sábado, 7 de novembro de 2026

DAS TENDAS A BELÉM

  A DEMOCRACIA NÃO PRECISA DE SALVADORES

O consenso presidencial, as contradições socialistas e a tentação de confundir visibilidade com representação.

José Costa-Deitado

O MILAGRE ANUNCIADO

«Seguro tem um plano brilhante. Mas não para o PS», 
uma contradição deliciosa: 
ao exigir entendimento entre os partidos, António José Seguro promove um processo que inclui o CHEGA e enfraquece as «linhas vermelhas» socialistas. A celebração do Presidente como grande conciliador pode, assim, esconder um problema para o partido de onde veio. Mas o episódio merece ser integrado num quadro mais vasto: o das acampadas, da crise da habitação e da facilidade com que uma parte do jornalismo transforma gestos políticos em acontecimentos redentores.[1]

Depois das tendas, dos confrontos e das proclamações, chega o Presidente a exigir que todos se sentem. E logo se anuncia a descoberta da solução. Como se faltassem cadeiras ao país, quando o que falta são casas, decisões coerentes e responsabilidade pelos resultados.

DO VOTO CONTRA AO PODER DE CONCILIAR

Seguro, o candidato que muitos consideravam improvável, chegou a Belém apoiado por uma convergência muito mais ampla do que o seu espaço partidário. Uma parte dessa convergência teve um propósito assumidamente negativo: impedir a vitória de André Ventura. Não se trata de adivinhar intenções individuais. António Filipe distinguiu expressamente o voto em Seguro do apoio às suas posições, justificando-o pela necessidade de derrotar o adversário. Outros apoios tiveram fundamentos diferentes. Não seria rigoroso reduzir todos os eleitores à mesma motivação.[2]

Essa distinção não diminui a legitimidade do Presidente; esclarece os limites políticos da coligação que o elegeu. Uma maioria formada também pela rejeição de um candidato não constitui, automaticamente, uma maioria favorável a um programa comum. Seguro recebeu um mandato presidencial, não uma procuração para dissolver as divergências nacionais na sua vontade de conciliação.

Há, por isso, uma ironia particularmente instrutiva: o Presidente que beneficiou da mobilização contra Ventura acaba por favorecer um diálogo em que o partido de Ventura participa. A realidade parlamentar resiste às exclusões que tantas vezes se apresentam como imperativos morais.

A DEMOCRACIA NÃO É UMA MESA DE UNANIMIDADES

Na tradição da democracia representativa, os partidos existem porque os cidadãos discordam. Divergem sobre propriedade, impostos, investimento, protecção social e intervenção do Estado. Procurar compromissos é necessário; apresentar a divergência como defeito de carácter é empobrecer a política.

O Presidente pode estimular o diálogo. Mas o diálogo só vale alguma coisa quando esclarece o que cada participante aceita, rejeita e se compromete a executar. Uma fotografia conjunta não substitui esse trabalho. E um acordo sem escolhas, prazos e responsabilidades pode servir apenas para distribuir a culpa quando nada acontecer.

Também o Governo da AD tem de perceber isto. A autoridade política não se recupera por sucessivas encenações de disponibilidade. Recupera-se apresentando propostas claras, defendendo-as e construindo as maiorias necessárias. Quem governa não pode esperar que Belém lhe forneça iniciativa e que os telejornais lhe forneçam coragem.

A PRAÇA NÃO REPRESENTA OS AUSENTES

Tenho defendido no ReVisões que a crise da habitação é demasiado séria para ser entregue ao monopólio político das acampadas. Quem protesta por não conseguir pagar uma renda merece ser ouvido. Quem organiza um movimento tem o direito de apresentar exigências. Nenhum desses direitos transforma os participantes numa representação do conjunto dos portugueses.

Uma assembleia numa praça representa quem nela participa. Não representa automaticamente os trabalhadores que estão ao serviço, os idosos que permanecem em casa ou as famílias que procuram habitação sem aderirem a um programa revolucionário. O braço levantado não conta os ausentes.

Quem viveu o PREC conhece a tentação de fabricar legitimidades paralelas. Não é necessário confundir épocas para reconhecer o mecanismo: uma minoria organizada apresenta-se como intérprete privilegiada do povo e procura impor ao poder eleito uma autoridade que não recebeu nas urnas. A memória serve precisamente para identificar tentações recorrentes, antes de elas adquirirem respeitabilidade por repetição.

A DECISÃO JUDICIAL E A CONFUSÃO POLÍTICA

A decisão da juíza Ana de Campos acrescentou outra dimensão ao problema. Segundo a cobertura publicada, a sentença incidiu sobre a pretensão de Renata Cambra, admitindo a sua permanência com uma tenda e afastando uma interpretação automaticamente proibitiva do limite horário. Impôs, porém, condições e não reconheceu um direito ilimitado à ocupação do espaço público.[3]

O movimento apresentou a decisão como uma vitória da acampada. A própria notícia assinalou, contudo, a falta de clareza quanto à possibilidade de todos os manifestantes utilizarem tendas ou de essa protecção respeitar apenas à autora da acção. É nesta passagem de uma decisão concreta para uma proclamação colectiva que se instala parte da confusão.[4]

Uma decisão judicial deve ser cumprida e pode ser criticada. O respeito pelos tribunais não exige silêncio intelectual; exige que se distinga o que foi decidido daquilo que cada protagonista gostaria de ver decidido. E a protecção judicial de uma forma de protesto não confere aos seus organizadores um mandato político superior ao dos representantes eleitos.

