sexta-feira, 28 de agosto de 2026

Alain de Benoist por Rui Albuquerque

 O último número de "Éléments" (221), a revista da nova direita francesa, movimento lançado e dirigido há décadas por Alain de Benoist, abre com um seu editorial com o título "Le libéralisme autoritaire", que é mais um violento ataque ao liberalismo.


A filosofia política de Benoist e da "Nouvelle droite" sempre foi profundamente antiliberal. Em quase todas as suas obras, contando-se várias dezenas delas desde a passada década de 50, o pensador francês manifesta o seu antiliberalismo, considerando-o como a filosofia das Luzes que foi responsável pela decadência do Ocidente, uma ideia cara a muitos filósofos desde que o Iluminismo se tem vindo a impor desde o século XVIII. Benoist tem uma concepção intencionalmente reducionista da filosofia liberal, considerando que esta se esgota numa única ideia de "mercado", entendido como um simples local de trocas mercantis e não o espaço societário de relacionamento humano que permite o desenvolvimento de uma ordem social cooperativa e cataláctica. Aquilo que é, para os liberais, a livre cooperação entre os indivíduos e as suas instituições, em vista da ordenação das suas pretensões sem a necessidade de um intermediário autoritário permanente, para a nova direita francesa é um mercadejar interesseiro e primário, que retira dimensão e espessura existencial ao Homem.


O ponto central desta crítica está na condenação daquilo a que chamam (indevidamente) o " homo economicus liberal": um ser individual, frio, atomizado, racional e egoísta, exclusivamente preocupado com o lucro que poderá alcançar das transações em que se envolve. Este cliché redutor ridiculariza uma filosofia política que tem a sua base no Humanismo e na teoria sobre a liberdade, o indivíduo, a sociedade e o Estado, que longe está de se esgotar neste pensamento simplificado, que nem sequer é económico, com que costuma ser atacado pelos seus detratores. De resto, nunca o Liberalismo Clássico - que foi sempre uma filosofia sobre o homem na sua relação com o poder soberano – aceitou o paradigma do "homo economicus" como bom, menos ainda como um postulado teórico seu.

Mas o que, por ora, interessa aqui é reter o facto desta «nova direita» não aceitar o mundo ocidental que nasceu das Luzes, de que, melhor ou pior, são herdeiros as democracias e o Mundo em que vivemos. No mesmo número da revista sucedem-se dois interessantes artigos sobre o chamado “conservadorismo nacional-revolucionário”, com expressão muito intensa na Alemanha do início do século XX e do período entre as duas grandes guerras. Intelectuais como Arthur Moeller, Werner Sombart, Oswald Spengler, Carl Schmitt ou Ernst Junger contribuíram, com responsabilidades desiguais, para uma ideologia que paradoxalmente se diz simultaneamente conservadora e revolucionária, porque é, por um lado, contra o mundo moderno em que se vivia (e vive), decorrente do Iluminismo, e conservadora, por outro, porque quer recuperar os valores, princípios e formas de vida que lhe eram anteriores. Essencialmente, trata-se de um reacionarismo contra o mundo moderno, de que hoje Benoist, Duguin e certos movimentos da direita e da esquerda populista e extremada são defensores. O mundo que exite é mau, é péssimo, foi uma corrupção de um outro quase idílico que o liberalismo, o parlamentarismo e a democracia destruíram. É isto que sumariamente pensam.

Esta leitura enviesada e perversa da realidade tem, hoje, uma enorme influência cultural, política e partidária, muitas vezes não intuída, refletindo-se na crítica da posição ocidental de defesa da Ucrânia contra a Rússia (Putin até restaurou a religião e a Igreja no seu país, tal como outrora Napoleão o fez, outrora, em França...), na condenação das democracias liberais, no ataque à União Europeia (que se põe frequentemente a jeito...), que, segundo eles, deveria regredir para algo que nunca foi, uma mera união aduaneira e não um espaço de integração de soberanias, etc. Em 2027 a vitória previsível de Le Pen em França, que sempre contou com o aporte cultural e ideológico de Benoist, esclarecerá até onde este reacionarismo será capaz de chegar.