reVISÕES
domingo, 5 de julho de 2026
O Código Laboral foi apenas o episódio...
sexta-feira, 3 de julho de 2026
o dia em que a velha direita percebeu que já não manda sozinha ...na direita!
Durante muito tempo, a direita instalada habituou-se a tratar o CHEGA como um instrumento útil, embora desagradável. Serviria para pressionar o PS, para assustar a esquerda, para engrossar maiorias ocasionais, para votar aquilo que fosse conveniente ao Governo, e depois regressaria obedientemente ao seu lugar no canto da sala, com a etiqueta pronta: populista, radical, inconveniente, mas parlamentarmente aproveitável.
O problema é que André Ventura percebeu uma coisa que muitos no PPD/PSD ainda não perceberam: quem tem 60 deputados não está na Assembleia da República para fazer de figurante. E quem representa mais de um milhão e quatrocentos mil votos não tem obrigação política, moral ou estratégica de se ajoelhar diante de uma direita antiga, cansada, liberal na economia, tímida na cultura, assustada na imigração e dependente de agências de comunicação para fabricar frases ocas.
A ambiguidade estratégica de Luís Montenegro — ora com o PS, ora com o CHEGA, conforme a conveniência do dia — podia talvez funcionar enquanto o CHEGA aceitasse o papel de força auxiliar. O episódio do Código Laboral mostrou que esse tempo acabou. Ventura recusou ser transformado em bengala parlamentar de uma reforma que, na sua leitura, falhava precisamente onde uma direita popular não pode falhar: no trabalho, na família, na segurança económica e na dignidade de quem vive do salário.
E aqui está a novidade que muitos comentadores ainda fingem não ver. O CHEGA não se limitou a votar contra uma proposta do Governo. Fez algo mais profundo: recusou a redução da direita portuguesa ao liberalismo económico de gabinete. Recusou a ideia de que ser de direita significa necessariamente aceitar qualquer reforma laboral em nome da competitividade, da flexibilidade e da bela música tecnocrática que geralmente termina sempre no mesmo sítio: mais insegurança para quem trabalha e mais conforto para quem manda.
É aqui que a leitura de José Costa-Deitado [ Universidade de Santiago de Compostela Prof Emérito FCT/ UNL Nova SBE - https://cdeitado.blogspot.com/2026/06/benedikt-kaiser-uma-aula-sobre.html ] sobre a Nova Direita se torna especialmente pertinente. A Nova Direita europeia — francesa, alemã, italiana — não é apenas uma direita mais barulhenta, nem uma direita com bandeiras maiores, nem uma direita com slogans mais duros sobre imigração. É, no seu melhor, uma tentativa de reconstruir a direita em torno de três eixos que a velha direita abandonou: soberania, identidade e justiça social.Benedikt Kaiser [Deutscher Autor und Publizist der Neuen Rechten.] é importante precisamente por isso. A sua reflexão sobre metapolítica, hegemonia e patriotismo solidário aponta para uma direita que compreende que a batalha política não se ganha apenas no Parlamento, nem apenas nas eleições, nem apenas nos soundbites televisivos. Ganha-se antes no vocabulário, nas ideias, nas instituições, na cultura, nas redes sociais, nos temas que se impõem e nos conceitos que deixam de pertencer automaticamente à esquerda.
Durante décadas, a esquerda apropriou-se da palavra “social”. A direita liberal deixou. Pior: colaborou. Aceitou que falar de salários, trabalho, protecção familiar, abandono das periferias, insegurança económica ou dignidade dos pequenos fosse matéria da esquerda. A velha direita ficou com a gestão, os défices, os impostos, as empresas, os mercados e os congressos onde se anunciam “novos ciclos” sem que nada realmente comece.
Ora, a Nova Direita começa precisamente quando a direita deixa de pedir licença para falar do social. E é isso que o CHEGA, com todas as suas imperfeições, excessos, simplificações e teatralidades, parece ter compreendido melhor do que o PPD/PSD. A direita que quer disputar o povo não pode apresentar-se apenas como contabilista da ordem liberal. Tem de falar de pertença, de segurança, de trabalho, de fronteiras, de família, de soberania, de comunidade e de justiça.