O JORNALISMO QUE ESCOLHE OS SEUS PROTAGONISTAS

É aqui que regressa a responsabilidade do jornalistado e do comentariado. Quando a reportagem adopta as categorias dos activistas, transforma a polícia no suspeito permanente e apresenta o Presidente como salvador, deixa por esclarecer aquilo que verdadeiramente importa.

Quem organiza? Quem representa? Que propostas apresenta? Quanto custam? Que consequências terão? E o que diz exactamente uma decisão judicial, para além do comunicado de quem a celebra?

O escrutínio da actuação policial é indispensável. A investigação de eventuais excessos também. Mas nenhuma dessas obrigações dispensa o escrutínio dos movimentos, dos seus dirigentes e das suas estratégias. O jornalismo militante começa quando a simpatia pela causa se transforma em dispensa de perguntas.

Uma democracia precisa de cidadãos informados sobre alternativas. Não precisa de espectadores conduzidos, de directo em directo, para a conclusão previamente escolhida pela redacção.

UMA DIREITA QUE TRATE DA HABITAÇÃO

A resposta das Novas Direitas não pode limitar-se à denúncia das tendas. A habitação é condição de estabilidade familiar, autonomia pessoal e continuidade das comunidades. Uma direita que invoque a tradição, mas ignore a dificuldade de constituir família e encontrar casa, abandona uma parte essencial daquilo que afirma defender.

É necessário facilitar a construção e a reabilitação, dar previsibilidade ao arrendamento, combater abusos e assegurar protecção efectiva a quem dela precisa. A segurança dos proprietários e a protecção dos inquilinos vulneráveis exigem soluções concretas, sem transformar uns em inimigos sociais dos outros.

A esquerda não é proprietária da questão social. Mas só perderá esse monopólio quando encontrar uma direita capaz de responder às necessidades, para além de contestar as palavras de ordem.

O POVO NÃO PRECISA DE LICENÇA

A conclusão terá um alcance que ultrapassa o embaraço do PS. A participação do CHEGA não nasce de uma absolvição presidencial, nem depende da condescendência socialista. Nasce dos votos que recebeu. Discordar das suas propostas é exercício democrático; tratar os seus eleitores como cidadãos politicamente menores é outra coisa.

Seguro pode promover entendimentos, o Governo deve governar, os tribunais devem decidir e os jornalistas devem escrutinar. A confusão começa quando cada um pretende acrescentar à sua função uma autoridade sem limites.

As tendas não substituem as urnas. As sentenças não escrevem programas de governo. E Belém não transforma divergências legítimas em unanimidades por decreto de boa vontade.

O país precisa de casas e de instituições que cumpram o seu papel. Salvadores já tem demasiados.


Notas e referências

[1] Miguel Pinheiro, «Seguro tem um plano brilhante. Mas não para o PS», Observador, 7 de Novembro de 2026.

[2] Cristina Sambado, «Seguro ou Ventura. Quem apoia quem na segunda volta das presidenciais?», RTP, 19 de Janeiro de 2026.

[3] Mariana Furtado e Luís Rosa, «Sem “cheque em branco”, mas com “tenda” como “símbolo”: a decisão do tribunal sobre Renata Cambra», Observador, 2 de Novembro de 2026. A descrição da decisão neste artigo assenta na cobertura jornalística, não na consulta directa do texto integral da sentença.

[4] Mariana Furtado, «Tenda “pode fazer parte do próprio protesto”. Acampada de Lisboa diz que Tribunal lhe deu razão e garante que “vai continuar no Rossio”, Observador, 2 de Novembro de 2026.

A extrema-esquerda no islamo-esquerdismo

Quando a conquista do poder exige a renúncia aos princípios

A morte pode preceder a derrota

Uma família política pode continuar a conquistar mandatos depois de ter perdido a sua razão de existir. Conserva a organização, os profissionais, os comentadores de serviço e a linguagem dos grandes combates; falta-lhe apenas a fidelidade aos princípios que justificavam esses combates. É neste sentido que a expressão «morte da esquerda» merece ser discutida: como falência moral e intelectual, antes de qualquer desaparecimento eleitoral.

O artigo de Jérémy Silvares Jerónimo, publicado no Observador, coloca o dedo numa contradição que considero central: a indulgência de uma parte da esquerda perante forças religiosas e políticas que negam liberdades que essa mesma esquerda proclama defender. A crítica interessa-me sobretudo pelo que revela sobre a transformação da política em administração de clientelas. Quando uma convicção depende do eleitorado que pode ofender, deixou de ser uma convicção.[1]

Uma distinção que dá força à crítica

Uso «islamo-esquerdismo» para designar uma convergência política entre sectores da esquerda e projectos islamistas, não uma identidade entre os muçulmanos e esses projectos. A expressão é polémica e exige precisão. O cidadão muçulmano tem os mesmos direitos e deveres de qualquer outro cidadão; o islamismo político deve ser julgado pelas suas propostas de organização do poder, da sociedade e da liberdade. Confundir os dois seria oferecer aos seus dirigentes o monopólio da representação de milhões de pessoas.

Essa distinção torna a crítica mais exigente. A liberdade religiosa protege a crença, mas também a mudança de religião, a descrença e a crítica. Uma democracia que aceite intimidar quem abandona uma fé ou denuncia uma imposição religiosa está a abandonar pessoas concretas em nome de uma abstracção chamada «respeito cultural». Nenhuma comunidade pode converter-se numa zona de excepção aos direitos individuais.

