição" de bens e o impulso da política de identidade de extrema-esquerda. Ele regularmente relativiza o crime e defende os autores por razões sociais. Sua agenda não está centrada na ordem, valorização do trabalho ou segurança da classe média, mas em experiências radicais que já levaram ao caos na segurança pública, guetoismo e imigração de pessoas trabalhadores em muitas cidades da Europa e América.

A Hungria deixa claro: é completamente natural e correto um líder jurar sobre a Bíblia numa civilização com raízes cristãs. A Bíblia é a base da moralidade ocidental, do senso de estado e da ordem da lei - portanto, o juramento feito a ela está de acordo com a identidade religiosa e cultural do Ocidente. Jurar sobre o Alcorão é uma questão completamente diferente. A rejeição disto não é, obviamente, a rejeição da fé pessoal dos muçulmanos, mas sim o facto de o sistema de direito religioso islâmico estar em forte contradição com a maioria dos valores morais e políticos ocidentais. Não é coincidência que nos países muçulmanos seria impossível jurar sobre a Bíblia a um líder de estado. Culturas não precisam ser trocadas. O que é natural não é isso aqui - e vice-versa.
De acordo com Our Country, um dos sintomas mais espetaculares da crise no mundo ocidental é o facto de ela nega suas próprias fundações: coloca marxistas no poder, relativiza o cristianismo, enquanto se retira para outras religiões e ideologias. Nós defendemos a proteção da civilização cristã, o direito à auto-identidade nacional, ordem e auto-defesa cultural. Respeitamos as crenças dos outros povos, mas não vamos desistir das nossas e não vamos permitir que a Europa ou o mundo ocidental se tornem numa área sem identidade e sem raízes. O nosso país não é negociável nesta questão: queremos uma civilização cristã, não um caos marxista e uma auto-submissão religiosa e cultural!

segunda-feira, 5 de janeiro de 2026

Quando a hipocrisia fala mais alto do que a liberdade...

A queda de um ditador deveria ser, numa democracia liberal, um momento de clareza moral. Um instante raro em que as diferenças ideológicas se suspendem perante um facto simples: um regime opressivo termina, um povo livra-se de um poder ilegítimo, e o mundo torna-se, ainda que imperfeitamente, um lugar menos injusto. No caso da Venezuela, nada disso aconteceu. Pelo menos não em Portugal.
Perante o colapso do regime de Nicolás Maduro, assistiu-se antes a um espectáculo de hesitação, desconforto e racionalização. Ninguém ousou defender abertamente o ditador, é certo. Mas muitos apressaram-se a explicar por que razão a sua queda era, afinal, problemática. O argumento-chave foi o de sempre: o sacrossanto “direito internacional”, invocado selectivamente, como arma retórica, não como princípio coerente.
Esta reacção revela uma profunda hipocrisia. Os mesmos que hoje erguem o direito internacional como um dogma absoluto nunca o mobilizaram com igual zelo para condenar a ditadura venezuelana, as eleições fraudulentas, a repressão política, a miséria imposta a milhões ou o êxodo massivo da população. O direito internacional só se torna súbita e miraculosamente relevante quando serve para travar uma acção americana — sobretudo se essa acção estiver associada a Donald Trump.

É aqui que entra o conhecido Trump Derangement Syndrome (TDS): a incapacidade de avaliar qualquer acontecimento internacional fora do reflexo pavloviano do anti-trumpismo. Tudo o que Trump faz está mal por definição; tudo o que os Estados Unidos fazem é suspeito à partida. A análise deixa de ser política ou estratégica e passa a ser emocional, moralista e previsível.
Daí surgirem comparações absurdas, como a equiparação entre a intervenção americana na Venezuela e a invasão russa da Ucrânia. A comparação não resiste a uma análise minimamente séria. Na Ucrânia, uma democracia foi atacada por uma ditadura, resultando numa guerra prolongada, centenas de milhares de mortos e milhões de refugiados. Na Venezuela, uma ditadura foi derrubada, sem vítimas civis, por uma acção cirúrgica que pôs termo a um regime ilegítimo. Confundir estes dois cenários é mais do que erro: é cegueira ideológica.
Também se ignoram factos politicamente incómodos. Maduro sempre apoiou a Rússia na agressão à Ucrânia. Nunca manifestou solidariedade com os ucranianos. Ainda assim, muitos dos que hoje choram o “direito internacional” parecem mais indignados com Washington do que alguma vez estiveram com Moscovo ou Caracas.
A insensibilidade em relação aos portugueses da Venezuela é outro aspecto revelador. Durante anos, milhares viveram sob um regime que destruiu a economia, corroeu a segurança e forçou a emigração em massa. Ainda assim, figuras da política portuguesa preferiram condenar a intervenção americana a celebrar o fim de um poder que directamente afectou compatriotas seus. Para alguns, Maduro era um mal menor face ao pecado original de uma acção liderada pelos EUA.
Há, ainda, a leitura geopolítica simplista que anuncia o fim da ordem internacional e a legitimação das “esferas de influência” da Rússia e da China. Mas essa leitura ignora que a intervenção na Venezuela pode precisamente reforçar a posição americana, enfraquecer a China enquanto potencial aliada energética de Caracas, pressionar a Rússia através do mercado petrolífero e expor, mais uma vez, a irrelevância estratégica da Europa, dividida entre a submissão envergonhada e a indignação retórica.
O mundo mudou. As organizações internacionais estão fragilizadas, a Europa fala muito e pesa pouco, e o idealismo jurídico já não substitui o poder real. Lamentar isso não o faz desaparecer. Recusar-se a pensar o mundo como ele é, preferindo fantasias morais selectivas, apenas garante mais irrelevância.
A queda de um ditador é sempre motivo de alegria. Tudo o resto — as reticências, as comparações delirantes, as invocações selectivas do direito internacional — diz mais sobre quem comenta do que sobre o acontecimento em si. Talvez seja tempo de abandonar preconceitos automáticos, olhar os factos de frente e reconhecer uma verdade simples: nem tudo o que desagrada às esquerdas é um erro histórico, e nem toda a acção americana é, por definição, um crime moral.