Não se trata de converter o CHEGA num partido operário clássico, nem de fingir que André Ventura é uma versão portuguesa de Benedikt Kaiser. Seria absurdo. Kaiser pensa em termos metapolíticos, doutrinários, culturais e estratégicos; Ventura age no terreno parlamentar, mediático e eleitoral. Kaiser escreve para formar quadros e construir hegemonia; Ventura fala para ocupar o espaço público e transformar ressentimento social em força política. Mas a convergência é clara: ambos perceberam que a direita do século XXI não pode limitar-se a administrar o neoliberalismo com bandeiras nacionais à porta.
O episódio do Código Laboral foi, por isso, mais do que um chumbo. Foi uma declaração de independência. Ventura disse ao PPD/PSD que a sua maioria, quando existe, não é propriedade de Montenegro. Disse à direita liberal que a palavra “reforma” não é sagrada. Disse ao país que o CHEGA não aceita ser útil apenas quando vota a favor. E disse ao seu próprio eleitorado que não está no Parlamento para servir de muleta a uma direita que gosta muito de invocar o povo em campanha, mas que rapidamente o esquece quando chegam as propostas redigidas no idioma dos consultores.Claro que isto incomoda. Incomoda o PPD/PSD, porque lhe retira o monopólio simbólico da direita. Incomoda a Iniciativa Liberal, porque mostra que há uma direita para além da fantasia do mercado perfeito. Incomoda o PS, porque percebe que a oposição social já não lhe pertence por direito hereditário. E incomoda o comentariado, porque o obriga a rever as suas gavetas mentais: afinal, o CHEGA não cabe apenas no rótulo preguiçoso de “extrema-direita”. Há ali outra coisa. Uma coisa mais incómoda: uma direita popular, nacional, social e culturalmente contra-hegemónica.
Jorge Fernandes viu bem a vitória de Ventura. Mas talvez a vitória seja ainda maior do que parece. Ventura não ganhou apenas uma votação. Ganhou centralidade. Ganhou autonomia. Ganhou o direito de dizer ao PPD/PSD: vocês já não decidem sozinhos o que é a direita em Portugal.
E isto muda tudo.
A velha direita portuguesa sempre viveu convencida de que havia apenas duas hipóteses: ou a direita respeitável, isto é, ela própria; ou a direita irresponsável, isto é, todos os que não aceitassem a sua tutela. O CHEGA veio baralhar esta geometria. Não quer apenas sentar-se à mesa. Quer mudar a mesa. Quer mudar a ementa. Quer mudar a linguagem do jantar. E, pior ainda para os donos antigos da casa, trouxe convidados que nunca tinham sido admitidos na sala principal.
Pode discutir-se se o fará bem ou mal. Pode criticar-se Ventura, e deve criticar-se quando for necessário. Pode reconhecer-se que há no CHEGA impulsos contraditórios, improvisações, tentações demagógicas e excessos de comunicação. Mas o essencial é outro: a direita portuguesa entrou numa fase pós-PPD. E o PPD/PSD ainda não percebeu que já não está perante uma dissidência; está perante uma concorrência histórica.
O Código Laboral foi apenas o episódio. A recomposição da direita é o acontecimento.
A vitória de André Ventura não foi ter chumbado uma reforma. Foi ter obrigado toda a gente a perceber que a Nova Direita portuguesa já não pede autorização para existir.
quarta-feira, 1 de julho de 2026
o enorme equívoco do PPD/PSD
segunda-feira, 29 de junho de 2026
Benedikt Kaiser: uma aula sobre metapolítica, hegemonia e patriotismo solidário
sábado, 27 de junho de 2026
Benedikt Kaiser e André Ventura: a montante das ideias e a jusante da política
quarta-feira, 24 de junho de 2026
A letargia como método de fazer politica!