Mélenchon e a tentação da clientela

Jérémy Silvares Jerónimo interpreta a evolução de Jean-Luc Mélenchon e de La France insoumise como uma mudança estratégica, acentuada depois de 2017: ganhar nos bairros populares o apoio que faltava para chegar ao poder. A referência a Éric Coquerel e aos votos em falta surge no seu artigo atribuída a uma investigação de Antoine Oberdorff. Importa conservar essa atribuição, em vez de transformar uma citação indirecta numa confissão documental que aqui não foi examinada.[1]

Procurar votos nesses bairros é perfeitamente legítimo. O problema começa quando se substitui a integração dos cidadãos numa comunidade política comum pela negociação com identidades apresentadas como blocos eleitorais. O trabalhador passa a interessar menos pela sua condição social do que pela origem, pela religião ou pelo ressentimento que alguém julga poder mobilizar. A antiga promessa de emancipação arrisca-se, assim, a dar lugar a uma nova dependência: a do eleitor perante os intermediários que falam em seu nome.

O universalismo à escolha do freguês

Há uma prova simples para qualquer discurso emancipador: aplica os mesmos critérios aos seus aliados e aos seus adversários? Se denuncia uma imposição patriarcal numa tradição e a desculpa noutra, a resposta é negativa. Se defende a irreverência perante o Cristianismo, mas trata a crítica de outra religião como uma agressão intolerável, está a estabelecer uma hierarquia de liberdades. Se a autonomia da mulher depende da conveniência diplomática ou eleitoral, deixou de ser autonomia.

O mesmo se aplica à hostilidade racial. Atribuir culpa colectiva a pessoas por serem brancas não corrige o racismo: reproduz o seu princípio, que consiste em julgar o indivíduo pela ascendência. A responsabilidade histórica exige conhecimento, contextos e agentes identificáveis. Uma culpa transmitida pelo nascimento pertence à teologia da condenação, não à justiça. E uma esquerda que aceita essa regressão está a demolir o universalismo com que durante tanto tempo legitimou a sua superioridade moral.

O teste do Hamas

A polémica em torno de Mathilde Panot, em Outubro de 2023, ilustra o problema da linguagem política. Panot condenou crimes de guerra do Hamas, mas recusou qualificá-lo directamente como organização terrorista. Registar a condenação é necessário para não falsificar a sua posição; registar a recusa é igualmente necessário para avaliar a escolha das palavras. A disputa não nasceu de uma inexistente condenação, mas dos limites que a dirigente lhe colocou.[2]

Defender os direitos dos palestinianos e exigir responsabilidades ao Governo de Israel são posições compatíveis com a condenação inequívoca do terrorismo do Hamas. A morte deliberada de civis e a tomada de reféns não se tornam emancipadoras por serem praticadas sob uma bandeira considerada anti-imperialista. Uma esquerda fiel ao universalismo deveria ser a primeira a recusar essa contabilidade moral. Quando hesita, deixa a suspeita de que o nome do agressor pesa mais do que a condição da vítima.


Houellebecq: a disponibilidade para ceder

É aqui que Submissão oferece uma provocação literária fecunda. Na França imaginada por Michel Houellebecq, uma solução política islâmica torna-se aceitável através das acomodações do sistema. François, o professor que narra o romance, permite observar uma capitulação sem grandeza: a adaptação de quem pesa vantagens privadas e já não encontra razões suficientemente fortes para resistir. O desconforto do livro nasce dessa banalidade, dessa facilidade com que se arranja uma justificação para continuar confortavelmente instalado.[3]

André Azevedo Alves destacou, numa recomendação de leitura de 2015, o retrato da decadência intelectual que a sociedade ocidental inflige a si própria. Rui Ramos acentuou, por seu lado, a capacidade de sobrevivência da oligarquia no cenário do romance. São pistas complementares: a fraqueza das convicções e a força dos interesses podem trabalhar juntas. Uma elite pode declarar ultrapassado tudo aquilo que deveria transmitir, desde que não sejam ultrapassados os seus lugares.[3][4]

Aniquilação permite prolongar a reflexão por outra via. O universo de Paul Raison, próximo do poder ministerial e envolvido numa conjuntura eleitoral perturbada, põe em contacto a maquinaria do Estado com a vulnerabilidade humana. Leio essa aproximação como um aviso sobre os limites da administração: uma sociedade pode possuir especialistas, procedimentos e estratégias de comunicação, e continuar sem saber o que deseja preservar. É uma interpretação literária, não uma demonstração sociológica.[5]

A demografia não dispensa a política

A interrogação sobre imigração, natalidade e maiorias futuras merece discussão séria. Não autoriza, porém, a tratar a origem ou a religião como um boletim de voto hereditário. Entre uma alteração populacional e um resultado eleitoral existem nacionalidade, idade, participação, integração, mobilidade social e escolhas individuais. Anunciar quem governará dentro de vinte anos sem examinar essas variáveis seria substituir a análise por uma fatalidade.

A questão política permanece inteira: que instituições integram, que escola transmite a língua e a história, que Estado aplica a lei e que partidos favorecem a cidadania comum em vez da dependência comunitária? Uma sociedade que abandona estas tarefas cria terreno para empresários de identidades. A resposta conservadora deve exigir fronteiras governáveis, integração efectiva e igualdade perante a lei, sem abdicar da dignidade de cada pessoa.

