Quando o argumento morre, sobra a etiqueta.
E quando o medo manda, o regime pede “boa educação”.
Durante anos venderam-nos a novela apocalíptica: a “democracia” estava a cair, o “regime” tremia, a História regressava de botas cardadas. André Ventura era tudo — fascista, nazi, racista, antidemocrata — o bingo completo do pânico moral. Era suposto o povo entrar em modo de pavor permanente, com a imprensa a tocar sirenes e o comentariado a fazer de bombeiro-pirómano.
Nada pegou como queriam. E, quando a chantagem começou a perder gás, o guião mudou: já não é Hitler — é um malcriado. Já não é ameaça ao Estado de Direito — é ameaça ao bom-tom. A tragédia ideológica virou queixume de salão: Ventura não tem “gravitas”, não tem “maneiras”, não tem “perfil”. Em suma: pode deixar o país “mal na fotografia” lá fora.
E eis a solução milagrosa do regime: ~
António José Seguro, o “bem-educado”. Manso, previsível, polido, cordato. Um candidato que não incomoda, não agita, não ameaça o conforto institucional de ninguém. O homem certo para tranquilizar a tribo dos instalados e para embalar a consciência dos que confundem civilidade com virtude política.
Repare-se no truque: reduzir a escolha presidencial a um concurso de etiqueta. Como se a nação estivesse a eleger um mestre-de-cerimónias para jantares diplomáticos — e não um Presidente. Como se o país precisasse de um candidato “fofinho” para a fotografia do protocolo, em vez de um juízo político sobre rumo, poder e responsabilidade.
É aqui que a operação fica obscena: esta súbita cruzada pelas “boas maneiras” aparece precisamente quando se consolida um candidato alternativo junto dos deixados para trás — os que o sistema despreza, mas de quem precisa para fingir que representa “o povo”. E então o regime, impotente para rebater ideias, recorre ao insulto social em modo educadinho: “baixa escolaridade”, “equivocados”, “deploráveis”, “gente sem maneiras”. A mesma condescendência de sempre, agora perfumada com colónia institucional.
O mais cómico — e ao mesmo tempo o mais revelador — é ver os revolucionários de ontem e os activistas de hoje, herdeiros de uma tradição que sempre desprezou a “civilidade burguesa”, fingirem uma súbita paixão pelo decoro. Ontem a rua era “legítima”; hoje o problema é o tom. Ontem era a luta; hoje é a etiqueta. O antifascismo virou manual de boas maneiras para consumo de elites.
Convém dizer o óbvio: não vamos escolher um simpático. Vamos fazer uma escolha política. E o candidato que “não grita” continua a ser socialista. O “bem-educado” continua a representar uma máquina, uma cultura e uma rede — a mesma velha engenharia de poder que vive do regime e para o regime, e que agora convoca a direita domesticada para um abraço temporário e interesseiro.
A frase “é bem-educado” não é elogio político: é senha de reconhecimento. É o carimbo do sistema. É a forma polida de dizer: este é dos nossos, não estraga a festa.
Agulhadas finais
– Quando o argumento morre, o regime refugia-se no decoro: a etiqueta é o último reduto de quem já não tem razão.
– A “boa educação” virou arma política: não para elevar o debate, mas para domesticar o voto.
– Quando todos os bem-educados se juntam numa unanimidade tão civilizada, é porque alguém saiu do guião — e isso mete medo. ```



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