O artigo de José Manuel Fernandes que junto tem o mérito raro de enunciar, com clareza desarmante, aquilo que grande parte do sistema político português continua a recusar admitir: o regime mudou — não por vontade das elites, mas por imposição dos eleitores.
Durante décadas, o sistema assentou num equilíbrio confortável entre dois partidos centrais que, alternando no poder, garantiam não apenas a governação, mas também o controlo efectivo do regime. Esse modelo, herdeiro do consenso pós-1982, permitia ao PS oscilar entre a ambição de hegemonia e a função de charneira, sempre com a convicção implícita de que nada de estrutural poderia acontecer fora do seu perímetro de influência.
Esse mundo acabou.
A partir de 2015, com a opção do PS de António Costa por uma governação sustentada à esquerda, rompeu-se um conjunto de convenções não escritas que haviam garantido estabilidade ao sistema. Ao fazê-lo, o PS abriu a porta a uma lógica de polarização e de desgaste que, inevitavelmente, viria a produzir reacções fora do eixo tradicional.
O surgimento de um terceiro pólo político relevante — consolidado nas eleições de 2024 e 2025 — não é um acidente, mas o resultado previsível de um conjunto de factores acumulados: degradação dos serviços públicos, bloqueios estruturais à mobilidade social, afastamento crescente entre elites e cidadãos, perda de soberania efectiva em áreas críticas e pressão migratória sem precedentes recentes.
Portugal, afinal, não era excepção.
O que se observa é a tradução nacional de uma tendência europeia mais vasta: a fragmentação dos sistemas partidários tradicionais e a emergência de forças que capitalizam o descontentamento dos sectores que se sentem excluídos do progresso prometido. A ilusão de que o país estava imune a essa dinâmica revelou-se, como tantas outras, uma construção confortável — mas falsa.
Perante esta realidade, seria expectável um mínimo de adaptação estratégica.
Mas é precisamente aí que o PS falha.
O congresso socialista, longe de representar um momento de reflexão, confirmou antes a persistência de uma leitura desfasada do país. Insiste-se na narrativa de uma bipolarização artificial, tenta-se reduzir o novo quadro político a uma anomalia passageira e, sobretudo, evita-se qualquer confronto sério com os erros acumulados ao longo de anos de governação.
Mais grave ainda: mantém-se a tentação de preservar o controlo do aparelho de Estado — seja através de acordos tácitos, seja pela gestão das chamadas “quotas de regime” — como se essa arquitectura institucional pudesse sobreviver intacta a uma transformação tão profunda do eleitorado.
No fundo, o PS continua a comportar-se como partido dominante de um sistema que já não existe.
O episódio em torno do Tribunal Constitucional é, neste sentido, exemplar.
A contradição entre o discurso de exclusão política e a prática de acomodação institucional revela não apenas oportunismo, mas uma incompreensão fundamental do momento político.
A incapacidade de fazer o luto
E talvez o problema maior resida precisamente aí. No luto pelas políticas falhadas, pelos erros de governação, pelas rupturas que ajudou a provocar e cujas consequências agora recusa assumir. Sem esse exercício de reconhecimento, não há aprendizagem — apenas repetição.
Ora, a história política raramente perdoa a quem insiste em interpretar um tempo novo com categorias antigas.
Porque quando um partido deixa de compreender a sociedade que pretende governar, não é apenas a sua estratégia que falha — é a sua própria razão de existir que começa a dissolver-se.
E, como tantas vezes acontece, o regime só percebe que mudou… quando já não manda nele.