O aviso para Portugal

Portugal deve discutir estas escolhas sem importar mecanicamente o cenário francês. Aos partidos, às universidades e aos órgãos de comunicação social cabe responder a perguntas concretas: há princípios que se tornam indizíveis perante determinados interlocutores? A defesa das mulheres, dos dissidentes religiosos e da liberdade de expressão mantém-se quando contraria uma causa politicamente estimada? O jornalista que exige coerência a uns exige-a também aos outros?

Às Novas Direitas cabe associar a defesa da continuidade nacional à questão social: trabalho, habitação, segurança e serviços públicos. Uma comunidade política enfraquece quando deixa de oferecer pertença e protecção, mas também quando os seus dirigentes se envergonham da herança que receberam. Defender essa herança exige conhecê-la, transmiti-la e torná-la habitável para quem aceita participar na vida comum.

A esquerda de que aqui falo pode sobreviver eleitoralmente à sua própria incoerência. O que não pode é abandonar a liberdade em nome dos aliados e continuar a reclamar o exclusivo da emancipação. Talvez esta seja a sua morte mais profunda: conservar o vocabulário da libertação depois de ter aprendido a negociar os termos da submissão.

Notas e referências

[1] Jérémy Silvares Jerónimo, «O islamo-esquerdismo, ou a morte da esquerda», Observador, 5 de Novembro de 2026. As referências a Coquerel e Oberdorff são aqui atribuídas a este artigo; não constituem confirmação independente da fonte francesa.

[2] La Dépêche, 10 de Outubro de 2023, sobre a condenação de crimes de guerra e a recusa da qualificação de organização terrorista.

[3] Michel Houellebecq, Submissão (2015); Rui Ramos, «As vantagens da submissão», Observador, 6 de Abril de 2015. O cenário do romance é ficcional.

[4] André Azevedo Alves, «Pare de acreditar no Governo (e outras recomendações de final de ano)», Observador, 19 de Dezembro de 2015.

[5] Michel Houellebecq, Aniquilação (Anéantir, 2022). Referência bibliográfica e sinopse. A leitura política apresentada é da responsabilidade do autor deste artigo.

MAGA em crise

As eleições intercalares infligiram uma pesada derrota a Donald Trump e abriram uma fractura na liderança republicana. Enquanto a imprensa destaca o castigo eleitoral, o vice-presidente J. D. Vance aponta o principal responsável: a guerra com o Irão, cujo preço político considera impossível ignorar.
Trump admite que o conflito prejudicou os republicanos ao encarecer os combustíveis, mas insiste que voltaria a agir da mesma forma para impedir o Irão de possuir armas nucleares. Longe de aceitar um papel secundário, deixa mesmo em aberto o recomeço da guerra.
A vitória democrata alcançou antigos bastiões de Trump, como Ohio e Texas, e chegou ao Kansas, que não elegia um democrata para o Senado desde 1932. Entre apoiantes desiludidos do MAGA, cresce a convicção de que Netanyahu e os sectores mais belicistas republicanos conduziram o Presidente a uma guerra que comprometeu a sua presidência.



sexta-feira, 6 de novembro de 2026

quarta-feira, 4 de novembro de 2026

GÉMEOS

Jorge Fernandes expõe uma doença política que também conhecemos em Portugal: a substituição da governação pela propaganda e da responsabilidade pelo espantalho da direita. Nenhum país se conserva com superioridade moral proclamada, causas internacionais e acordos destinados apenas a prolongar o poder. A segurança, os serviços públicos e a coesão nacional exigem competência e prestação de contas. À direita caberá demonstrar maturidade para construir uma alternativa. O medo do adversário pode prolongar um Governo, mas não chega para governar um país.

Os acidentes ferroviários representam o desmoronar da imagem de modernização que Pedro Sánchez procurava projectar. A alta velocidade, símbolo da transformação de Espanha numa potência europeia, tornou-se o retrato das fragilidades de um Governo mais empenhado na sua propaganda progressista do que na administração do país.

Sánchez passou os últimos três anos completamente desinteressado do país, mais preocupado em acções performativas – como ser o campeão da imigração descontrolada ou fazer da causa Palestiniana o centro do mundo — para tentar tornar-se uma espécie de bússola moral da Esquerda na Europa. Quanto ao país, não aprovou um único Orçamento do Estado, a primeira vez que um executivo da democracia acaba a legislatura nestas condições. Aprovou, segundo dados oficiais, apenas 37 leis em mais de três anos, fazendo desta a legislatura menos produtiva desde a democratização em 1978, muito longe de qualquer legislatura normal, de qualquer governo, de qualquer partido.

A conta acabaria por chegar.
Durante três anos, Sánchez privilegiou causas internacionais e gestos de afirmação ideológica, procurando apresentar-se como referência moral da esquerda europeia. Internamente, deixou uma legislatura sem novos Orçamentos do Estado e com uma produção legislativa excepcionalmente reduzida. A distância entre a imagem cultivada e os resultados concretos acabou por cobrar o seu preço.

Governar exige decidir o que se constrói, conserva e renova. Segundo o autor, a degradação ferroviária reflecte a ausência de investimento planeado e fiscalizado, consequência de uma maioria parlamentar contraditória, absorvida pela negociação permanente com independentistas e parceiros à esquerda. A sobrevivência política de Sánchez sobrepôs-se às necessidades do país, enquanto o primeiro-ministro exigia explicações pelos problemas como se não fosse responsável pela governação.

