Numa época em que a tecnologia promete libertar tempo humano, há quem continue a tratar a reforma como se estivéssemos presos à velha fábrica do século XIX.
Há qualquer coisa de profundamente contraditório, para não dizer grotesco, no discurso dominante sobre a idade da reforma.
Durante a semana, ouvimos falar de inteligência artificial, de automação, de produtividade, de máquinas que fazem em segundos aquilo que antes exigia horas, dias ou semanas de trabalho humano. Ao fim-de-semana, aparecem os contabilistas do costume a explicar, com ar de ciência definitiva, que afinal todos teremos de trabalhar mais anos, reformar-nos mais tarde e aceitar que a velhice seja apenas uma nova fase da vida laboral.
Isto é: a máquina trabalha mais, produz mais, calcula mais, substitui mais, acelera mais — mas o homem deve continuar preso à velha lógica do relógio de ponto. A tecnologia serve para aumentar margens, lucros, índices de produtividade e fantasias de eficiência. Mas quando se fala em devolver tempo às pessoas, em permitir uma reforma mais cedo, em transformar progresso técnico em progresso humano, então já aparece o sermão da “sustentabilidade”.
A sustentabilidade, neste debate, tornou-se palavra mágica. Serve para tudo. Serve para justificar o aumento da idade da reforma, para assustar os trabalhadores mais jovens, para culpar os reformados, para dramatizar a demografia e para esconder a pergunta essencial: se a sociedade produz mais com menos esforço humano directo, por que razão esse ganho não deve traduzir-se também em mais tempo de vida livre?
Não se trata de negar a realidade demográfica. É evidente que o envelhecimento da população coloca problemas sérios. É evidente que o sistema de pensões precisa de prudência, equilíbrio e responsabilidade. Mas responsabilidade não é aceitar sem discussão que o único ajustamento possível seja trabalhar cada vez mais tempo. Isso não é política social: é contabilidade sem imaginação.
A pergunta justa não é apenas: “como se paga a reforma?” A pergunta justa é também: “quem fica com os ganhos da produtividade?” Se esses ganhos forem absorvidos apenas pelo capital, pela burocracia, pela fiscalidade e pela maquinaria abstracta dos grandes números, então a tecnologia não libertará ninguém. Apenas sofisticará a servidão.
Durante décadas, prometeu-se que o progresso técnico aliviaria o esforço humano. Hoje, quando esse progresso finalmente chega com uma força quase brutal, dizem-nos que o trabalhador deve preparar-se para trabalhar até mais tarde. É uma espécie de burla histórica: ontem vendia-se a modernidade como libertação; hoje usa-se a modernidade como argumento para prolongar a sujeição.
Baixar a idade da reforma não deve ser tratado como devaneio irresponsável. Pode e deve ser discutido com seriedade, com contas, com transições graduais, com incentivos adequados, com diferenciação entre profissões e com atenção especial aos trabalhos fisicamente mais duros. Mas não deve ser interditado por um dogma tecnocrático que transforma cada ano adicional de vida numa oportunidade para mais um ano de trabalho.
Há profissões onde a idade pesa de forma evidente. Há corpos gastos antes dos sessenta. Há vidas laborais que não cabem nas planilhas dos comentadores de estúdio. E há uma diferença moral profunda entre viver mais e ser obrigado a trabalhar mais porque se vive mais.
O progresso só merece esse nome se servir o homem. Se a automação, a inteligência artificial e a produtividade acrescida não permitirem reduzir tempo de trabalho, aliviar carreiras longas e tornar a reforma uma etapa digna da vida, então talvez não estejamos perante progresso. Talvez estejamos apenas perante uma forma mais moderna de exploração.
A baixa da idade da reforma deve, por isso, voltar ao debate público sem complexos. Não como promessa demagógica, mas como horizonte político legítimo. Uma sociedade tecnologicamente avançada não pode continuar a pensar o trabalho com a cabeça de uma fábrica do século XIX e a alma de uma repartição de finanças.
Porque, no fim, a questão é simples: se a máquina trabalha cada vez mais, por que motivo há-de o homem trabalhar até cair?
Eis a pergunta que os contabilistas do inevitável preferem não ouvir. Talvez porque, se a ouvissem, teriam de admitir que a velha contabilidade já não chega para governar uma sociedade onde o tempo humano continua a ser o único bem verdadeiramente irrepetível.