O problema do actual PPD/PSD já não é ter renegado a ideologia dos seus fundadores. Esse seria, pelo menos, um problema doutrinário. O problema é mais pobre e, por isso mesmo, mais grave: o partido parece ser cada vez menos uma organização de ideias, propostas e visão nacional, e cada vez mais uma máquina de ocupação do poder.
Miguel Morgado foi ainda mais cirúrgico ao escrever que «o actual PPD ficou dependente de divisas ocas, e às vezes apalermadas, cunhadas por agências de comunicação». A frase é dura, mas justa. O slogan substituiu a doutrina; o soundbite substituiu a proposta; a pose substituiu o pensamento. E quando um partido confunde comunicação com política, acaba fatalmente por confundir prudência com cobardia e centralidade com vazio.
André Azevedo Alves tem, por isso, razão quando vê na letargia do PSD uma ameaça não apenas para o partido, mas para o próprio país. Um PSD sem imaginação política, sem identidade reconhecível e sem coragem reformista não lidera coisa nenhuma. Administra intervalos. Gere calendários. Aguarda que o CHEGA se engane. E, quando o CHEGA não se engana, acusa-o simplesmente de existir.
É aqui que a recente discussão sobre negociações se torna reveladora. Negociar não é proclamar vencedores e vencidos no fim de cada reunião, como se a política fosse uma espécie de campeonato de frases para telejornal. Negociar é ouvir, argumentar, ceder no acessório para preservar o essencial e construir um acordo satisfatório entre partes que podem ter interesses diferentes, mas não têm de ser inimigas. Quem transforma cada negociação numa humilhação ou numa capitulação revela não firmeza, mas infantilidade política.
Entretanto, Portugal continua atrasado. Teve fundos europeus, turismo, imigração em massa, conjunturas favoráveis e promessas sucessivas de modernização. Mas não convergiu. O país foi ficando relativamente mais pobre, mais dependente e mais resignado.
A letargia do PSD é, neste sentido, parte da letargia nacional: muita gestão, pouca reforma; muita comunicação, pouca política; muita pose, pouca ideia. O drama do PSD não está em negociar com o CHEGA. Está em já não saber negociar consigo próprio: com a sua história, com a sua direita, com o seu país e com a realidade.
Referências: André Azevedo Alves, «A letargia do PSD e o atraso do país»; Miguel Morgado, «Uma derrota e um impasse»; José Manuel Fernandes, «O chumbo de Ventura animou mas não salvou o Congresso do PSD».
segunda-feira, 22 de junho de 2026
A propósito do chumbo da Lei Laboral
O problema com o PSD não é ter renegado
a ideologia dos seus fundadores – o problema mesmo é ser cada vez menos um
partido de ideias e propostas e mais um partido de simples ocupação do poder. (José Manuel Fernandes)
José Manuel Fernandes também toca no nervo quando identifica no PPD/PSD o vício do partido de ocupação do poder: muito aparelho, muita táctica, muita frase gongórica, mas pouco propósito. Uma agenda reformista não nasce de São Bento nem de uma moção de congresso inchada de palavras. Nasce de uma ideia de país, de uma pedagogia política e de uma maioria que se constrói antes do dia fatal da votação.
A questão sobre o posicionamento do PPD/PSD face à viragem do país à direita e à existência de uma maioria parlamentar tem marcado o debate político recente. (Passos Coelho)
E Passos Coelho, goste-se ou não dele, disse o óbvio que o actual PPD/PSD fingiu não ouvir: se o país virou à direita e se há uma maioria parlamentar à direita, então era dentro da direita parlamentar que devia ter sido tentado um acordo de legislatura, com CHEGA e IL. Difícil? Evidentemente. Impossível? Só se saberia tentando. Mas o actual PPD/PSD preferiu continuar a brincar ao centro virtuoso entre dois “extremismos”, enquanto precisava dos votos de um deles para governar.
domingo, 21 de junho de 2026
Primeiro foi o "não é não"
o que agora é imputado ao CHEGA pelo PPD/PSD nos anos 90 era atribuído ao CDS.