Contudo, uma vitória de Feijóo poderá não resolver o bloqueio. Dependente do Vox, o líder do PP enfrentará exigências sobre imigração, prioridade nacional e desregulação económica, além da resistência de Bruxelas, dos eleitores moderados e de sectores do próprio partido. Os acordos regionais não garantem uma solução nacional simples.

A ironia é que Sánchez, tendo transformado o medo do Vox num instrumento central da sua política, contribuiu para fortalecer o partido de Abascal, que poderá condicionar também o próximo Governo.

Se as negociações da direita encalharem, Espanha arrisca-se a prolongar a instabilidade: maiorias frágeis, orçamentos bloqueados e alternância de protagonistas sem mudança de método. A grande rede ferroviária ficará como símbolo de um país que soube construir a modernização, mas falhou na responsabilidade de a preservar.

segunda-feira, 2 de novembro de 2026

Budapeste 4 de Outubro de 1956! Estaremos agora com um problema de memória?

A 4 de outubro de 1956, mais de 2 mil tanques soviéticos romperam as frágeis defesas húngaras e entraram em Budapeste, determinados a esmagar o movimento popular que eclodira duas semanas antes e que obrigara o regime comunista a recuar e a aceitar as reivindicações dos estudantes e depois da população que encheu ruas e praças às centenas de milhar. Doze anos antes de Praga, Budapeste conheceu a madrugada sangrenta e a Hungria foi obrigada a submeter-se de novo à vontade de Moscovo. Von der Leyen esteve recentemente no Parlamento magiar, onde num discurso honrou os heróis daqueles dias, mas aparentemente a memória do que representou o comunismo parece ter se apagado de muitas mentes. Nas acampadas de Lisboa e do Porto, não têm sido poucos os que têm apelado diretamente à revolução comunista, até os que têm defendido abertamente a necessidade de violência para derrubar a democracia, a que chamam democracia burguesa. (Carla Jorge Carvalho)

Talvez valha, por isso, a pena recordar o que significou o comunismo e por que se morreu nas ruas de Budapeste a combatê-lo:
Há responsabilidade do nosso sistema cultural e do nosso sistema de ensino, que parece que esquece o que foi a verdadeira tragédia da experiência comunista no século XX e aquilo que ainda hoje resta dessa mesma experiência, porque ainda temos países pra ver como é que as coisas funcionam. Ainda temos a Coreia do Norte, ainda temos Cuba, ainda temos o autoritarismo chinês, temos essas coisas todas. Mas aparentemente, para pelo menos alguns dos manifestantes, e são manifestantes que não estão ali a ser corridos da manifestação, como foi referido, aquele manifestante do partido Reconquista que não teve o direito a manifestar, digamos assim. Eles podem lá estar e dizer: "Dê-nos o microfone", e até controlam aquelas manifestações. Uma das coordenadoras, por exemplo, da manifestação em Lisboa, Priscila Valadão, uma brasileira, basta ir ao Instagram dela e ela não é apenas como comunista, é como marxista-leninista e tem uma foice e um martelo tatuado no ombro, pelo menos é aquilo que aparece nas imagens. Dito isto, vale a pena recordar o que foi esta tragédia, porque teve muitos milhões de mortos e momentos de enorme dramatismo, como precisamente esse que aconteceu há 70 anos na Hungria. Muito rapidamente, depois falemos um pouco disso mais em detalhe. A revolta da Hungria foi uma revolta muito importante. Foi um dos primeiros momentos em que se percebeu com clareza o que aqueles regimes eram capazes de fazer. Quer dizer, antes havia as purgas, havia os julgamentos espetáculo, que eram todos ficcionados, havia as execuções, havia a fome, mas havia sempre alguém que dizia que era exagero, que não era verdade, que não era assim, que isso não tinha acontecido dessa forma. Inclusivamente, os que contavam o que se tinha passado, por exemplo, durante o Holodomor na Ucrânia, durante as purgas estalinistas na Rússia, os campos de concentração, o Gulag, muitas vezes eram ostracizados e nem sequer podiam escrever nos jornais, eram postos de parte, eram verdadeiramente transformados em párias. No caso da Hungria, aquilo aconteceu à frente dos olhos de toda a gente. Aquilo primeiro é uma revolução daquelas que acontecem muito poucas vezes, no sentido de ser absolutamente espontânea. As organizações todas da oposição tinham sido desmanteladas. Quer dizer, o dia a dia dos operários, dos trabalhadores na Hungria, viviam em casas miseráveis, muito pequenininhas, às vezes em partes de casa, porque era assim que as coisas funcionavam. Levantavam-se às 4h30 da manhã, iam pras fábricas. Nas fábricas, o dia começava com a leitura do jornal oficial do partido e depois tinham que trabalhar em fábricas que a maior parte delas não tinham utilidade nenhuma, não produziam bens de consumo, era a replicação da ideia da industrialização estalinista. E depois tinham ainda sessões de doutrinamento que podiam durar até às 22h. Portanto, praticamente não dormiam, não tinham o que comer ou tinham pouquíssimo que comer, não havia bens de consumo e a repressão era brutal. E nesse dia, no final de outubro, a 23 de outubro, os estudantes marcaram uma manifestação, porque havia alguns sinais de abertura. Já tinha morrido o Stalin, já tinha havido o 20º congresso, já tinha havido a denúncia do Stalin. O Rákosi, que era o grande stalinista húngaro, já tinha passado para uma espécie de segundo plano. Inclusivamente, eles já tinham reabilitado um outro dirigente comunista chamado László Rajk, que tinha sido executado precisamente. Quer dizer, era o chefe da polícia secreta e o Rákosi, como desconfiava dele e desconfiava de toda a gente, tinha o enforcado. Uma manifestação convocada, o regime começa por proibir, mas depois acha que talvez não faça mal. E são duas manifestações, há duas universidades de dois lados do rio em Budapeste, o Danúbio. Elas começam a andar, começam a crescer e quando é o final do dia, acontecem duas coisas extraordinárias. Primeiro, estão mais de 200 mil pessoas ou mais de meio milhão, os números não são totalmente claros, em frente ao Parlamento, uma praça muito grande. E de repente, sem ninguém saber vindo de onde, parece que pela primeira vez apareceu uma janela, alguém se lembrou de pegar na bandeira húngara, que é verde, branca e vermelha, e tirar do meio o selo comunista que lá estava nessa época. E, portanto, as bandeiras começam todas a ter um buraco assim no meio, na faixa branca, aparecem com um buraco e começa a ser a bandeira deste movimento. O dia depois acaba mal, porque há uma tentativa de ir à rádio para que a rádio retransmita as reivindicações dos estudantes. Isso acaba com tiros, acaba com mortes e a partir daí isto vai crescendo, o governo é substituído e há uma tentativa do novo governo, que é um senhor chamado Imre Nagy, de fazer uma espécie de glasnost ou uma primavera de Praga antes do tempo. E naturalmente, quando ele dá o passo de dizer: "Não queremos cá os russos". Ele era comunista, atenção, ele continuou tal como, por exemplo, Dubček mais tarde em Praga. "Nós não queremos é cá os russos, queremos o nosso modelo de socialismo." Os russos vêm por aí adentro com 150 mil homens e 2500 tanques, entram em Budapeste e há dezenas de milhares de mortos e 200 mil húngaros que fogem pela fronteira, sobretudo para a Áustria. Portanto, isto acontece porque o regime não oferecia nada às pessoas, era muito repressivo e era o modelo típico da ideia de que se pode controlar, através de uma máquina totalitária, toda a gente. A revolta acabou em sangue. Isto coincide, em termos internacionais, com uma outra grande crise internacional, que é a Crise do Suez. As duas aconteceram ao mesmo tempo e ninguém vai em apoio à Hungria e aos húngaros. E os húngaros, naturalmente, são esmagados. E segue-se um regime dirigido por alguém que tem um papel equívoco ao longo destes anos todos, um senhor chamado János Kádár, que depois se torna o grande dirigente húngaro, praticamente até à queda do Muro de Berlim e à queda daqueles regimes, mas a Hungria ainda começou a cair antes da Alemanha. Vamos falar disso tudo, vamos sobretudo tentar perceber por que tudo o que se passou nestes países, e não foi assim há tanto tempo, e não são assim tão longe de nós, parece ter se apagado da memória de pessoas que andam a dizer coisas como: "É preciso que a classe trabalhadora faça uma revolução para acabar com o regime, para tudo isso." Nós, inclusivamente, temos alguns sons e o interessante nos sons é que não é apenas o que as pessoas dizem, são as palmas que se ouvem em background. Vamos tentar perceber como é que se pode haver esta espécie de amnésia coletiva. (José Manuel Fernandes)

foi assim em 2022



domingo, 1 de novembro de 2026

Será mesmo possível que o povo espanhol lhes dê mais quatro anos em Moncloa?

Acredito que a depravação moral seja o conceito que melhor se encaixa na conferência de imprensa do Ministro dos Transportes. Vilência, mesquinhez, pequenez ou indignidade também se aplicam bem, especialmente a última. Mas a depravação moral engloba dois conceitos contraditórios no Sr. Puente. Um ele possui em abundância: depravação. E outro lhe falta completamente: moralidade.

Segundo o Sr. Puente, não era sua obrigação "estar no comando na terça-feira". Ignoremos o fato de o acidente ter ocorrido na quarta-feira, mas, em virtude de sua posição, o Ministro dos Transportes é o responsável final por tudo o que está sob sua alçada. Ele já fez algo semelhante em Adamuz com aquele comentário "Eu não soldei o trilho" , o que só aumenta a indignidade — agora faz todo o sentido — com que ele trata seu cargo.

Segundo o Sr. Puente, ele não está renunciando por obrigação de "estar no comando agora ", pois quando ofereceu sua renúncia ao governo, Pedro I, o Belo, disse-lhe que não deveria fazê-lo, pois seria "injusto", e também porque "isso não prejudica seu projeto para o país". De fato, ele afirma categoricamente que "não tem tempo nem vontade de pensar na campanha eleitoral", mas tem tempo — e também rancor, o que se encaixa melhor aqui — para atacar Ana Pastor pelo acidente ferroviário de Angrois em 2013, no qual 80 pessoas morreram e onde o PSOE permaneceu em silêncio para absolver Pepiño Blanco, hoje um importante lobista, de qualquer responsabilidade.

Segundo o Sr. Puente, os Centros de Regulação e Controle do Tráfego Ferroviário aumentaram de 1.008 para 1.772 funcionários e também implementaram uma ampla gama de "melhorias tecnológicas". Especificamente, o centro de Atocha aumentou de 70 para 133 funcionários. Além disso, ele argumenta que a Espanha possui a maior extensão de trilhos de alta velocidade na Europa com o sistema de segurança ERTMS ativo — embora insista que o sistema LZB, que apresentou falhas, é igualmente confiável. Ademais, somos um dos poucos países na Europa que utiliza o ASFA como sistema de segurança secundário. E, caso tudo isso falhe, "a humanidade não está sozinha. Eles têm sistemas de posicionamento de trens que verificamos que funcionam ". É preciso ser uma pessoa verdadeiramente desprezível — o que se encaixa perfeitamente aqui — para proferir tais absurdos com 115 mortes na consciência.

Segundo o Sr. Puente, ele nunca falou em "erro humano ", mas disse que o acidente se deveu a "decisões errôneas", e acredito que, até hoje, decisões ainda são tomadas por pessoas. Ele também disse que não iria "usar nenhum trabalhador como escudo ou pré-julgar responsabilidades ", mas seu maior ato de depravação — que lhe cai como uma luva — foi dizer sem dizer: "Não sou juiz, mas não posso ignorar os fatos" ou "Isso foi um erro? O que você quer que eu diga?".

Neste ponto, já me faltam adjetivos, e ainda assim, surpreendentemente, aqueles por quem sinto pena não são as famílias dos 69 mortos em Urda ou dos 46 em Adamuz. Nem mesmo as famílias que ainda não encontraram seus entes queridos e não sabem se estão vivos ou mortos. Muito menos, é claro, aqueles que ficarão incapacitados para o resto da vida. O único por quem realmente sinto pena é ele.

Imagino que você se lembre da coletiva de imprensa de Sánchez — "Vamos encerrar por aqui, são cinco horas e eu ainda não comi" — mas isso é muito pior. "Não desejaria a ninguém o que estou prestes a passar. Sei o que vão me fazer passar e, além disso, é durante uma campanha eleitoral. O mais fácil para mim seria ir embora, mas não foi isso que o presidente me pediu." Além disso, apesar da visita de Adamuz ter ocorrido no início do ano, o Sr. Puente afirma que eles — o ministério — só podem "aprimorar os protocolos" ou "implementar novos sistemas para verificar a tomada de decisões" neste momento.

Além disso, hoje, hoje!, nove meses depois de Adamuz e com 69 corpos ainda quentes em Urda, eles têm a audácia de "não descartar uma auditoria completa" do sistema ferroviário de alta velocidade espanhol e até ameaçam fechar a linha Madrid-Barcelona por "24 meses" para realizar as obras de reforma.

É simplesmente inacreditável!!!

Mas onde recrutamos essas pessoas? Como permitimos que se agarrassem ao poder dessa maneira? Com ​​tudo isso, será mesmo possível que o povo espanhol lhes dê mais quatro anos em Moncloa? Sério?





Mario Díaz. Diretor Adjunto.(

sexta-feira, 30 de outubro de 2026

Tarrafal 1975

 

As Elites e a Crise da Nação (Uma reflexão a partir de António Marques Bessa 1949-2022)

Num tempo em que a palavra «elite» surge quase sempre associada à crítica política, vale a pena recuperar o pensamento de António Marques Bessa, um dos relevantes estudiosos portugueses das minorias dirigentes. A tradição teórica a que dedicou parte importante da sua obra recorda-nos uma verdade frequentemente esquecida: as elites não são um acidente da História nem uma perversão exclusiva dos regimes democráticos. São uma constante das sociedades organizadas. A questão fundamental nunca foi, portanto, a sua existência. A verdadeira questão é outra: quem as selecciona, como se renovam e ao serviço de que interesses exercem o poder.

Esta reflexão assume hoje particular importância em Portugal. Não se trata de transformar Marques Bessa em comentador póstumo da nossa conjuntura, mas de partir das questões que estudou para interrogar a qualidade das lideranças actuais. O seu trabalho sobre o poder, a classe dirigente e a circulação das elites oferece instrumentos de análise; a leitura do presente e os juízos que dela decorrem são da responsabilidade de quem escreve.


Da escolha dos melhores à carreira no aparelho

Durante décadas, alimentou-se a ilusão de que a democracia resolveria automaticamente os problemas da selecção das lideranças, como se o sufrágio universal bastasse para garantir a ascensão dos mais capazes. Porém, a realidade revelou-se bastante mais complexa. Em vez de uma renovação assente no mérito, na competência e na experiência, assistimos demasiadas vezes à consolidação de uma classe política profissional cuja principal qualificação parece residir na capacidade de navegar os aparelhos partidários. O voto escolhe entre as alternativas apresentadas; não assegura, por si só, a qualidade dos mecanismos internos que as produziram.

A política transformou-se numa carreira que pode começar nas juventudes partidárias e prosseguir por gabinetes, assessorias, administrações, empresas participadas pelo Estado e organismos internacionais. Não é a passagem por uma juventude partidária que desqualifica alguém; é a possibilidade de um percurso inteiro se cumprir dentro de circuitos protegidos, sem suficiente confronto com responsabilidades profissionais exteriores ao aparelho. Quando a fidelidade interna vale mais do que a competência demonstrada, o partido deixa de seleccionar dirigentes para o País e passa a distribuir lugares pelos seus profissionais.


De Abril e Novembro à pobreza do presente

Sem idealizar o passado nem absolver os seus erros, importa reconhecer que a geração que atravessou o 25 de Abril e o 25 de Novembro deu expressão pública a figuras de elevada preparação intelectual, cultura histórica, experiência profissional e densidade política. Homens que podiam combater-se duramente dispunham, em muitos casos, de pensamento próprio e de uma ideia de Portugal. A comparação com a pobreza intelectual de tantas das actuais «elites» partidárias é penosa: onde havia projectos discutem-se posicionamentos; onde havia argumentos ensaiam-se frases; onde havia convicções calcula-se a reacção do aparelho.

Não se exige aos dirigentes que sejam todos professores ou escritores. Exige-se que saibam mais do que o argumentário da semana, conheçam o País para além dos mapas eleitorais e consigam pensar para além da próxima promoção. A inteligência política não se mede pela desenvoltura televisiva, nem a preparação para governar pelo número de anos passados nos corredores do poder.


Falar pelo povo sem conhecer o País

Formou-se, assim, uma camada dirigente que fala constantemente em nome do povo, mas parece conhecer cada vez menos os seus problemas concretos. A saída de jovens qualificados, a fragilidade demográfica, o esvaziamento de territórios do interior, as dificuldades de acesso à habitação e os problemas persistentes dos serviços públicos deveriam impor prioridades claras. Contudo, uma parte considerável do debate político perde-se entre disputas de aparelho, operações de comunicação e agendas importadas, cuja relevância para a vida quotidiana dos portugueses fica frequentemente por demonstrar.

É neste ponto que a reflexão sobre as elites se torna decisiva. Uma minoria dirigente compromete a sua legitimidade quando deixa de interpretar os interesses profundos da comunidade que governa. Deter poder formal não dispensa autoridade moral, visão estratégica e responsabilidade perante a colectividade nacional. O cargo confere competências legais; não concede automaticamente a capacidade de as exercer bem.


Decidir longe, responder pouco

A este afastamento soma-se a transferência de decisões para estruturas supranacionais. Políticas económicas, monetárias, energéticas e regulatórias são hoje enquadradas, em diferentes graus, por instituições europeias e por compromissos que limitam a margem de decisão exclusivamente nacional. Reconhecer esta realidade não implica negar as vantagens da integração europeia. Implica exigir que os dirigentes expliquem o que negoceiam, quais as escolhas disponíveis e por que razão as soluções defendidas servem Portugal.

As instituições europeias dispõem de mecanismos de representação e de controlo, mas isso não elimina a distância sentida pelos cidadãos perante decisões complexas e responsabilidades dispersas. Quando os governantes apresentam as opções difíceis como imposições exteriores e reservam para si o mérito dos benefícios, enfraquecem a prestação de contas. Essa sensação de impotência pode alimentar o descontentamento, o afastamento eleitoral e a procura de forças que prometam romper com o consenso dominante.


Mudar os nomes não garante mudar a qualidade

A História ensina, contudo, que a simples substituição de uma elite por outra não resolve automaticamente os problemas de uma sociedade. A circulação das elites, tema central da tradição estudada por Marques Bessa, não constitui um certificado de qualidade dos que chegam. Também os partidos que se apresentam como alternativa têm de responder à mesma exigência: como escolhem os seus dirigentes, que competências valorizam e que capacidade demonstram para servir a comunidade nacional?

Nenhum país dispensa minorias dirigentes competentes, e nenhuma democracia pode desvalorizar indefinidamente os mecanismos que deveriam premiar o mérito, a inteligência, a experiência e a responsabilidade. A renovação exige abertura a pessoas com provas dadas, liberdade de pensamento e disponibilidade para responder pelos resultados. Trocar uma clientela por outra, conservando os mesmos métodos de promoção, seria apenas mudar os ocupantes dos lugares.


Renovar as elites para servir a Nação

Portugal não necessita de uma guerra demagógica contra as elites. Necessita de uma profunda renovação da sua qualidade: dirigentes capazes de pensar para além do próximo ciclo eleitoral; empresários inovadores que não façam da proximidade ao Estado a condição do seu êxito; intelectuais que não confundam pensamento crítico com conformismo ideológico; lideranças enraizadas na realidade nacional, com experiência que ultrapasse os circuitos fechados da política profissional.

A erosão da qualidade das lideranças é um dos factores que podem precipitar a decadência de uma nação, mesmo quando esta dispõe de recursos, talento e oportunidades. É essa a interrogação que a leitura de Marques Bessa nos ajuda a formular: uma sociedade não se mede pela ausência de elites, mas pela capacidade de formar e seleccionar elites que sirvam a Nação em vez de se servirem dela.


A questão que se coloca aos portugueses não é saber se querem elites. A História demonstra que elas existirão sempre. A questão verdadeiramente decisiva é outra: continuarão os portugueses a aceitar elites que já não parecem dispostas a assumir as responsabilidades inerentes ao exercício do poder?


Referências bibliográficas e leitura complementar

BESSA, António Marques, Quem Governa? Uma Análise Histórico-Política do Tema da Elite, Lisboa, ISCSP, 1993. Registo bibliográfico.

BESSA, António Marques, Elites e Movimentos Sociais, Lisboa, Universidade Aberta, 2002. Repositório da Universidade Aberta.

BESSA, António Marques, A Arte de Governar: Ensaios sobre Classe Dirigente e Fórmula Política, Lisboa, ISCSP, 1996.

MOSCA, Gaetano, The Ruling Class, Nova Iorque, McGraw-Hill, 1939.

PARETO, Vilfredo, The Mind and Society, Nova Iorque, Dover Publications, 1963.

MICHELS, Robert, Political Parties: A Sociological Study of the Oligarchical Tendencies of Modern Democracy, Nova Iorque, Free Press, 1962.

PINTO, Jaime Nogueira, «Um homem livre: António Marques Bessa (1949–2022)», Observador, 27 de Agosto de 2022.